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Jurani Clementino

Jurani Clementino

Jornalista, professor universitário, escritor e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

O não debate também é debate

Por Jurani Clementino
Publicado em 2 de outubro de 2026 às 12:49

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Quando eu entrei na faculdade de jornalismo, em 2001, uma das discussões mais acaloradas sobre Comunicação e Política era o debate presidencial promovido pela Rede Globo, no ano de 1989, que favorecia o candidato Fernando Collor de Melo, e comprometia a campanha do líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva. A Globo demorou, como sempre, uma eternidade para reconhecer que não deveria ter editado aquele debate porque um candidato tinha sido prejudicado. Mas nem assim ela aprendeu. Por um motivo simples: entre 1970 e 1990, quem quisesse assumir a presidência da república e o governo do Rio de Janeiro, tinha que se ajoelhar diante da família Marinho e pedir a benção. Só dois políticos, ligados aos trabalhadores, se negaram a isso: Lula (a nível nacional) e Brizolla (a nível de estado).

Collor de Melo era um desses muitos aventureiros da república. Mais um riquinho que tirava onda na High Society carioca, com o dinheiro das usinas de cana de Alagoas, onde o pai e o avô (Grupo Arnon de Melo) eram praticamente donos daquele estado. Mas para os Marinhos, Collor falava bem, era namorador, meio galã, alto e, portanto, tinha um perfil muito semelhante ao dos personagens das novelas da Globo. Collor foi uma invenção de Roberto Marinho que inicialmente deu certo. Convenceu todo mundo e depois a própria Globo viu que não prestava e com o apoio popular, ajudou a derrubá-lo da presidência. Então era assim: até os anos noventa as organizações Globo botavam e tiravam certos políticos do poder.

Alem disso, Os Marinhos definiam o que a gente tinha que ouvir, em quem a gente tinha que votar, o que era bonito, o que era feio… a Globo tinha, portando, um poder tremendo sobre a cabeça dessa nação. E como todo poderoso que perde a coroa, eles continuam se comportando como as monarquias falidas: não querem perder a majestade. Mas ontem aconteceu algo interessante: mais uma vez a Globo queria favorecer um candidato em seu debate antes da eleição. Mas os tempos são outros. Lula não é tolo. Sabe das intenções do grupo Globo desde a sua fundação, e caiu fora. Foi pra outro espaço onde pudesse ter mais voz e ser menos atacado: o Flow Podcast. E arrastou para o canal na internet a audiência de um milhão e meio de pessoas, simultaneamente. Hoje passa dos vinte milhões de visualizações. E ali ele disse o que jamais poderia dizer na Globo.

Nesses novos tempos, a internet apresenta-se com um potencial enorme de alcance social. Quem ganha com isso? Eu apostaria no eleitor que, consciente de suas ações, pode encontrar seu candidato livre das amarras do grupo Globo, das organizações Roberto Marinho, dos interesses corporativos que envolvem essas velhas empresas de comunicação. O Flávio Bolsonaro até tentou aproveitar o seu palanque com tranquilidade, mas, mesmo depois de jurar que ia participar do debate com os outros candidatos, confirmar com a Globo a sua presença…. voltou atrás e correu para a internet, porque, afinal, esse campo das novas mídias sempre foi o espaço de conforto do pai, Jair Messias, mas o Flavio patinou na audiência em comparação a Lula que reinou do início ao fim.

Até na hora de anunciar que o debate tinha sido cancelado, a Globo culpou as instituições por isso. Jogou a responsabilidade para a Suprema Corte, mas todo mundo sabe que não foram as decisões judiciais que mandaram o debate para o ralo. Primeiro foi a desistência de Lula, depois o arrego de Flávio Bolsonaro – motivado principalmente pelo direito de Renan Santos ir aos estúdios globo, e terceiro, e não menos importante, com as ausências de Lula e Flávio a toda poderosa Rede Globo, achou humilhante demais promover um debate com meia dúzia de candidatos nanicos que nem fedem nem cheiram na disputa presidencial. Ou seja, seria uma conversa da ralé na fila do pão. Humilhante demais para os padrões globo.

Aí você pode imaginar que no podcast o Lula só respondeu perguntas convenientes e confortáveis a ele. Mas não foi assim porque diversos assuntos delicados de seus governos foram colocados em pauta. Mas não com a empáfia de William Bonner ou a falsa imparcialidade de um César Trali. Falaram sobre crise no STF, sobre as indicações políticas na Suprema Corte, sobre as acusações do filho do presidente, o Lulinha, sobre a proibição das bets e o aumento no Bolsa Família em plena campanha eleitoral, sobre o banqueiro Daniel Vorcaro e o banco Master que roubaram milhões dos aposentados… enfim, discutiram uma infinidade de temas delicados para um presidente da república, e Lula se saiu bem em todos principalmente porque não tinha uma limitação de tempo que os debates geralmente impõe aos candidatos.

E concluiu a entrevista deixando dois recados importantes: para os idosos irem votar no próximo domingo, e os jovens se envolverem mais com política, se filiarem a partidos políticos e lançarem suas candidaturas. Lula pode ter todos os defeitos do mundo, você que me escuta e me lê, pode odiá-lo e esse é um direito seu, mas não se pode negar que Lula é um grande estadista. Talvez o último que veremos. Depois de Lula só teremos esses aventureiros da república feito Fernando Collor de Melo. Uns zés ruela da política brasileira.

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