Fechar
O que você procura?
Blogs e Colunas
Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
Continua depois da publicidade
Em diversos países e universidades, a chamada endogenia acadêmica (academic inbreeding, em inglês) diz respeito à formação realizada dentro da mesma instituição: graduação, estágio, mestrado, doutorado, pós-doutorado, culminando, por vezes, com o ingresso na carreira docente sem ter passado pela experiência em ambiente profissional externo.
A formação endógena nos cursos superiores pode ocorrer por diferentes motivos, entre os quais se destacam razões que impossibilitam o estudante de se afastar da cidade onde iniciou o curso de graduação, como por exemplo: limitações financeiras, responsabilidades familiares, vínculos profissionais pré-estabelecidos e disponibilidade de bolsas de estudo.
Neste contexto, a endogenia traz, em si, limitações e consequências, tais como: menor exposição a diferentes culturas acadêmicas, enfraquecimento das redes de contatos interinstitucionais, redução da diversidade de perspectivas teóricas e práticas, tendência à reprodução de paradigmas consolidados e limitação da capacidade de propor soluções para problemas de amplo interesse da sociedade.
Entretanto, a permanência na mesma instituição nem sempre resulta em formação deficiente, pois existem programas de excelência que oferecem oportunidades diversificadas de intercâmbio, estágios e projetos de pesquisa e desenvolvimento, envolvendo parcerias entre instituições acadêmicas e empresas, públicas e privadas.
A crítica à formação endógena, portanto, não é dirigida à instituição em si, mas à ausência de experiências formativas em outros ambientes, seja no próprio país, seja no exterior. Isto porque muitas universidades de renome estimulam a internacionalização: estágios-sanduíche, missões de pesquisa e períodos como professor visitante justamente para reduzir os efeitos da endogenia acadêmica.
Por outro lado, a questão que se coloca é se uma trajetória integralmente desenvolvida em um único ambiente acadêmico oferece ao estudante a mesma riqueza de experiências proporcionada pela circulação entre diferentes instituições.
Além dos impactos sobre a formação individual, a endogenia acadêmica também pode afetar as instituições quando a renovação de seus quadros docentes ocorre predominantemente por meio da contratação de seus próprios egressos. Nesses casos, tende a haver menor circulação de ideias, métodos e experiências oriundas de outros centros de ensino e pesquisa.
Tomando a minha formação como exemplo, a graduação em engenharia elétrica se deu em Campina Grande, na Universidade Federal da Paraíba (atual Universidade Federal de Campina Grande – UFCG) e o estágio curricular foi realizado em Salvador, na então Coelba (atual Neoenergia Coelba).
Ao iniciar a carreira docente no Departamento de Engenharia Elétrica, o plano institucional era que a pós-graduação fosse na França. Entretanto, por motivos particulares, isso não ocorreu, e o mestrado foi realizado no âmbito do programa de pós-graduação em engenharia elétrica da UFPB, em Campina Grande.
Entre 1989 e 1990, atuei como Coordenador de Estágios do Curso de Graduação em Engenharia Elétrica da Universidade Federal da Paraíba. Nesse período, tive a oportunidade de visitar várias empresas públicas e privadas nos estados da Paraíba, Pernambuco, Ceará e Amazonas, com o objetivo de supervisionar, in loco, o andamento dos estágios dos alunos.
Posteriormente, durante o doutorado, realizei pesquisas na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), na Universidade de São Paulo (USP), no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), na Unicamp e na Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), onde atuei como professor visitante brasileiro, desenvolvendo trabalhos experimentais que serviram de base para a minha tese de doutorado.
Durante a minha passagem pela UFSCar, tive a oportunidade de conhecer e interagir com diversos pesquisadores brasileiros e japoneses de destaque na área de Ciência e Engenharia de Materiais.
Depois de concluir o doutorado, realizei trabalhos de pesquisa e desenvolvimento envolvendo empresas nacionais fabricantes de transformadores e o Cenpes, principal centro de pesquisa aplicada da Petrobras, localizado na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro.
Tenho convicção de que, na condição de orientador, contribuí para a formação profissional de mais de uma centena de alunos nos cursos de graduação, mestrado e doutorado. Além dos aspectos técnicos e científicos que envolvem a arte da engenharia, procurei incutir neles o zelo pela reputação pessoal e institucional, em todas as ações.
Com base na minha experiência docente e na minha condição de professor Titular aposentado, entendo que a qualidade da formação não depende exclusivamente da instituição onde os títulos são obtidos, mas também da capacidade de buscar experiências acadêmicas, profissionais e culturais diversificadas, tendo na conduta ética o valor máximo a ser seguido.
Assim, quanto maior a interação com diferentes ambientes de pesquisa, ensino e desenvolvimento tecnológico, menores tendem a ser as lacunas da formação endógena, sobretudo quando o estudante ou pesquisador busca experiências diversificadas ao longo de sua carreira profissional. É essa diversidade de experiências que amplia horizontes, estimula a inovação e atenua as limitações inerentes à formação predominantemente em um único ambiente acadêmico.
Leia a coluna anterior:
Atenção: Os artigos publicados no ParaibaOnline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo ao exercício da pluralidade de opiniões.
Continua depois da publicidade
© 2003 - 2026 - ParaibaOnline - Rainha Publicidade e Propaganda Ltda - Todos os direitos reservados.