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Padre e psicólogo.
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Temos refletido o quanto a lógica de Deus é diferente da nossa e o quanto esses parâmetros do Reino eles são bonitos, mas desafiadores. O 22º Domingo do Tempo comum (A), domingo que rezamos e agradecemos pela vocação de nossos queridos catequistas, a Palavra nos diz: NÃO NOS CONFORMEMOS COM ESTE MUNDO.
Na 1ª Leitura (Jr 20, 7-9) escutamos Jeremias fazendo uma memória de, quando ainda muito cedo, recebendo o chamado para ser profeta. Sua missão durou 40 anos na sua cidade natal (Jerusalém). Foi um período de grave crise politica e espiritual no reino de Judá que vivia sobre ameaça de corrupção moral e religiosa do povo.
Os Babilônicos ganhavam força, destruíram os Assírios e dominaram a Palestina. A soberania do povo de Israel era mais uma vez ameaçada e destruída por outras nações. O povo abandonou a aliança com Deus adotando falsos ídolos como (Baal), confiando apenas no altar e no templo, enquanto viviam em desobediência.
Onde tem idolatria, tem injustiça social. Haviam muitas injustiças cometidas contra os mais vulneráveis. Num tempo de muita instabilidade as pessoas se agarraram ao Templo com a falsa sensação de segurança, pois o povo sempre achou que ali seria a grande jogada espiritual e nacionalista contra a invasão de outros povos. Mas, o profeta lembra ao povo que a fidelidade está necessariamente no que eles aprenderam com a escuta da Palavra (lei) e não em construções humanas (exterioridade). Para que tantas peregrinações ao Santuário se o povo não aprende a Aliança.
Jeremias, conhecido como o “profeta chorão”, enfrentou rejeições, perseguições e prisões pelos próprios lideres e sacerdotes de seu povo. Denunciou alianças politicas que punha em risco a soberania do povo, É um tipo de profecia que mexe com os interesses dos grandes, mas também com as inconstâncias e infidelidade do povo.
Todo mundo dizia que Jeremias só dizia coisa ruim, que era muito pessimista, que só desejava coisa ruim para o povo. Por isso, todos se afastaram dele (familiares e amigos). Ele conheceu de perto a solidão e ao abandono. Defendeu quem o abandonou. Foi acusado de traição por não querer compactuar com determinadas alianças que punha em risco a boa soberania de seu povo e fidelidade à aliança.
Vemos em Jeremias um profeta que abraçou com amor a sua missão. Era um homem sensível, da paz, cordial, não era de muito confronto/embate, mas isso teve um preço muito alto, pois ele viu o povo debochar daquilo que ele anunciava e nem querer ouvi-lo. Contudo, ele escuta de Deus: “Dou-te hoje o poder sobre as nações e sobre os reinos para arrancares e demolires, arruinares e destruíres, edificares e plantares” (Jr 1, 10).
Não é uma missão fácil anunciar os autênticos valores do Reino frente à cegueira e vaidade do povo e a ambição de suas lideranças que esquecem a Aliança, mas acham que os templos de pedras vão salvar o povo. A Palavra e a historia já nos ensinaram que igrejas lotadas e templos enfeitados não quer dizer, necessariamente, fidelidade a Deus.
Jeremias recebeu de seu povo e seus familiares o abandono, desprezo e a solidão. E nessa hora ele experimentava momentos de tristeza e amargura. Às vezes, suas orações estavam cheias de sinceridade e amargura num dialogo duro com Deus e isso chegava às suas pregações, pois elas são verdadeiros desabafos. O trecho de hoje é um desabafo e quase uma denúncia contra Deus: “Seduzistes-me”, “Me entreguei as tuas promessas envolventes”, mas “olha o que obtive como prêmio”, “sua Palavra é para mim uma fonte de vergonha e chacota”, “você me abandonou”, “deixou-me entregue a esse povo”, “não quero mais falar teu nome”.
