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Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
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O ano de 1969 marcou um ponto de inflexão em minha vida. O mentor dessa mudança foi o meu tio Antonio Fernandes, irmão mais novo de minha mãe.
Naquela oportunidade, de passagem por Campina Grande (PB), ele perguntou aos meus pais se eles permitiriam que eu viajasse com ele para passar metade de minhas férias escolares na casa dele, em Feira de Santana (BA). Os meus pais concordaram, e essa foi a segunda vez que voltei ao estado da Bahia por iniciativa do meu tio.
Em 1969, Campina Grande possuía 157.149 habitantes, enquanto Feira de Santana contava com cerca de 136.000 habitantes, o que demonstra que ambas já figuravam entre os mais importantes centros urbanos do interior nordestino.
No trajeto entre as duas cidades, pernoitamos em Patos (PB), no hotel JK, e visitamos Coremas (PB), onde ficamos hospedados no hotel de Maria da Costa Ribeiro (Dona Maricô). Depois, seguimos em direção à Bahia, passando pelo estado de Pernambuco, onde atravessamos a ponte sobre o Rio São Francisco que separa as cidades de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA).
Durante a viagem, enquanto dirigia o carro, o meu tio conversou muito comigo. Falou sobre a nossa família Fernandes, sobre a amizade entre ele e meu pai, desde o tempo em que eles eram solteiros e moravam em Coremas (PB), e um pouco sobre sua trajetória profissional, trabalhando em grandes construtoras de renome nacional.
Em 1969, ele morava em Feira de Santana, na Avenida Maria Quitéria, em uma residência localizada no tradicional bairro da Kalilândia, na companhia de sua esposa Josefa Fernandes e de seus filhos. Na mesma cidade também morava o irmão dele, Sebastião Fernandes.
Próximo à residência do meu tio Sebastião havia uma estação ferroviária e um campinho de areia onde eu e meus primos jogávamos bola, antes de a expansão imobiliária ocupar todos os terrenos baldios.
Havia também uma antiga estação da Viação Férrea Federal Leste Brasileiro, cujos trens transportavam passageiros e mercadorias para Salvador, Alagoinhas, Cachoeira e outras cidades do interior da Bahia.
Apresentada na Figura 1, a estação rodoviária, então recém-inaugurada, representava um símbolo de modernização e das transformações urbanísticas que já se faziam presentes na cidade.
Figura 1 – Vista da antiga estação rodoviária de Feira de Santana.
Foto: Arquivo particular.
As igrejas marcavam a religiosidade da cidade, com destaque para a Catedral Metropolitana de Sant’Ana, a Igreja dos Capuchinhos e a famosa Igreja Senhor dos Passos. Além dos templos católicos, havia na zona urbana diversos terreiros de candomblé, que contribuíam para a preservação das religiões de matriz africana.
A vida social era intensa e os principais clubes eram o Cajueiro, o Feira Tênis Clube e outros centros recreativos, além das famosas micaretas, que rivalizavam com o carnaval de Salvador. Ali, pela primeira vez, vi um trio elétrico. Salvo engano, era o Trio Elétrico Patury, precursor de outros trios, como o Tapajós, Jacaré e Ypiranga.
Naquele tempo, em Campina Grande, havia a rivalidade entre dois times de futebol profissionais: o Campinense Clube (Raposa) e Treze Futebol Clube (Galo da Borborema). Em Feira de Santana, os times rivais eram o Fluminense (Touro do Sertão) e o Feira de Santana Esporte Clube. O principal jornal de Campina Grande era o Diário da Borborema e o de Feira de Santana era o Jornal Folha do Norte.
As emissoras mais ouvidas eram a Rádio Sociedade de Feira e a Rádio Cultura de Feira. Elas levavam ao ar noticiários, músicas, radionovelas e transmissões de jogos de futebol.
Em 1969, havia poucas edificações altas na cidade. As casas residenciais possuíam muros baixos, jardins e quintais amplos; as ruas centrais eram amplas e por elas transitavam automóveis, caminhões do tipo “pau-de-arara” e animais vindos das zonas rurais com destino à feira.
Em Feira de Santana, três meses antes de completar quinze anos, participei de aventuras capazes de fazer inveja a muitos colegas de minha idade, entre elas, assistir a um filme censurado para menores de dezoito anos. O referido filme foi “Os Paqueras”.
Dirigido por Reginaldo Farias, “Os Paqueras” era um filme simples. Mas, para um jovem que estava muito mais interessado em ver cenas de nudez do que em se preocupar com o eventual conteúdo artístico do filme, o que ficou marcado na minha memória foi a música “Fuga No 2”, presente na trilha sonora. Foi a primeira vez que eu ouvia uma canção dos “Mutantes”, com um arranjo tão bem elaborado.
“Os Mutantes” era um grupo de rock formado na cidade de São Paulo, em 1966, integrado por Rita Lee e pelos irmãos Arnaldo Baptista e Sérgio Dias Baptista.
A volta de Feira de Santana foi emblemática. Aos quatorze anos, fui submetido pelo meu tio a uma espécie de rito de passagem que nunca esqueci: viajar sozinho, partindo da rodoviária de Feira de Santana, pernoitar em Recife (PE) e, no dia seguinte, prosseguir viagem de ônibus para Campina Grande. Resultado: passei no teste!
Nascido no sertão da Paraíba, em 1929, provavelmente no município de Catolé do Rocha, o meu tio Antonio Fernandes era um homem alto, forte, carismático e pragmático. Com ele, aprendi muitas coisas úteis para a vida. Ele, que era amigo do meu pai, tornou-se também meu amigo e, em alguns momentos, confidente.
Em nossa última conversa, por telefone, ele me convidou para comemorar seu aniversário em Natal (RN). Porém, isso não foi possível, pois, uma semana depois, faleceu, em 2 de junho de 1999, aos setenta e um anos, sendo sepultado no Cemitério Público de Ponta Negra.
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