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Jornalista, Pós-Graduada em Comunicação Educacional, Gerente de Negócios das marcas Natura e Avon.
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Interessante como as inspirações para escrever chegam inesperadamente. Às vezes surgem de um retalho de conversa ouvido na academia, de uma frase capturada numa mesa ao lado de um restaurante, de um diálogo num filme ou de uma simples publicação que atravessa nossa tela por alguns segundos e, ainda assim, permanece martelando por dias.
Foi exatamente isso que aconteceu esta semana. Vi um post nas redes sociais que falava sobre as coisas que não gostamos de fazer, mas precisamos fazer. E imediatamente minha memória viajou para a infância.
Lembrei das nossas mães. Lembrei das vacinas que tomávamos chorando, dos remédios amargos, das injeções que pareciam o fim do mundo. Lembrei também dos castigos que recebíamos quando cometíamos alguma infração, daqueles momentos em que nossos pais precisavam escolher entre serem populares ou serem responsáveis.
Uma cena antiga voltou à minha lembrança com riqueza de detalhes. O filho de uma vizinha foi à bodega comprar manteiga a granel. Naquele tempo, a manteiga era retirada de grandes latas metálicas de cinco quilos e pesada na hora. A mãe havia pedido um quilo.
Quando ele voltou, ela desconfiou do peso. Perguntou se tinha comprado exatamente a quantidade solicitada. O menino confirmou. Ainda assim, ela não se convenceu.
Olhou para mim e pediu:
– Você pode levar isso de volta e pedir para pesar novamente?
Fui.
Na balança havia apenas setecentos gramas.
O menino havia comprado menos para ficar com parte do dinheiro.
A mãe o chamou, explicou o erro cometido, devolveu-o à bodega para comprar o restante e aplicou-lhe um castigo. Mas, antes disso, deu-lhe uma lição de moral que provavelmente doeu mais do que qualquer palmada.
Foi fácil para ela fazer aquilo? Com toda certeza, não. Mas ela precisava corrigir. Talvez fosse mais simples fingir que não viu. Talvez fosse mais confortável evitar o conflito, deixar passar, não criar constrangimento. Mas ela fez o que muitos adultos parecem ter esquecido: grandes desvios começam com pequenas concessões. Grandes crimes raramente nascem grandes. Eles começam pequenos, discretos, quase inocentes, e crescem quando ninguém os corrige.
Ela fez o que precisava ser feito. E essa é uma das definições mais honestas de amor.
Amar não é apenas agradar. Amar também é corrigir; é suportar o desconforto do presente para proteger o futuro.
Pensando nisso, percebi que a vida adulta é, em grande parte, um interminável exercício de fazer o que não gostamos, mas precisamos.
Acordar às quatro ou cinco da manhã não costuma ser agradável quando a cama está macia, o quarto está escuro e o cobertor parece ter assinado um contrato de exclusividade conosco.
Treinar também não é exatamente divertido todos os dias: Puxar ferro dói. Aumentar cargas dói. Os músculos reclamam. O corpo protesta.
Organizar armários, enfrentar burocracias, preencher formulários, comparecer a reuniões longas, executar tarefas repetitivas, lavar louça, responder mensagens acumuladas, lidar com planilhas, colocar documentos em ordem… Nada disso costuma gerar euforia, mas tudo isso produz resultados.
Existe uma verdade que poucos gostam de ouvir: a vida não é construída apenas pelos momentos que amamos viver. Ela é construída, principalmente, pelas tarefas que aceitamos cumprir.
Se eu não vacinar meu filho, coloco sua vida em risco.
Se eu não cuidar da minha saúde, alguém pagará a conta mais tarde, e esse alguém provavelmente serei eu mesma.
Se eu não me exercitar hoje, posso perder amanhã a liberdade de caminhar, viajar ou simplesmente levantar de uma cadeira sem ajuda.
Se eu não cultivar amizades, corro o risco de envelhecer cercada de conforto e vazia de companhia.
Se eu procrastino uma tarefa, ela não desaparece. Apenas cresce. E normalmente cresce acompanhada de ansiedade.
Se eu não organizo minha casa, minha agenda, minhas finanças ou meus compromissos, o caos encontra espaço para se instalar.
Existe uma frase que gosto muito:
“A disciplina pesa gramas. O arrependimento pesa toneladas.”
E a resposta pode ser esta: a maioria das pessoas espera sentir vontade para agir. Já, as pessoas bem-sucedidas aprendem a agir mesmo sem vontade. Elas entenderam que motivação é passageira, mas compromisso é permanente.
O curioso é que muitas das coisas que inicialmente detestamos acabam se tornando prazerosas.
O cérebro adora repetição. Bons hábitos por menores que sejam, geram impacto a longo prazo.
Eu mesma detestava matemática. Não era apenas falta de habilidade; era uma verdadeira antipatia. Mas quando decidi estudar com foco, compreender a lógica por trás dos números e persistir diante das dificuldades, algo mudou e passei a gostar. O que antes parecia um castigo transformou-se em desafio.
E isso acontece com frequência.
Ainda falando sobre bons hábitos, nem todo mundo gosta de ler, mas ler é necessário. Quem lê amplia vocabulário, desenvolve pensamento crítico, escreve melhor, comunica-se melhor e fortalece conexões cerebrais que serão valiosas por toda a vida, sem falar nas viagens extraordinárias que os livros permitem fazer sem sair do lugar.
Muitas vezes não gostamos de algo porque ainda não experimentamos seus benefícios por tempo suficiente, quando apenas estamos olhando para o esforço e ignorando a recompensa, quando estamos observando o investimento e esquecendo o retorno.
Por isso, quando estiver diante de uma atividade da qual não é muito afeito, faça duas perguntas simples:
A resposta talvez não torne a tarefa mais fácil, mas certamente a tornará mais necessária, já que muitas vezes é justamente do outro lado do desconforto que mora a vida que desejamos construir.
Leia a coluna anterior:
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