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Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
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No princípio, conforme o livro do Gênesis, na Bíblia Ave-Maria (Gn 1,2-3), “a terra era sem forma e vazia”, até que Deus pronunciou uma das mais poderosas expressões registradas pela tradição judaico-cristã: “Faça-se a luz!”. E a luz foi feita.
Com esse ato, descrito no livro das origens, teve início a criação do universo, estabelecendo a ordem sobre o caos e tornando possível o surgimento da vida.
Criado à imagem e semelhança de Deus, segundo a tradição bíblica, o ser humano também recebeu a capacidade de criar e, desde os tempos mais remotos, essa faculdade manifestou-se por meio da arte, uma das expressões mais significativas da inteligência e da sensibilidade humana.
Mesmo antes do aparecimento da escrita, homens e mulheres pré-históricos já deixavam registros de sua existência nas paredes das cavernas. As chamadas pinturas rupestres revelam grafismos, figuras esquemáticas e cenas que representam seres humanos e animais, frequentemente associados às atividades de caça, testemunhando os primeiros esforços para interpretar e comunicar, à posteridade, experiências vividas.
Com o passar dos séculos, a criatividade humana ampliou seus horizontes. Surgiram os monumentos megalíticos, construções erguidas com enormes blocos de pedra, cuja grandiosidade continua despertando admiração e curiosidade.
Essas obras demonstram que, embora dispusessem de recursos limitados, nossos ancestrais foram capazes de conceber e executar realizações complexas, movidos por crenças, conhecimentos e objetivos coletivos.
Ao longo dessa trajetória, o ser humano utilizou os mais diversos suportes e elementos oferecidos pela natureza. Argila, pedra, madeira, ossos e outros materiais transformaram-se em instrumentos de expressão artística, religiosa e cultural.
Cada objeto produzido carregava não apenas uma função prática, mas também significados simbólicos que ajudavam a explicar o mundo e a preservar e transmitir conhecimentos entre gerações.
Entretanto, antes da obra material existe algo ainda mais importante: a ideia. Toda criação nasce inicialmente no pensamento, como uma possibilidade que se forma no universo da imaginação.
É nesse estágio invisível que a criatividade encontra sua origem. A concepção antecede a execução; o sonho precede a realização. Nesse sentido, a criação humana representa um encontro entre imaginação, conhecimento, experiência e sensibilidade.
Tal mistério inspirou artistas e pensadores ao longo dos tempos, como no soneto “A ideia” de Augusto dos Anjos, em cujo primeiro verso ele formula uma indagação que permanece atual: “De onde ela vem?”.
Embora o poeta se refira à ideia em um contexto particular (a limitação da palavra refletir plenamente o pensamento), a pergunta continua ecoando sempre que buscamos compreender a origem dos pensamentos criadores que conduzem às descobertas científicas, às invenções tecnológicas e às manifestações artísticas.
Reflexão semelhante encontra-se na canção “O Poder da Criação”, composta por João Nogueira e Paulo César Pinheiro. Em um de seus trechos mais conhecidos, os autores afirmam: “Força nenhuma do mundo interfere / Sobre o poder da criação”.
Os versos da canção exaltam a liberdade criadora e a capacidade humana de produzir algo novo, ultrapassando limites impostos pelas circunstâncias e transformando a realidade por meio da arte.
Da pintura rupestre às grandes civilizações, dos monumentos de pedra às esculturas, da invenção da escrita às múltiplas linguagens artísticas, a história da humanidade pode ser compreendida também como a história da própria arte.
Na classificação tradicional, as artes eram apresentadas como arquitetura, escultura, pintura, música, literatura, dança e cinema (considerada a sétima arte desde o século XX). Contudo, essa classificação foi ampliada ao longo do tempo, incorporando outras expressões artísticas, entre elas a fotografia, as histórias em quadrinhos, os jogos eletrônicos e a arte digital, incluindo-se aquelas baseadas no uso de inteligência artificial.
Interessante observar que o desenvolvimento das artes sempre esteve relacionado aos avanços da engenharia dos materiais (cerâmicas, metais, vidros, tintas, vernizes, polímeros e compósitos), da engenharia eletrônica (robótica, sensores e atuadores), da engenharia civil e da engenharia mecânica (ambas como suportes para a arquitetura) e da engenharia da computação (aplicações algorítmicas, prototipagem virtual e IA).
Por isso, as tecnologias avançadas, longe de substituírem a criatividade humana, devem ser entendidas como ferramentas que ampliam possibilidades, permitindo que artistas aliem sua sensibilidade, imaginação e repertório cultural aos recursos oferecidos pelas máquinas.
Assim, no mundo contemporâneo, a arte continua em plena evolução, preservando a centelha criadora que acompanha a humanidade desde os tempos mais remotos e que, em última instância, remete àquele instante primordial em que, segundo o livro das origens, Deus, o Criador do universo, fez surgir a luz sobre as trevas.
Leia a coluna anterior:
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