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Benedito Antonio Luciano

Benedito Antonio Luciano

Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

Os Tincoãs

Por Benedito Antonio Luciano
Publicado em 16 de setembro de 2026 às 8:21

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Segundo o Dicionário Aurélio, “tincoã” é uma palavra de origem tupi, designativa de uma ave da família dos cuculídeos e de suas subespécies amazônicas que habitam o cerrado brasileiro, também conhecida como alma-de-gato.

Já “Os Tincoãs” é o nome de um excelente trio vocal formado originalmente por Erivaldo, Heraldo e Dadinho (Grinaldo Salustiano), todos naturais de Cachoeira (BA), município baiano situado às margens do Rio Paraguaçu.

Por ser Cachoeira um dos mais importantes centros de preservação das tradições afro-brasileiras do Recôncavo Baiano, a formação cultural dos integrantes esteve profundamente vinculada a esse ambiente, marcado pelo samba de roda, pelas irmandades religiosas e pelos terreiros de candomblé.

O início da carreira do grupo se deu entre 1959 e 1960, em Salvador, no programa da TV Itapoã intitulado “Escada para o Sucesso”, interpretando canções, em sua maioria boleros, no estilo do Trio Irakitan, tanto é que o primeiro disco gravado, em 1962, foi intitulado “Meu último bolero”.

Em 1963, Erivaldo desligou-se do grupo e foi substituído por Mateus Aleluia. A partir de então, o repertório foi renovado, com a adaptação de cantos de candomblé, sambas de roda e cantos sacros católicos. Entretanto, foram os terreiros de candomblé que deram a base principal à musicalidade dos Tincoãs.

Em 1973, “Os Tincoãs” gravaram o segundo disco: um LP produzido por Adelzon Alves, sob a direção musical do maestro Gaya.

Na capa do álbum, sob o título “Os Tincoãs”, os três componentes, dois negros e um branco, posam caminhando descalços na areia da praia, vestidos com calças brancas e faixas vermelhas na cintura, ostentando colares de contas sobre os peitos nus. Nessa composição visual, estão presentes referências aos orixás no branco de Oxalá, no vermelho de Xangô e no azul do mar de Yemanjá.

Nas doze faixas que compõem o disco, a maioria foi composta ou adaptada por Mateus e Dadinho. Os arranjos mantêm características de canto coral, elaborados a partir de canções oriundas dos terreiros de candomblé, tendo como base apenas quatro instrumentos: violão, atabaque, agogô e cabaça. O destaque da harmonização vocal está no emprego de vozes em falsete.

Os títulos das faixas são os seguintes: “Deixa a Gira girá”, “Iansã, Mãe Virgem”, “Sabiá roxa”, “Ogundê”, “Na beira do mar”, “Raposa e guará”, “Saudação aos Orixás”, “Canto pra Iemanjá”, “Capela d’Ajuda”, “Obaluaê”, “A força da Jurema” e “Embola, embola”.

O terceiro LP do grupo foi lançado em 1975, sob o título: “O Africanto dos Tincoãs”, sem a participação de Heraldo, precocemente falecido, tendo sido substituído por Morais e, posteriormente, por Badu (Getúlio de Souza).

As dez faixas do LP “O Africanto dos Tincoãs” são as seguintes: “Promessa ao Gantois”, “Dora”, “Salmo”, “Homem Nagô”, “Canto e danço pra curar”, “Sereia”, “Jó”, “Oxossi te chama”, “Anita” e “Ogum Pai”.

Em 1976, o grupo lançou um compacto simples com as músicas “Promessa ao Gantois” e “Anita”, ambas compostas por Mateus Aleluia e Dadinho.

No ano seguinte, “Os Tincoãs” gravaram outro disco, no qual, entre as doze faixas, destacam-se as canções: “Atabaque chora”, “Lamento das águas”, “Cordeiro de Nanã” e “Chapeuzinho Vermelho”.

Em 1980, eles lançaram outro compacto simples com duas músicas: “Embola, embola” e “Mãe d’água é rica”, compostas por Mateus e Dadinho.

Em 1983, “Os Tincoãs” voaram para a África, a fim de cumprir uma temporada de uma semana em Luanda, e lá se estabeleceram, participando de projetos da Secretaria de Estado da Cultura de Angola, que visavam identificar valores angolanos na cultura e na música brasileira, além de estabelecer ligações entre o culto angolano e o candomblé praticado no Brasil.

Após o falecimento de Dadinho, em 2000, e a dissolução do grupo, Mateus Aleluia retornou ao Brasil e continuou desenvolvendo carreira artística, tornando-se o principal guardião da memória musical dos Tincoãs. Seus discos solo preservam muitos dos elementos estéticos e espirituais que caracterizaram o grupo.

Entre os anos de 2000 e 2010, vários de seus discos foram relançados em formato digital e em vinil, ampliando o acesso à obra do grupo e contribuindo para sua redescoberta por pesquisadores, colecionadores e apreciadores da música brasileira.

Assim, por todo o trabalho realizado, é possível afirmar que os Tincoãs foram mais do que um grupo vocal e instrumental, pois construíram uma ponte entre a tradição afro-brasileira e a música popular contemporânea, deixando uma obra singular que continua a inspirar novas gerações de artistas e pesquisadores.

Além disso, a trajetória artística de Os Tincoãs vem despertando crescente interesse acadêmico, especialmente em programas de pós-graduação da Bahia, onde o grupo tem sido objeto de estudos e pesquisas.

Leia a coluna anterior:

O Setor Elétrico

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