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Jornalista, Pós-Graduada em Comunicação Educacional, Gerente de Negócios das marcas Natura e Avon.
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Há coisas que a gente escolhe e outras que a vida escolhe por nós. Também existem aquelas que Deus, com uma delicadeza que só Ele conhece, coloca no nosso caminho enquanto estamos ocupados demais fazendo planos para perceber. Foi assim com Álvaro. Eu não estava procurando um marido, aliás, casamento sequer fazia parte dos meus projetos.
Eu tinha minhas próprias ideias sobre o que seria a minha vida, meus sonhos, minhas certezas e aquele precioso hábito da juventude de acreditar que sabemos para onde estamos indo, até que Deus resolveu interferir. E, olhando hoje para a minha história, tenho a impressão de que Ele deve ter sorrido diante dos meus planos.
Digo isso porque enquanto eu imaginava o futuro de um jeito, Ele já estava escrevendo outro, e nele havia um homem: Álvaro Barros, que me viu primeiro. Eu estava de costas. Não foi exatamente uma metáfora daquele momento. Foi apenas uma questão de anatomia.
Álvaro é um homem grande, forte, desses que ocupam espaço antes mesmo de dizer qualquer palavra. Eu sempre fui o contrário: pequena, mignon mesmo, magra, quase uma presença que se desenha em traços finos. Para que eu pudesse vê-lo, portanto, seria necessário que ele estivesse atrás de mim… e estava. Talvez algumas histórias de amor comecem assim: um deles enxerga primeiro aquilo que o outro ainda não consegue ver.
Dias depois, nos encontramos novamente em um trailler, mas o resto dessa história eu já contei nesta coluna, quando escrevi anteriormente sob o título “Quando Deus riu do meu: Não faz o meu tipo”.
Com três meses de namoro, ganhei uma aliança de compromisso; em menos de um ano, estávamos oficialmente noivos; em dois, casados.
Talvez tenhamos tido pressa. Ou talvez simplesmente tenhamos reconhecido alguma coisa que não precisava de tanto tempo para ser compreendida. Há encontros que chegam com uma estranha sensação de familiaridade, como se alguma parte de nós sussurrasse: “Aqui é o meu lugar.”
Mas ninguém chega a quarenta anos de casamento apenas porque um dia sentiu que era “aqui”. Depois do encantamento vem a realidade, e é na convivência que o amor deixa de ser uma ideia bonita e começa a provar que sabe viver.
O primeiro ano foi o mais difícil para mim. Foi o ano de aprender a dividir espaço, silêncio, cobertas, horários, manias e expectativas. Aprendemos a dormir juntos, e também a dormir entrelaçados, um habito que, quatro décadas depois, continua tornando nosso sono melhor. Algumas intimidades não envelhecem.
Com o tempo, construímos nossa própria linguagem. Aprendemos a dizer “fica” sem pronunciar uma palavra. Passamos a nos entender pelo olhar e a perceber, quase instantaneamente, quando alguma coisa não estava bem.
Também aprendemos que vínhamos de famílias com diferentes gramáticas do amor. Eu vinha de uma família de abraços, beijos, que falava sobre tudo, ría alto, sofria junto e comemorava juntos.
Na família de Álvaro, havia mais contenção. Falava-se muito de negócios, trabalho, projetos, acontecimentos, funcionários. Eu dizia, rindo: “As refeições mais parecem reuniões de negócios.”
Por trás da brincadeira, havia uma descoberta importante: cada família possui sua própria maneira de amar. E casamento é, entre tantas coisas, aprender a falar uma língua que não foi ensinada na nossa casa. Não para abandonar a nossa, mas para construir uma nova.
Minha mãe costumava dizer que só se conhece verdadeiramente alguém depois de “comer 1 kg de sal” junto. Hoje sei o quanto havia de sabedoria naquela frase. Ninguém conhece ninguém apenas nos dias bonitos. Conhecemos no cansaço, na preocupação, na doença, na frustração, na maneira como o outro reage quando é contrariado, na forma como segura nossa mão quando percebe que estamos com medo. O tempo retira as idealizações e deixa a pessoa.
E, naquele primeiro ano, no meio de tantas diferenças e ajustes, uma coisa se tornou muito clara: Álvaro queria que desse certo. Eu também.
Talvez tenha sido ali que nosso casamento começou de verdade. Não exatamente no altar, mas no momento em que dois seres humanos imperfeitos decidiram que valia a pena aprender a amar um ao outro todos os dias.
E Deus entrou novamente na história. Na verdade, hoje eu sei: Ele nunca saiu dela.
No final daquele primeiro ano, eu estava grávida e com um enjoo surreal. Foram tres meses difíceis, mas tudo valeu muito no dia 26 de fevereiro, quando Deus me entregou Álvaro Neto, minha primeira fortuna.
