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Arcebispo Metropolitano da Paraíba.
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O coração do Evangelho de Cristo é a misericórdia de Deus. Esta mensagem salvadora constitui o centro da missão confiada por Jesus à Igreja e permanece sempre atual, pois responde às feridas mais profundas do ser humano. Em qualquer tempo, a Igreja existe para tornar visível no mundo o amor misericordioso do Pai, revelado plenamente em Jesus Cristo.
O Evangelho de Mateus (Mt 9,36–10,8) apresenta uma das cenas mais significativas do ministério de Jesus. Antes de ensinar ou enviar seus discípulos, o Senhor contempla as multidões e se deixa tocar pela dor humana: “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor” (Mt 9,36). A missão nasce precisamente deste olhar misericordioso. Jesus não permanece indiferente diante do sofrimento, mas aproxima-se dele com compaixão.
Ainda hoje encontramos multidões cansadas e abatidas: pessoas feridas pela solidão, pelo medo, pela pobreza material e espiritual, pela perda de sentido e pela fragilidade das relações humanas.
Muitos caminham como “ovelhas sem pastor”, necessitados de esperança, direção e cuidado. É neste contexto que a missão da Igreja continua urgente: tornar presente a misericórdia de Cristo no coração do mundo.
Em recente viagem à Espanha, o Papa Leão XIV recordou que a missão cristã exige dos discípulos um coração sensível às necessidades dos outros, mantendo vivo o desejo do bem que Deus colocou na própria humanidade e que a fé fortalece.
Essa perspectiva ilumina profundamente a identidade missionária da Igreja: ser “capaz de misericórdia” significa não apenas sentir compaixão, mas transformar a sensibilidade do coração em presença concreta de acolhimento, escuta e cuidado.
Jesus, movido por essa mesma compaixão, afirma: “A Messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita” (Mt 9,37-38). A urgência missionária continua atual. Não faltam pessoas necessitadas do Evangelho, mas muitas vezes faltam corações disponíveis para servir. Antes de ser um projeto humano, a missão nasce da oração e do reconhecimento de que Deus continua chamando trabalhadores para sua messe.
A Igreja recebeu dos apóstolos a missão de continuar os gestos e ações de Cristo no meio do mundo.
Como ensinava o Papa Bento XVI, Jesus dignifica seus discípulos ao convidá-los a colaborar diretamente na obra da salvação, apesar de suas limitações. A missão da Igreja, portanto, não é uma tarefa opcional, mas expressão concreta do amor de Deus pela humanidade. Jesus resume claramente essa missão: “Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. Curai os doentes, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar” (Mt 10,7-8).
Evangelizar significa anunciar o Reino e, ao mesmo tempo, tornar esse anúncio visível através de gestos concretos de misericórdia. A Igreja não existe apenas para ensinar, mas também para curar feridas, acolher os cansados e restaurar a dignidade dos que sofrem.
Diante de um mundo pluralizado, alguns questionam se ainda é necessário anunciar Jesus Cristo. A resposta da Igreja é clara: evangelizar não é impor, mas amar. O Concílio Vaticano II recorda que a Igreja, enviada a todos os povos, busca incansavelmente anunciar o Evangelho (Ad Gentes, n. 1).
Se Cristo é esperança para o coração humano, silenciar sua mensagem não seria respeito, mas omissão. Ao mesmo tempo, a missão cristã não consiste em repetir aquilo que o mundo deseja ouvir. O Evangelho possui um compromisso permanente com a verdade e a justiça, mesmo quando isso exige coragem. Como o profeta Amós, também a Igreja continua ouvindo o chamado de Deus: “Vai profetizar ao meu povo” (cf. Am 7,15).
Num tempo marcado pelo individualismo e pela indiferença, a Igreja é chamada a testemunhar a misericórdia de Deus. O Evangelho não pode ser um simples apêndice da vida, mas força transformadora da sociedade. Somente uma Igreja capaz de misericórdia será capaz de alcançar o coração do mundo, tornando presente o rosto amoroso de Cristo entre os cansados, abatidos e esquecidos do caminho.
Leia a coluna anterior:
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