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Benedito Antonio Luciano

Benedito Antonio Luciano

Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

A Igreja do Diabo

Por Benedito Antonio Luciano
Publicado em 12 de agosto de 2026 às 9:27

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O escritor Machado de Assis é o autor do conto intitulado “A Igreja do Diabo”, publicado originalmente na Gazeta de Notícias, em 17 de fevereiro de 1883, e posteriormente incluído na coletânea Histórias sem Data, em 1884.

Dividido em quatro capítulos, “A Igreja do Diabo” é um conto curto, marcado por ironias finas e referências intertextuais inseridas de forma elegante, e não de maneira meramente ocasional, características marcantes do estilo machadiano.

No capítulo I, intitulado “De uma ideia mirífica”, já no primeiro parágrafo, o autor apresenta o primeiro personagem, nos seguintes termos: “Conta um velho escrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a ideia de fundar uma igreja”.

No conto, a motivação do Diabo para criar uma igreja teria sido o fato de ele sentir-se humilhado e inconformado com o papel avulso que exercia desde o início dos séculos, “sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada”.

Então, ele teria pensado que fundar uma igreja seria um meio eficaz de combater as religiões formalmente estabelecidas e destruí-las de uma vez por todas.

Assim, com essa ideia na cabeça, o Diabo resolveu voar em direção ao céu para ter com Deus, comunicar-lhe a ideia e desafiá-lo. Deus passa, então, a ser o segundo personagem.

No capítulo II, intitulado “Entre Deus e o Diabo”, é introduzido, de forma breve, o terceiro personagem: um ancião recém-chegado ao céu, que estava sendo acolhido por Deus. O nome desse ancião é revelado no seguinte diálogo entre Deus e o Diabo:

— Que queres tu? — Teria indagado Deus ao Diabo.

— Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os Faustos do século e dos séculos.

Haveria, na escolha do nome Fausto, uma alusão ao célebre personagem criado por Goethe, que vende a alma ao Diabo em troca de conhecimento, poder e prestígio?

Prosseguindo na leitura desse capítulo e observando o diálogo estabelecido entre Deus e o Diabo, veio-me à lembrança o Livro de Jó, obra presente no Antigo Testamento da Bíblia Sagrada dos cristãos, no qual o personagem Jó era um homem íntegro, reto, temente a Deus e afastado do mal.

Nesse contexto, em Jó 1.6-12, o Diabo questionou a fidelidade de Jó, desafiando Deus a retirar a proteção que mantinha sobre ele e lançando o desafio: “Estende a tua mão e toca em tudo o que ele possui. Juro-Te que te amaldiçoará na tua face”.

Deus aceitou que Jó fosse posto à prova, mas estabeleceu um limite: “Tudo o que ele possui está em teu poder. Mas não estendas a tua mão contra a sua pessoa”. E Satanás saiu da presença do Senhor.

O foco restante da narrativa do livro não é mais Satanás, mas sim a luta interior de Jó para manter a fé. No fim, passando por todas as provações a que foi submetido por Satanás e mantendo a integridade, o Senhor o restabeleceu ao estado anterior e lhe tornou em dobro tudo quanto tinha perdido pelas ações do maligno (Jó 42.10).

Nesses capítulos iniciais de “A Igreja do Diabo”, o autor estabelece o conflito central da narrativa: a tentativa vã do Diabo de organizar institucionalmente o mal e provar sua superioridade sobre as religiões tradicionais. Entretanto, o tom irônico sugere desde cedo que a questão principal não será a luta entre Deus e o Diabo, mas a própria complexidade da natureza humana, tema desenvolvido nos capítulos seguintes.

No capítulo III, intitulado “A boa nova aos homens”, Machado de Assis apresentou o momento em que o Diabo, de volta à terra, colocou em prática seu projeto de fundar uma igreja própria. Assumindo uma postura de pregador, ele procurou seduzir os homens com uma doutrina baseada na exaltação dos vícios e dos desejos humanos.

A boa nova é que, na Igreja do Diabo, todos os pecados capitais (soberba, luxúria, preguiça, avareza, ira, gula e inveja) são convertidos em virtudes naturais, legítimas e plenamente justificáveis.

No capítulo final, intitulado “Franjas e franjas”, a Igreja do Diabo parece alcançar pleno sucesso. Contudo, o fundador descobre algo inesperado: seus próprios seguidores, embora adeptos dos vícios pregados por ele, continuam praticando discretamente atos de bondade, generosidade e virtude. Alguns cometem pecados ostensivamente, mas outros preservam pequenas atitudes morais em segredo.

Esse fato desorientou o Diabo, que, irado, voou de novo ao céu para conversar com Deus e descobrir a causa secreta de tão singular fenômeno. Então, “Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, nem triunfou daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele e disse-lhe:

Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Eis, então, o núcleo filosófico do conto. Ao concluir, Machado de Assis sugere que a natureza humana, cheia de ambiguidades morais, é contraditória e complexa, sendo incapaz de aderir integralmente ao bem ou ao mal.

Na realidade, o ser humano não se enquadra em sistemas morais absolutos: mesmo quando segue uma doutrina do vício, conserva traços de virtude; e mesmo quando busca a virtude, mantém inclinações menos nobres.

Leia a coluna anterior:

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