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Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
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Em 1973, o cantor e compositor pernambucano Paulo Diniz lançou um disco intitulado Lugar Comum, do qual destaco a canção “Luzazul”. Um aspecto que chama a atenção no título da música é o fato de tratar-se de um palíndromo, isto é, uma palavra que pode ser lida da esquerda para a direita e da direita para a esquerda, sem alteração na sequência de letras.
Essa característica palindrômica confere à palavra “Luzazul” uma dimensão poética singular, pois sugere circularidade e simetria, reforçando a musicalidade presente na própria sonoridade do termo. A junção das palavras “luz” e “azul” evoca imagens de luminosidade, serenidade e transcendência, elementos frequentemente associados ao imaginário poético da música popular brasileira.
A letra da música “Luzazul”, composta por Paulo Diniz e Eugênio Malta, remete às recordações da infância e ao período de aprendizagem escolar:
“Lê, u, z, a, z, u, lê/ Luzazul (bis)// A luz da lua na blusa/ Escola, viola, musa/ Rua, sonho de criança/ Quadro negro, pó de giz/ Mundo abrindo esperança/ Do meu tempo de aprendiz// Lê, u, z, a, z, u, lê/ Luzazul (bis)// Dia a dia/ Me guardando pra ser/ Luzazul…/
Além das imagens evocadas pela letra, um detalhe interessante diz respeito à vocalização de Paulo Diniz. Ao soletrar o título da música no primeiro verso, o cantor pronuncia a letra L como “lê”, com vogal fechada.
Essa escolha interpretativa me fez lembrar de uma experiência vivida em uma escola de alfabetização em Alagoinhas (BA), quando fui corrigido pela professora ao pronunciar “éle”, com o som aberto na primeira vogal, conforme havia aprendido em Campina Grande (PB), em vez de “lê”, forma corrente de pronúncia que encontrei na Bahia.
Outra lembrança que me ocorreu foi a do baião “ABC do Sertão”, composição de Zé Dantas e Luiz Gonzaga, gravado por Gonzaga em 1952:
“Lá no meu sertão/ Pro caboclo ler/ Tem que aprender/ Um outro ABC/ O “J” é ji, o “L” é lê/ O “S” é si, mas o “R” tem o nome de rê// Até o Y, lá é pissilone/ O “M” é mê e o “N” é nê/ O “F” é fê, o “G” chama-se guê/ Na escola é engraçado/ Ouvir-se tanto ê/ A, B, C, D/ P, Q, lê, mê/ Nê, P, Q, rê/ T, V e Z.”
Esses registros ilustram como a audição de uma simples canção pode suscitar lembranças da infância e revelar que a língua portuguesa, dentro do Brasil, pode guardar diferenças sutis de pronúncia e tradição cultural, até mesmo dentro de uma mesma região geográfica, como o Nordeste, ou entre cidades diferentes dentro de um único estado.
Assim, mais do que uma curiosidade linguística, “Luzazul” e “ABC do Sertão” constituem documentos fonográficos da oralidade regional e demonstram como a música preserva, ao longo do tempo, sons, palavras, modos de falar e lembranças que permanecem vivos na memória auditiva e afetiva.
Leia a coluna anterior:
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