Dois anos e sete meses depois, em 26 de novembro, veio Arthur, minha segunda fortuna, tão valiosa quanto a primeira.
Foi quando descobrimos que o coração não obedece às leis da matemática. Ele não se divide quando chega outro amor. Ele soma e cresce.
A casa ganhou outras vozes, outros passos, outros medos e outras alegrias. E nós fomos aprendendo a ser pai e mãe enquanto ainda aprendíamos a ser marido e mulher.
Vieram os anos e os janeiros. Quantos deles cabem em quarenta anos? Viajamos com nossos filhos, conhecemos lugares lindos, rimos, nos divertimos, carregamos malas, tiramos fotografias que foram reveladas no laboratório da Kodak. Nos perdemos em cidades desconhecidas e criamos histórias que hoje vivem dentro de nós como pequenas casas onde podemos voltar sempre que quisermos. A vida passa, mas algumas memórias fazem resistência ao tempo.
Depois, os meninos cresceram e seguiram seus caminhos. Começaram a escrever suas próprias histórias e famílias. Foi bonito. E doeu. O ninho ficou vasio.
Criar filhos é, no fundo, preparar pessoas para um dia não precisarem mais de nós. Essa é a missão mais mais valiosa e deve ser a mais bem cumprida do mundo.
A casa foi ficando mais silenciosa e nós voltamos a nos encontrar. Álvaro e eu. Não apenas pai e mãe, não apenas administradores da família. Nós dois.
Vieram as viagens a dois. No começo, sentíamos falta deles em cada paisagem. Depois, descobrimos uma nova liberdade: a de continuar sendo casal depois de termos sido família pequena, é verdade, mas grande na sua essencia de amor.
Mudamos de casa e brevemente mudaremos novamente. Quem sabe a vida seja isso: trocar os móveis de lugar sem mudar aquilo que realmente importa.
Tivemos conquistas e perdas. Avançamos, recuamos, recomeçamos. Houve dias luminosos e dias em que foi preciso acender a luz dentro de nós mesmos.
Tivemos crises? Claro que tivemos.
Não tivemos a crise dos três anos, nem dos sete. Tivemos a dos treze e a dos vinte e sete. Em alguns momentos, achei que havia chegado ao fim. Mas alguma coisa dentro de mim insistia: “Tudo vai dar certo no final. Se ainda não deu certo, é porque não chegou ao final.”
Hoje compreendo aquela voz.
O final não era uma separação. O final estava naquele antigo compromisso: até que a morte nos separe.
É muito bonito descobrir que, depois de tantos anos, a palavra “para sempre” já não parece uma promessa grandiosa. Parece apenas o próximo dia. Depois outro. E mais outro.
A eternidade, quem sabe, talvez seja isso: um dia repetido com amor.
Não passamos quarenta anos juntos porque tivemos quarenta anos perfeitos. Passamos quarenta anos porque, quando a vida nos apresentou o imperfeito, ainda havia amor suficiente para tentar novamente.
E havia o tripé que sustentou nossa casa: Admiração, Respeito e Confiança.
A paixão é linda, mas tem o temperamento das marés: vem, vai e volta diferente. O amor maduro é outra coisa. Ele cria raízes, conhece as rugas antes que elas apareçam e sabe quando o outro precisa de colo e quando precisa apenas de espaço.
Aprendi também com Álvaro que uma boa risada pode salvar uma guerra que nenhuma argumentação conseguiria vencer.
Nem tudo precisa ser resolvido com razão. Algumas coisas precisam apenas perder a importância. A apenas rir.
Depois de quatro décadas, sabemos que existem discussões que não merecem vencedores. No casamento, às vezes, quando um ganha, os dois perdem. E assim, continuamos aprendendo a olhar, escutar, cuidar, respeitar, admirar, confiar e, sobretudo, escolher.
Essa é uma das palavras mais bonitas de uma vida a dois: escolha. Eu escolhi e ele me escolheu. E continuamos nos escolhendo.
Hoje nossos filhos já têm suas próprias vidas. Caminham com as próprias pernas, constroem suas famílias, e meu coração se alegra profundamente com isso.
Valeska e Jessica chegaram como noras e foram recebidas como filhas. E isso só confirma a sabedoria popular: “Quem beija meu filho adoça minha boca.”
Estamos novamente nós dois em casa.
E, curiosamente, não sinto que voltamos ao começo. Estamos muito longe dele. Somos outras pessoas: mais maduros, mais conscientes, mais livres, mais inteiros.
Sabemos que temos menos tempo pela frente, e isso nos faz compreender ainda mais o valor de cada minuto.
