Fechar
O que você procura?
Blogs e Colunas
Jornalista, Pós-Graduada em Comunicação Educacional, Gerente de Negócios das marcas Natura e Avon.
Continua depois da publicidade
Há uma lição que, quanto mais a vida ensina, mais sentido faz: cada um precisa fazer bem a parte que lhe cabe: No trabalho, na família, na educação dos filhos, nas relações e, principalmente, na própria vida.
É muito fácil nos acostumarmos a esperar que alguém faça, resolva, perceba, antecipe, cuide. Às vezes por comodismo. Outras, por falta de iniciativa. E, em algumas situações, simplesmente porque sempre houve alguém fazendo por nós. Mas existe uma diferença importante entre ajudar alguém e impedir que alguém aprenda a caminhar sozinho.
Há uma história conhecida sobre uma borboleta que estava dentro do casulo, lutando para sair. Um homem, vendo o esforço daquele pequeno ser, resolveu ajudá-la. Com uma pequena abertura, facilitou sua saída, acreditando estar fazendo uma gentileza. Só que não estava. A borboleta precisava daquele esforço. Era justamente a luta para romper as paredes do casulo que fortalecia suas asas e preparava seu corpo para o voo. Sem aquele exercício, suas asas permaneceram frágeis. Ela não conseguiu voar. Apenas rastejou e teve pouca vida. O homem teve boa intenção, mas sua ajuda retirou da borboleta aquilo que era responsabilidade dela fazer. Esta é uma bela metáfora para a vida: há ajuda que ajuda e há ajuda que atrapalha.
Há dificuldades que não são obstáculos à nossa formação, mas parte dela. Há esforços que ninguém pode fazer em nosso lugar. Há paredes que precisamos romper com nossas próprias forças, porque é justamente esse movimento que nos prepara para o voo. Quando nos acostumamos a receber tudo pronto, podemos até ganhar conforto, mas perdemos repertório, autonomia e capacidade de reação. Isso vale para crianças, adultos, profissionais, famílias e equipes.
No Sertão, há um ditado que os mais espertos costumam dizer: “Quem tem besta não anda a cavalo.” E há alguma sabedoria nisso. Se alguém pode fazer por nós, por que fazer?
O problema começa quando a praticidade vira dependência, afinal, a vida tem seus apertos, os imprevistos aparecem, o trabalho muda, as circunstâncias se transformam e as pessoas que sempre nos apoiaram podem, um dia, não estar disponíveis. É justamente nesses momentos que descobrimos o quanto sabemos fazer sem depender de alguém. Dependencia nunca é bom.
Na casa da minha mãe, aprendíamos cedo a fazer todos os serviços. Quando as filhas mais velhas saíam para estudar fora, a seguinte na cronologia assumia suas responsabilidades. Houve um tempo em que eu cuidava da casa e da cozinha. Foi ali que aprendi responsabilidades reais, disciplina, compromisso e cumprimento de horários. Minha mãe não estava simplesmente ensinando a cuidar de uma casa. Estava nos preparando para a vida. E quando ia nos passar as responsabilidades, duas frases dela ficaram comigo para a vida:
“Você precisa saber para poder ensinar” e “Precisa aprender para não passar aperto quando estiver sem suporte.”
Hoje compreendo a profundidade daquele ensinamento e sei por experêicia própria, que aprender desenvolve, fazer desenvolve, ter responsabilidade desenvolve e assumir responsabilidades desenvolve autonomia. E autonomia constrói confiança, amadurece escolhas e ajuda a formar caráter.
Essa também é uma das grandes lições da fé: Nos Evangelhos, vemos Jesus perguntando, em diferentes situações de cura, sobre a fé e a disposição daqueles que se aproximavam dele. Não porque Deus precise de autorização para fazer milagres, mas porque existe uma dimensão humana que precisa participar do processo: a fé, a vontade, a disposição para responder ao chamado.
E há uma cena especialmente simbólica na ressurreição de Lázaro. Jesus poderia ter feito tudo sozinho, mas não fez.
Diante do sepulcro, depois de Lázaro estar morto havia quatro dias, Jesus ordenou que retirassem a pedra. A pedra, os homens tiraram. E Jesus chamou Lázar, sai para fora: Lázaro saiu. Jesus não entrou no sepulcro para buscá-lo.
Depois, ainda havia outro trabalho a fazer: retirar as faixas que o envolviam. E, mais uma vez, foram as pessoas que fizeram aquilo. E nesse momento me chega uma frase que sempre usei muito na minha gestão como Gerente de Negócios Natura e Avon, na fala com minhas Lideres de Negòcios que considero muito poderoso: Deus faz a parte que somente Deus pode fazer. A nossa parte continua sendo nossa.
