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Jornalista, Pós-Graduada em Comunicação Educacional, Gerente de Negócios das marcas Natura e Avon.
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Existem palavras capazes de emocionar, promessas que fazem o coração suspirar e declarações que parecem escritas para durar a vida inteira. Mas o tempo nos ensina uma verdade, às vezes com delicadeza, outras com decepção: as palavras podem anunciar o amor, mas são os gestos que lhe dão morada.
O amor tem muitas linguagens. Nem sempre sabe falar bonito, encontra as palavras certas ou se manifesta em discursos memoráveis. Às vezes, é tímido, desajeitado, quase mudo. Mas, quando verdadeiro, encontra maneiras de se fazer presente. Revela-se na simplicidade de segurar a mão de quem atravessa a rua, não porque essa pessoa precise de ajuda, mas porque caminhar junto é uma forma de dizer: estou aqui. Está naquele braço discretamente apoiado nas costas de quem nos acompanha, em diminuir o passo para caminhar no ritmo do outro ou em oferecer abrigo sem precisar interromper uma conversa.
O amor também acorda cedo e pode chegar servido numa xícara de café levada à cama, sem aniversário, comemoração ou qualquer data especial. Algumas das melhores celebrações da vida dispensam bolo e parabéns. Basta que alguém se lembre de como gostamos do café.
Está em puxar o lençol para cobrir quem dorme, ajeitar o travesseiro, fechar a janela ou guardar o último pedaço da sobremesa. Está em mandar uma mensagem para saber se alguém chegou bem ou perceber quando uma pessoa querida ficou mais quieta do que de costume. O olhar atento também alimenta. Afinal, cuidar é, antes de tudo, prestar atenção.
Um gesto que considero especialmente bonito é procurar alguém com os olhos no meio de uma multidão. A festa está animada, as conversas se cruzam, as risadas se espalham, mas o olhar procura uma presença específica. Quando a encontra, descansa. É como se, por um instante, o mundo inteiro coubesse naquele reconhecimento: que bom que você está aqui!
Não precisamos anunciar a importância de alguém quando nossas atitudes já lhe reservam um lugar. Isso vale para o amor entre duas pessoas, para os vínculos familiares e para as amizades que atravessam os anos. Amar também é fazer o outro perceber que sua existência faz diferença na nossa vida.
É telefonar para conversar sobre nada importante, perguntar se está tudo bem, lembrar daquela consulta, entrevista ou dificuldade que parecia pequena para o mundo, mas enorme para quem a vivia. É aparecer não apenas para celebrar as vitórias, mas também para sentar ao lado de alguém quando não há nada a comemorar. Às vezes, a simples disposição de permanecer é a declaração mais eloquente de afeto.
Esse tipo de presença oferece algo precioso: segurança afetiva. Não significa impedir que o outro enfrente as tempestades da vida, mas fazer com que ele saiba que não precisará atravessá-las sempre sozinho. É ter uma mão disponível, um ombro possível e uma presença que não desaparece ao primeiro sinal de dificuldade. É poder baixar a guarda e descansar da obrigação de parecer forte o tempo inteiro.
Quem se sente amado não precisa ser poupado de todos os problemas; precisa saber que não será abandonado à própria sorte.
Por isso, vale observar os gestos: eles revelam sentimentos, mas também desmentem discursos.
Há quem diga eu te amo enquanto trata o outro com indiferença. Quem promete estar presente, mas nunca encontra tempo, que fala em amizade, mas desaparece diante da primeira necessidade, jura respeito, mas humilha, diminui ou ignora nas pequenas atitudes cotidianas. Nessas horas, o comportamento contradiz o discurso. E não existe declaração suficientemente bonita que transforme descaso em cuidado, ausência em presença ou desrespeito em amor.
Não basta dizer que alguém é importante; é preciso tratá-lo como tal, não adianta prometer companhia; é necessário caminhar junto. Tampouco não é suficiente afirmar que se ama se o outro não consegue reconhecer esse amor na maneira como é tratado. Como bem cantou Cazuza, quando as ideias não correspondem aos fatos, alguma coisa está muito errada.