Às vezes, olho para Álvaro dormindo, observo aquele homem que atravessou comigo quatro décadas e penso, quase em silêncio e me pego pensando:
“Caramba… que sorte eu tive.”
Mas será que foi sorte?
Sorte é acaso. O que tivemos foi encontro, com uma boa dose de graça divina.
Hoje eu sei que a pessoa certa não é aquela com quem jamais teremos conflitos. É aquela com quem, apesar deles, ainda queremos voltar para casa. É aquela cuja mão continuamos procurando no escuro. É aquela cuja ausência sentimos mesmo depois de quarenta anos. É aquela que conhecemos tão profundamente que já sabemos quando vai rir antes de rir, que nos viu em versões que o mundo jamais conheceu e ainda assim permaneceu.
É aquela pessoa com quem nos sentimos seguras e com a qual podemos envelhecer sem medo da velhice.
Temos muito pela frente, como uma nova casa, novos projetos, novos sonhos. Temos filhos adultos e futuros vizinho. Temos Valeska e Jessica. Temos histórias suficientes para encher muitas vidas.
E temos uma espera deliciosa: a chegada dos netos.
Talvez Deus esteja preparando mais uma surpresa. E, conhecendo o histórico d’Ele comigo, é melhor eu não fazer planos muito rígidos.
Chegamos às nossas Bodas de Esmeralda: quarenta anos de casamento. Quarenta anos desde que dissemos nosso “sim”. Uma palavra pequena que carregava dentro dela uma vida inteira.
Olho para trás sem nostalgia excessiva, porque não quero morar no passado. Quero apenas honrá-lo, honrar tudo o que fomos e tudo o que nos trouxe até aqui. E o que somos ainda nos levará adiante, quem sabe, quando chegarem as Bodas de Ouro, quiçá de Diamante.
Sei que quero continuar dormindo entrelaçada, acordar de madrugada sob chuva de beijos, ouvir uma declaração de amor, olhar para aquele homem dormindo e pensar que Deus foi muito generoso comigo.
Quero continuar rindo, viajando, aprendendo, escolhendo. E, se um dia a vida nos colocar diante de um espelho e perguntar o que fizemos com o tempo que recebemos, quero poder responder: “Eu o gastei bem.”
O maior luxo da existência é ter alguém com quem valha a pena gastar os dias. Os comuns e os extraordinários. Os de sol e os de chuva. Os de silêncio e os de festa. Os dias em que nos entendemos e aqueles em que precisamos reaprender o entendimento.
Quarenta anos me ensinaram que o amor não é apenas encontrar alguém para caminhar conosco: É encontrar alguém por quem ainda vale a pena caminhar.
E eu caminharia novamente. Tudo de novo.
Com as alegrias, as dificuldades, as duas crises, aquele primeiro ano, as noites, as viagens, as mudanças, as dúvidas, as reconciliações, os abraços, as perdas, as gargalhadas, as madrugadas, os sonhos e, principalmente, os filhos.
Hoje eu sei que aquela mulher que estava de costas naquele primeiro encontro não estava apenas deixando de enxergar um homem. Estava de costas para o próprio futuro, e Deus, com a delicadeza de quem sabe exatamente a hora certa, esperou que eu me virasse. E eu me virei. Encontrei Álvaro, encontrei o amor, encontrei meus filhos, encontrei uma família e uma história que não estava nos meus planos e foi a mais bela.
Nas nossas Bodas de Esmeralda, não quero agradecer a Deus apenas pelos quarenta anos que passaramuero agradecer pelos que ainda não chegaram: pelos cafés da manhã que ainda tomaremos, pelas viagens que ainda faremos, pelos netos que virão transformar nossa casa em festa, pelas novas versões de nós dois que ainda conheceremos, pelos dias que Deus ainda nos concederá.
E, sobretudo, quero agradecer por ter aprendido que algumas das melhores coisas da vida acontecem justamente quando ela desobedece aos nossos planos: Eu pedi uma árvore e Deus me deu uma floresta. E, no meio dela, colocou um homem grande demais para passar despercebido.
Hoje, quarenta anos depois, olho para ele e sorrio, porque finalmente entendi a delicadeza daquela primeira cena. Deus não estava me mostrando apenas a quem eu iria amar. Estava me mostrando com quem eu iria gastar a vida.
E, se me fosse concedido voltar àquele instante, eu não mudaria absolutamente nada. Nem sequer o fato de estar de costas.
Se a vida me desse a oportunidade de começar outra vez, eu escolheria você. E escolheria de novo. E de novo. Até que o último dos nossos dias chegasse.
E, ainda assim, ousaria pedir a Deus só mais um com você.
Leia a coluna anterior:
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