Mas, Jeremias não consegue seguir adiante com esse projeto, pois a Palavra de Deus que está dentro dele é muito mais forte. Ele não consegue pedir demissão de sua missão. Ele mantém firme a esperança de um dia encontrar, pessoalmente, com esse Deus que lhe seduziu e que está fortemente instalado em seu coração.
Enfrentar situações de injustiça nunca foi fácil, alguns enfrentam e levam o nome de profetas, alguns desistem, outros transformam seu ministério em frivolidade, exterioridade religiosa, preferem o zelo pelo templo de pedra (como única identidade religiosa) do que se sujar com os cuidados do povo. O próprio povo, muitas vezes, esquecendo-se da aliança torna sua caminhada de fé uma coisa fútil e banal (terreno fértil para idolatria e regimes autoritários como a Assíria, Babilônia, etc).
Quando vemos cristãos favorecendo o enriquecimento de privilegiados ao preço da miséria de muitos, quando escutamos comentários debochados de pessoas que não tem compromisso social com o povo, mas apenas com a sua fantasia de burguesia, um mundo que não cuida bem das crianças, dos idosos, dos doentes (porque eles são despesas e não produzem nada de riquezas para sustentar empresários), dos em situação de baixa renda, isso brada o céu. Dar voz a quem não é ouvido, cuidar bem dos pobres e excluídos é uma luta cansativa, mas envolvente e divina: “Seduzistes-me, Senhor”.
Temos consciência disso? Qual o lugar que a Palavra de Deus ocupa em nós e o quanto a gente a ama? Quantas contrariedades suportamos por causa da Palavra de Deus?
Na 2ª Leitura (Rm 12,1-2) continuamos a ouvir Paulo nos instruindo sobre a salvação em Cristo. Viver os ensinamentos de Jesus é culto VIVO, SANTO E AGRADÁVEL a Deus. Oferecer-se inteiramente a Deus é também saber fazer uma escala de valores nas coisas que me colocam dentro da dinâmica do Reino e as coisas injustas que me distanciam dele. O cristão deve ter o bom senso daquilo que o fecha no seu egoísmo e pecado. Sem mudança de coração e mentalidade não há coerência. Para onde Deus está apontando teu caminho? É a Palavra de Deus a causa de tua alegria ou os ritualismos frívolos? O culto que Deus quer de nós é uma vida santa vivida no amor e doação. Que culto estamos prestando a Deus?
No Evangelho (Mt 10,21-27) a Cruz está mais próxima de Jesus e a catequese dela é mais frequente. Jesus viu as multidões que o seguiam deixando ele para traz, às líderes e boa parte do povo já tinha demonstrado rejeição ao projeto de Jesus. Um pequeno grupo ainda resiste ao lado Dele. A catequese da cruz não é atrativa.
Jesus tinha clareza que os confrontos que ele teve lhe serão causa de crucificação, mas Ele não se demite de sua função e, ainda, continua a catequese da cruz. Pedro, faz resistência não concordando com esse final e lhe faz uma dura oposição. Os discípulos querem triunfo e sucesso, mas Jesus lhes oferece outra lógica.
O plano de Deus não passa por este esquema de triunfos humanos e domínios, mas por uma entrega as pessoas até ultimas consequências. Pedro reproduz aquelas tentações que Jesus enfrentou no deserto contra os planos de satanás. E Jesus lhe dá a mesma resposta que deu a satanás: “vai para longe, satanás” (16, 23). As ideias e as palavras de Pedro são as mesmas das tentações e a intenção de distanciar Jesus do seu projeto é a mesma.
Jesus diz aos discípulos que quem deseja segui-Lo, deve renunciar a si mesmo e tomar o caminho da cruz (projeto de serviço). Se a existência do discípulo não fosse um dom para a humanidade, então, não faz sentido segui-Lo. Uma vida centrada em si mesmo, que vive só suas aspirações, não tem coerência com o REINO DE DEU Deus. Quem vive a lógica do Reino de Deus, ganhará a vida eterna e essa é uma realidade que dura uma vida inteira para aprendermos.
Boa semana!
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