Isso não significa exigir perfeição, esperar que todos demonstrem afeto da mesma maneira ou condenar quem tem dificuldade de expressar sentimentos. Há pessoas que aprenderam a amar em silêncio, que não foram ensinadas a abraçar, que se atrapalham diante das palavras e jamais fariam um discurso sobre o que sentem. Precisamos ter sensibilidade para reconhecer essas diferenças.
Conheço pessoas que não sabem dizer o que sentem, mas estão sempre disponíveis quando precisamos. Talvez não escrevam mensagens apaixonadas, mas se lembram de nossas preferências, percebem nossas tristezas e fazem o possível para aliviar nossos dias. Não aprenderam a língua das declarações, mas são fluentes na língua do cuidado e isso é amor.
Minha própria história guarda uma lembrança que me ensinou muito sobre isso.
Quando cursava o último semestre da faculdade, tive sarampo. A doença evoluiu de maneira gravíssima. Passei cinco dias em coma, enquanto meu organismo enfrentava uma situação que quase me custou a vida.
Minha mãe deixou o comércio e permaneceu ao meu lado durante todo o tempo. Nos raros lampejos de lucidez, lembro-me dela fechando as frestas mais insignificantes com guardanapos, porque não podia entrar a menor corrente de ar. Não sei como suportava o calor, o ambiente e tudo o que aquela situação exigia. Sei apenas que estava ali, sem se afastar de mim.
Quando comecei a me recuperar, havia perdido dez quilos. Logo eu, que já era tão magra!
Por que conto essa história? Porque só ouvi minha mãe dizer eu te amo quando ela própria estava na fase terminal de um câncer agressivo. Mas, quando olho para minha vida e me recordo daquele episódio, compreendo que ela havia me dito isso inúmeras vezes, sem pronunciar uma única palavra.
Naquelas semanas no hospital, minha mãe não precisou declarar amor. Ela o demonstrou em cada cuidado, em cada vigília, em cada fresta fechada, em cada instante em que escolheu permanecer. Ela não disse que me amava: fez com que eu sobrevivesse envolvida pelo seu amor. Existe tradução mais eloquente para esse sentimento? Se existe, desconheço.
É preciso, contudo, distinguir o silêncio afetuoso da indiferença. A ausência de palavras não é, por si só, prova de profundidade. São a constância, o respeito, a consideração e as atitudes que nos permitem reconhecer o sentimento verdadeiro. Há silêncios que acolhem, mas também existem aqueles que machucam.
Amar é um exercício permanente de atenção ao outro. É enxergar além do que ele diz, perceber necessidades sem transformá-las em cobranças e compreender que, muitas vezes, um gesto aparentemente banal carrega uma declaração inteira.
Segurar uma mão, diminuir o passo, preparar um café, procurar um rosto familiar numa sala cheia, cobrir alguém durante o sono, cuidar de quem adoeceu e permanecer quando seria mais fácil partir.
Pequenas coisas, dirão alguns. Mas a vida é feita justamente delas. São os detalhes cotidianos que costuram a intimidade, sustentam os vínculos e transformam a convivência em pertencimento. Grandes declarações podem emocionar por alguns minutos; pequenos cuidados, repetidos ao longo dos anos, podem nos fazer sentir amados por uma vida inteira.
Talvez a pergunta mais importante não seja quantas vezes alguém nos disse que nos ama, mas quantas vezes nos fez sentir esse amor sem precisar pronunciá-lo.
Gostamos, obviamente, de ouvir belas palavras. Mas precisamos, sobretudo, de atitudes que confirmem o que os lábios anunciam. Precisamos saber que importa, que somos respeitadas e que temos onde repousar quando o mundo pesar.
Porque o amor pode até tropeçar nas palavras, por medo, falta de hábito ou vergonha, mas não deveria tropeçar continuamente no cuidado. Dizer “eu te amo” é bonito. Fazer alguém se sentir amado é extraordinário.
Leia a coluna anterior:
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