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Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
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Em 1976, de passagem pela Livraria Souza, no aeroporto de Salvador (BA), adquiri um exemplar do livro “O Lobo da Estepe”, romance de autoria do escritor Hermann Hesse, publicado originalmente na Alemanha em 1927, sob o título “Der Steppenwolf”.
Antes de ler “O Lobo da Estepe”, já havia lido seis livros do referido autor: “Demian” (1919), “Caminhada” (1920), “Sidarta” (1922), “Narciso e Goldmund” (1930), “Viagem ao Oriente” (1932) e “O Jogo das Contas de Vidro” (1943), obra-prima que contribuiu para que Hesse recebesse o Prêmio Nobel de Literatura, em 1946.
“Demian” é um romance que prepara o caminho para a chegada de “O Lobo da Estepe” e de “Sidarta”. Segundo o tradutor Ivo Barroso, pode-se dizer que o personagem Harry Haller, de “O Lobo da Estepe”, é o Emil Sinclair, de “Demian”, na maturidade.
Em “Caminhada”, Hermann Hesse nos coloca diante de uma travessia e nos aponta um mundo novo, completamente situado no interior do ser humano. Trata-se de um livro memorialístico e introspectivo, no qual Hesse mistura prosa e poesias, ilustradas por aquarelas de sua autoria.
“Sidarta” representa a história de um espírito rebelde que busca a paz interior, tendo como pano de fundo a jornada espiritual de um jovem indiano em busca da sabedoria e iluminação. Nesse particular, a busca do personagem Sidarta assemelha-se à trajetória de Buda e à do próprio Hesse, esse rebelde com causa.
Embora Hesse tenha visitado regiões do Oriente, “Sidarta” originou-se de suas leituras e do contato familiar com a cultura indiana, herdado de seus pais missionários. Nesse romance, o personagem Sidarta, em companhia de seu amigo Govinda, busca a iluminação, mas não consegue atingi-la, nem mesmo após o encontro com o próprio Buda.
Por fim, Sidarta compreende que o caminho para a sabedoria não pode ser ensinado, pois a sabedoria, assim como a iluminação, é um processo, uma travessia solitária que deve ser cumprida individualmente, o que ele faz, sem a companhia de Govinda.
No livro “Narciso e Goldmund”, como antecipado no próprio título, temos dois protagonistas opostos: o primeiro é um monge fiel à ordem religiosa, dedicado ao espírito e à ciência; o segundo é um andarilho voltado para a arte, para o mundo material e para os sentidos.
Na obra “Viagem ao Oriente”, a narrativa é centrada em uma peregrinação mística de uma liga secreta de viajantes, em direção ao leste, composta por poetas, artistas e personagens históricos. O foco dessa narrativa é a perda e o resgate da fé na comunidade por meio da criatividade artística.
Escrito na fase de maturidade do autor, “O Jogo das Contas de Vidro” foi concebido quando ele estava perto de completar setenta anos. A narrativa se passa em um futuro distante, em um lugar denominado Castália, no qual uma elite intelectual e espiritualizada se dedica ao estudo e ao aprimoramento do conhecimento humano. Desses livros, os que mais me impactaram foram “Demian” e “O Lobo da Estepe”. O capítulo 5 de “Demian”, intitulado “A ave sai do ovo”, serviu-me de inspiração para a escolha do título da última exposição individual de pinturas que realizei na Galeria do Departamento de Artes da UFPB (atual Unidade Acadêmica de Arte e Mídia da UFCG), evento ocorrido entre os dias 9 e 24 de novembro de 1988.
Nesse capítulo, no quarto parágrafo, há uma transcrição de um bilhete que teria sido escrito pelo personagem Demian: “A ave sai do ovo. O ovo é o mundo. Quem quiser nascer tem que destruir um mundo. A ave voa para Deus. E o deus se chama Abraxas”.
Minha curiosidade sobre o significado da palavra Abraxas foi despertada por ser esse o título do segundo álbum de estúdio da banda Santana, lançado em setembro de 1970. Pesquisei e descobri que a capa do disco foi baseada no quadro “Annunciation”, pintado por Mati Klarwein em 1961.
Em 2019, quando lancei o livro intitulado “Entre prosas e versos” escolhi para ilustrar a capa a mesma ilustração produzida para compor o cartaz de divulgação da exposição “Abraxas”: uma forma humana dentro de um ovo prestes a eclodir. Era a influência da leitura de “Demian” ecoando na minha mente.
O título do livro “O Lobo da Estepe”, por sua vez, despertou-me a atenção pelo fato de ser a tradução para o português do nome de uma banda de rock estadunidense denominada “Steppenwolf”, cujo maior sucesso foi a música “Born to Be Wild”, usada na trilha sonora do filme “Sem destino” (“Easy Rider”), escrito, produzido e protagonizado por Peter Fonda, e dirigido por Dennis Hopper, lançado em 1969.
O personagem principal de “O Lobo da Estepe” chama-se Harry Haller. Ele é o próprio Lobo da Estepe, dotado de duas naturezas, uma de homem e outra de lobo, ou pelo menos alguém que se imagina assim.
Explorando o dualismo psicológico, Hermann Hesse introduziu a personagem Hermínia, uma jovem enigmática que funciona como espelho do protagonista Harry Haller. Observe-se que o nome dela é uma variação feminina do nome Hermann. Nesse ponto, as imagens deixam de ser virtuais para se tornarem caleidoscópicas, aumentando a complexidade e a densidade do enredo.
Um dos pontos altos do romance “O Lobo da Estepe” é o “Teatro Mágico”, uma metáfora que representa a fragmentação caleidoscópica da personalidade humana em meio ao convívio social.
Assim, a releitura dessas obras, passadas várias décadas desde o primeiro contato com elas, confirma a extraordinária capacidade de Hermann Hesse de dialogar com leitores de diferentes gerações.
Seus personagens autobiográficos, inquietos, sempre em busca de autoconhecimento, liberdade e sentido para a existência, continuam atuais em um mundo marcado por incertezas e transformações.
No meu caso, desde a juventude, a influência de Hesse ultrapassou os limites da literatura e alcançou outros campos de interesse, como a música e as artes visuais, deixando marcas perceptíveis em escolhas estéticas e projetos pessoais.
Leia a coluna anterior:
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