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Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
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Belchior é o nome artístico do compositor e intérprete Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes, nascido em 26 de outubro de 1946, na cidade de Sobral, no Ceará.
Segundo Chris Fuscaldo e Marcelo Bortoloti, autores do livro “Viver é melhor que sonhar: os últimos caminhos de Belchior”, lançado em 2021, pela Sonora Editora, no Rio de Janeiro, em 1961, Belchior mudou-se de Sobral para Fortaleza, estudou no Seminário dos Capuchinhos, em Guaramiranga e, em 1964, ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará.
Ao abandonar os estudos de graduação para seguir a carreira artística, seu primeiro sucesso como compositor veio com a música “Mucuripe”, feita em parceria com Raimundo Fagner, gravada por Elis Regina, em 1972. Posteriormente, foi gravada pelo próprio Fagner, em 1973, no seu álbum de estreia, “Manera Fru Fru, Manera”, e por Roberto Carlos, em 1975.
Dotado de maestria na elaboração dos versos musicais, Belchior, logo em seu primeiro Long Play, lançado em 1974, pela gravadora Chantecler, mostrou que veio para ficar, pois, músicas como “A palo seco”, “Na hora do almoço” e “Todo sujo de batom” são sucessos até os dias atuais.
Em 1976, Belchior teve o álbum “Alucinação” lançado pela gravadora Polygram, um dos mais inspirados e densos de sua carreira, tanto pelos arranjos, quanto pelo conteúdo lírico, irônico e crítico das letras.
Produzido por Marco Mazzola, na ficha técnica de “Alucinação” verifica-se a participação de músicos de renome, entre eles: José Roberto Bertrami (do grupo Azymuth), Antenor Gandra (violão viola caipira e guitarra elétrica), Paulo César Barros (do grupo Renato & Seus Blue Caps), Pedrinho (bateria) e Ariovaldo Contesini (percussão).
Além dos nomes citados, na gravação do álbum participaram convidados em faixas específicas: Rick Ferreira (guitarra, em “Não leve flores”), Orlando Silveira (acordeon em, “Não leve flores” e “A palo seco”), Lui (gaita/harmônica, em “Antes do fim” e “Apenas um rapaz Latino-Americano”) e nos vocais de apoio o trio Regina, Marisa e Evinha.
Em “Apenas um rapaz latino-americano”, Belchior faz alusão a um antigo compositor baiano que dizia: “Tudo é divino. Tudo é maravilhoso”. Pura ironia para cima de Caetano Veloso, aquele mesmo que é refutado na letra de “Fotografia em 3 x 4”: “Veloso, o sol (não) é tão bonito pra quem vem do Norte e vai viver na rua”.
Ao se referir ao Norte, provavelmente o compositor está falando da região Nordeste, pois “os pés cansados e feridos de andar légua tirana” nos remetem ao poeta cearense Patativa do Assaré e ao cantor e compositor pernambucano Luiz Gonzaga.
No disco “Alucinação”, além das músicas citadas, estão presentes: “Velha roupa colorida”, “Como nossos pais”, “Sujeito de sorte”, “Como o diabo gosta”, e “Antes do fim”. As duas primeiras, apesar de terem feito grande sucesso na voz de Elis Regina, eu ainda prefiro ouvi-las no arranjo original, na voz anasalada do próprio compositor.
A letra de “Velha roupa colorida” é riquíssima em referências e sutilezas: “Você não sente, nem vê, mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo, que uma nova mudança em breve vai acontecer. O que algum tempo era novo, jovem, hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer”.
No verso seguinte: “Nunca mais teu pai falou: She´s leaving home”, vem a primeira referência aos Beatles. “E meter o pé na estrada: Like a Rolling Stone”, aqui a alusão pode ser dupla: à famosa canção do compositor norte-americano Bob Dylan, ou à banda inglesa The Rolling Stones.
Alguns versos adiante, numa simbiose poética belíssima, ele funde novas referências, desta feita Edgar Allan Poe, o “poeta louco americano”, autor de O Corvo (The Raven), com os Beatles (álbum branco), “Blackbird, o que se faz?”, e Luiz Gonzaga, “Assum preto me responde: o passado nunca mais”.
Em “Como nossos pais”, o referenciado é o poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, no verso: “Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais”. Comparem com os versos de Drummond no poema “Confidência do Itabirano”: “Itabira é apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”.
Esse é Belchior em sua “Alucinação” lúcida.
Leia a coluna anterior:
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