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Jurani Clementino

Jurani Clementino

Jornalista, professor universitário, escritor e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

Roberto Carlos no Parque do Povo (um olhar antropológico)

Por Jurani Clementino
Publicado em 15 de junho de 2026 às 9:20

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Fui assistir ao show de Roberto Carlos no Parque do Povo. Não pelo que ele é, mas pelo que a mídia construiu em torno dele: uma aura mitológica de uma grandeza sobrenatural que foi sabiamente incorporada por ele e sua equipe ao longo de décadas. Em virtude disso, não posso negar que, sobre Roberto Carlos, o cantor romântico, guardo algumas memórias afetivas. Aquelas que são acionadas em virtude da passagem do tempo, que nos faz, vez por outra, regressar ao passado e recordar, com certa nostalgia, quando acordávamos aos domingos com o rádio de casa sintonizado (geralmente pela nossa mãe ou nossas tias), em algum programa musical em homenagem a ele cujos títulos oscilavam entre: As canções do rei, Roberto Carlos em detalhes, Playlist do Rei, Roberto Carlos e convidados… e por aí vai.

Antes do show começar, previsto para ter início às 20h, o público já se mostrava ansioso. O senhor ao meu lado dizia: “Bora rei, coloca a perna”. A mulher a sua frente perguntava: “Falta quanto tempo, hem? Tô tão ansiosa”. De repente, o público aplaude a chegada do microfone, e entrada dos músicos, um funcionário conferindo as marcações de luz. Um rapaz mais jovem gritava em tom irônico “cadê o sanfoneiro?”. Antes mesmo do início do show, uma equipe do Corpo de Bombeiros é chamada para atender uma emergência próximo ao palco. Os militares são guiados por um feixe de luz (raio laser) disparado por um policial na guarita número 02.

Uma menina de uns sete, oito cinco anos, vestida com uma blusinha que estampava as palavras amor em inglês (love, love, love) aguardava a apresentação sentada no ombro do pai. Ao meu lado esquerdo alguns amigos, já de meia idade, recordavam o último show de outra majestade em Campina Grande: o Rei do Baião. Não sabiam ao certo se havia sido em 1986, ou 1987. Lembravam apenas que Luiz Gonzaga morreu em 1989. Olho para cima e vejo que a cabine de transmissão dos shows, no Parque do Povo, estava com as luzes apagadas, uma clara evidência de que a equipe de RC havia barrado a apresentação, ao vivo, em qualquer tipo de mídia.

De repente, surge no palco o maestro da banda, Eduardo Lages. Ele pede aplausos da galera. A música “Como é grande o meu amor por você” toca no sistema de som enquanto, nos telões, passavam imagens de várias fases da longeva carreira de Roberto Carlos: filmes, prêmios, clipes, apresentações em programas de televisão; número de discos vendidos, produtos com a sua marca, encontros com o papa e outras tantas celebridades. Ao final da exibição o artista surge no palco: velhinho e aparentemente frágil.

Fico imaginando como deve ser difícil para um artista como ele envelhecer com tanta exposição. Por um segundo lembro o que disse a Marlene Matos, ex-empresária de Xuxa e me questiono: será que nossos ídolos deveriam morrer antes dos trinta? Mas Roberto estava vivo (embora mais pra lá do que pra cá) e ali, diante de mim, a alguns poucos metros. Claro cheio de limitações. Ele começa o show com a canção “Como vai você” seguida de “Além do horizonte” e na terceira música ele interrompe a apresentação para ajustar o retorno do som. Sai do palco e enquanto volta, o público segue fazendo seus comentários.

Uma mulher conclui o óbvio: “Ele tá xoxinho, tá com a voz cansada também!”. O rapaz diz que o som está baixo. A mulher que está a minha frente fala com orgulho que já pegou uma rosa num dos shows de Roberto Carlos. Garante que ele tá podre de rico e morto de doente. Que era pra ela ter emoldurado aquela rosa. De certo modo, achei que ela tinha razão. Toda vez que a gente vai a um show desses artistas que já estão acima dos 80 anos é natural que pensemos: pode ser o último. E olha que não estou fazendo campanha antecipada pelo funerário de ninguém, é porque o tempo é o pior de todos os tiranos e age de forma implacável com todos nós.