Deus nos dá a semente, mas somos nós que precisamos plantar, cuidar, esperar, colher e preparar o alimento. A graça não elimina a responsabilidade e a fé não dispensa a ação. O auxílio divino não transforma a nossa parte em uma tarefa que podemos terceirizar e isso vale também para o ambiente de trabalho.
Valorizar um colaborador não significa apenas reconhecer aquilo que ele entrega. Significa também oferecer espaço para que ele aprenda, experimente, erre, desenvolva competências, assuma responsabilidades e compreenda a importância daquilo que lhe cabe fazer. Da mesma forma, cada colaborador precisa compreender que sua contribuição não começa quando alguém manda, nem termina quando alguém cobra: Proatividade é consciência. É olhar para aquilo que precisa ser feito e perguntar: “Qual é a minha parte nisso?”
Existem coisas que podemos delegar, compartilhar, ensinar e receber ajuda para realizar. Isso é inteligência e colaboração. Mas existe uma parte que ninguém pode fazer por nós: A nossa parte, dando o nosso melhor.
Precisamos ter cuidado, inclusive, com o excesso de proteção. Fazer tudo pelos nossos filhos pode parecer amor, resolver todos os seus problemas pode parecer cuidado, evitar toda dificuldade pode parecer proteção; mas, se não permitirmos que eles enfrentem pequenas dificuldades, como estarão preparados para as grandes?
Ensinar nossos filhos a se virar não é abandoná-los, é prepará-los e permitir que aprendam o valor do esforço, respeitem o suor alheio, compreendam que toda conquista envolve participação e descubram que responsabilidade não é castigo: é uma das formas mais bonitas de liberdade.
Quem sabe fazer não precisa viver esperando que alguém faça e quem aprende a caminhar não precisa temer tanto quando o caminho muda.
O “quem tem besta não anda a cavalo” pode até ser confortável, prático e, em determinadas circunstâncias, bastante inteligente. Mas viver permanentemente nessa lógica cobra um preço alto, já que a vida não nos promete que teremos sempre uma besta disponível, nem sempre haverá alguém para abrir a porta, nem sempre haverá alguém para mover a pedra, nem sempre haverá alguém para retirar nossas faixas. Quem sabe, pode ser que seja justamente por isso que precisamos aprender, não para viver sozinhos, mas para não sermos incapazes quando estivermos sozinhos, porque há uma diferença enorme entre ter apoio e depender dele para existir. O apoio fortalece, mas a dependência excessiva enfraquece.
A verdadeira educação, seja em casa ou no trabalho, não deveria produzir pessoas que precisam ser carregadas. Deveria formar pessoas capazes de caminhar, assumir, resolver, contribuir e, quando necessário, também estender a mão para quem está ao lado. Ajudar alguém não é necessariamente fazer por ele. Às vezes, ajudar é mais que isso, é ensinar, incentivar, esperar, confiar e deixar que a pessoa faça aquilo que somente ela pode fazer. Até a borboleta precisa lutar para romper o próprio casulo.
Lembremo-nos que algumas das paredes que hoje nos incomodam estejam, justamente, fortalecendo as asas que amanhã nos permitirão voar.
A pergunta continua simples e talvez seja uma das mais importantes que podemos fazer a nós mesmos: O que está ao meu alcance fazer? Estou fazendo bem a minha parte?
Quando cada um assume aquilo que lhe cabe, ninguém precisa carregar sozinho o que deveria ser responsabilidade de todos e o fardo fica mais leve.
Isso não é sobre ter uma besta ou andar a cavalo, é sobre saber caminhar com as próprias pernas e compreender quando devemos pedir ajuda e quando precisamos fazer o esforço que nos fará crescer.
Também é sobre não confundir amor com excesso de proteção, cuidado com dependência, ajuda com substituição, porque há coisas que Deus faz por nós. Há coisas que os outros podem fazer conosco. Mas há coisas que só nós podemos fazer e essas não podem ser terceirizadas.
Faça a sua parte. Faça bem. Faça com consciência.
É assim que se formam pessoas fortes, filhos preparados, profissionais autônomos, famílias mais saudáveis e equipes capazes de caminhar juntas.
Principalmente, é assim que construímos uma vida: fazendo a nossa parte, fortalecendo as nossas asas e aprendendo que, quando chega a hora de voar, ninguém pode escolher por nós a direção do nosso céu.
Leia a coluna anterior:
Atenção: Os artigos publicados no ParaibaOnline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo ao exercício da pluralidade de opiniões.
Continua depois da publicidade
© 2003 - 2026 - ParaibaOnline - Rainha Publicidade e Propaganda Ltda - Todos os direitos reservados.