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“Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais” (Mt 10,31)
Entre as palavras mais consoladoras pronunciadas por Jesus, encontra-se esta certeza que atravessa os séculos e continua iluminando a vida dos seus discípulos.
Em um mundo marcado por tantas inseguranças, medos e solidões, Cristo recorda a cada homem e mulher o seu valor inestimável diante de Deus. Se o Pai cuida dos pardais do campo, quanto mais cuidará daqueles que criou à sua imagem e semelhança.
A Mensagem do Evangelho possui uma carne: a carne dos homens e mulheres concretos que encontramos em nossa caminhada. Por isso, anunciar o Reino de Deus significa também testemunhar que ninguém está abandonado ou esquecido pelo Senhor.
Jesus não poupou esforços quando precisou tocar a carne dos homens; fez-Se próximo dos sofredores, dos empobrecidos, dos doentes e dos excluídos. Sua compaixão revelava uma verdade fundamental: toda pessoa possui uma dignidade que nada nem ninguém pode retirar.
Essa atitude de Jesus deve ser também a atitude de todo batizado. Quem muito nos ensinou sobre essa perspectiva concreta do Evangelho foi o Papa Francisco: “Jesus quer que toquemos a miséria humana, que toquemos a sua carne na carne daqueles que sofrem no corpo e no espírito.” Não existe cristianismo autêntico sem essa dimensão da compaixão. Somos chamados a estar no mundo como servos, prontos a socorrer os homens e mulheres que sofrem.
Certa vez, o Papa Francisco afirmou: “Num consagrado, e em todo batizado, não pode existir compaixão autêntica pelos outros se não houver paixão de amor por Jesus. A paixão por Cristo nos impulsiona à profecia da compaixão. Que ressoe em vocês a causa do humano como causa de Deus.”
O discípulo de Jesus leva no coração essa profecia da compaixão. Afinal, quantas vezes nós mesmos fomos as ovelhas necessitadas do cuidado do Bom Pastor e encontramos na Igreja, nos sacramentos e nos irmãos o consolo de Deus?
As palavras de Jesus — “Não tenhais medo!” — não ignoram as dificuldades da existência humana. O medo faz parte da experiência de todos nós: medo do sofrimento, da doença, das perdas, do fracasso e até mesmo da solidão.
Contudo, Cristo nos convida a olhar para além de nossas fragilidades e a confiar na providência do Pai. A fé não elimina todos os problemas, mas nos oferece a certeza de que nunca enfrentamos nossas lutas sozinhos. Deus conhece nossa história, acompanha nossos passos e permanece ao nosso lado mesmo quando os caminhos parecem escuros ou incertos.
Por isso, somos chamados a fortalecer os laços do coração. O mundo tornou-se mais conectado, mas nem sempre mais fraterno. O verdadeiro progresso não começa apenas com avanços tecnológicos ou econômicos; ele nasce da solidariedade, da proximidade e da capacidade de reconhecer no outro um irmão. Quem confia em Jesus aprende a enxergar cada pessoa como alguém precioso aos olhos de Deus.
O Evangelho de Cristo nos conduz ao encontro da sua carne presente nos mais frágeis, nos que sofrem, nos esquecidos e nos que, mesmo cercados de muitas pessoas, experimentam a dolorosa sensação do abandono.
A pobreza do irmão, por vezes, pode despertar receio ou afastamento, mas não podemos cair na cultura da indiferença. Cristo não permaneceu distante da humanidade. O Filho de Deus veio ao mundo, assumiu nossa condição e fez-Se solidário com nossas dores para nos salvar. Também nós somos chamados a ser sinais dessa solidariedade divina.
A exigência do amor nos pede esse compromisso concreto, especialmente com os mais vulneráveis. Diante de uma cultura que frequentemente descarta os mais frágeis, sejamos promotores da cultura do cuidado.
O Papa Francisco alertava que “a cultura do descarte não tem limites. Há aqueles que presumem ser capazes de determinar, com base em critérios utilitários e funcionais, quando uma vida tem valor e vale a pena ser vivida. Esse tipo de mentalidade pode levar a sérias violações dos direitos das pessoas mais fracas, a grandes injustiças e desigualdades, quando se é guiado predominantemente pela lógica do lucro, da eficiência ou do sucesso”.
A lógica do Evangelho segue por outro caminho. Para Jesus, ninguém vale pelo que produz, pelo que possui ou pelo reconhecimento que recebe. Cada pessoa vale porque é amada por Deus. Contra toda mentalidade utilitarista, Cristo proclama que nenhuma vida é descartável. Por isso, recordava ainda o Papa Francisco: “Não existe vida inútil. Cada pessoa tem a dignidade de ser filha de Deus e merece respeito, cuidado e proteção.”
Que a compaixão do nosso Deus seja uma constante em nossas relações fraternas. Que o amor mútuo vivido na Igreja e no mundo seja um testemunho concreto da solidariedade divina diante das dores humanas. E quando nossa vida chegar ao seu entardecer, possamos conservar a confiança ensinada por Jesus: não precisamos ter medo. Somos mais valiosos do que os pardais. O Senhor é o Bom Pastor que jamais abandona suas ovelhas. Não importa o que aconteça conosco, Deus nunca se ausentará de nossas vidas. Ele é o porto seguro da fé que ninguém pode nos tirar.
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