O público continua esperando. Um bêbado atrevido e corajoso abre caminho por entre a multidão e grita com os policiais de plantão na guarita 02. Lá de cima um militar orienta que o embriagado “fique ligado” porque ele “está de olho”. Ao que o bêbado responde sem a menor cerimônia: “Eu tô fazendo algo? Tô de boa aqui. Oush. Só tô querendo tomar minha cachaça. Se eu pegar alguém roubando aqui, é eu que dou um cacete, né vocês não, bando de miséria!” E segue caminhando por entre os fãs do rei.

Roberto Carlos retorna ao palco e canta “Desabafo” Interage com o público dizendo que está ouvindo mais as vozes das meninas do que dos meninos. “Nos caras temos que dizer pra elas, ‘na hora que você quer’. Os meninos vão dizer comigo ‘na hora que você quer’ porque essa é a verdade. Aplausos. Senta numa cadeira para interpretar a música “Detalhes”. O show começou bem apático. Com público desanimado. Roberto cantando as músicas em câmera lenta (slow motion). Uma lentidão digna dos passos de uma pessoa idosa.

O chamado rei não é mais uma criança. Pelo contrário, está com 85 anos. Calmo, sereno, tranquilo. Posso garantir que os intérpretes de libra, mostravam-se mais animados que ele. Na sequência RC canta “Outra vez”, na minha opinião uma das mais belas canções da carreira dele. Novamente os bombeiros são chamados para mais uma emergência. No palco Roberto interpreta uma de suas parcerias com Erasmo Carlos: “Olha”. Em seguida “Nossa Senhora”. Sai do palco novamente e a banda fica fazendo uma música instrumental.

Quando Roberto retorna para o que seria a segunda parte do show, ele volta ao estilo Jovem Guarda, cantando “Calhambeque” e apresenta os integrantes da banda. Segue com uma música composta há 50 anos “Ilegal, imoral ou engorda” e canta aquela letra feita para sua mãe: “Lady Laura” seguida de “Amanhã de manhã”, “Os botões da blusa”, “Falando sério”, “Mulher de quarenta”… o público se anima. Roberto também parecia mais disposto. O show teve um upgrade. Um casal aproveita o clima romântico da música “esse cara sou eu” para dar um longo beijo na boca.

Perto de encerrar teve ainda “Amigo”, “Como é grande o meu amor por você” e “Jesus Cristo”. O rei começa a agradecer a Campina Grande pelo amor e carinho. Depois de duas horas de show Roberto Carlos começa a distribuição das rosas vermelhas e brancas. Dá uns esporros no ajudante de palco. As pessoas começam a se dispersar.

Já nas barracas, uma mulher de sotaque carioca perguntou se a gente estava no show de Roberto Carlos. Dissemos que sim. Ela perguntou afirmando: “Foi bom né? Cantou quase duas horas. Cantou muitas músicas. Só músicas boas. Aliás sendo músicas dele, é difícil ter uma ruim. Eu achei ótimo”. Um conhecido veio na mesa dizer que foi maravilhoso Roberto Carlos vir fazer show no Parque do Povo. “Quem diria que isso fosse acontecer. Muita gente que não teria dinheiro pra ver um show dele teve a oportunidade de ver de pertinho”. Lembra ainda que havia criticado quando anunciaram, porque não tem nada a ver Roberto Carlos e São João, mas recordou que também havia outros cantores que não tinham nada a ver com a festa e também foram contratados. Concluiu que essa diversificação de estilos e artistas é muito boa.

De fato, o Parque do Povo ainda tem esse lado positivo. Claro que cada vez menor. Cada dia mais escareado. Contudo, sou daqueles que concorda que todo mundo deveria ter condições de ver um dia seu artista preferido de perto. Num ambiente confortável, sem correria ou empurra-empurra, mas isso é só ilusão, como eu também acredito que há muita ilusão nesse reinado de Roberto Carlos… Mas o que seria de nós sem as nossas ilusões?

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