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Madalena Barros

Madalena Barros

Jornalista, Pós-Graduada em Comunicação Educacional, Gerente de Negócios das marcas Natura e Avon.

Cimbres: onde a fé sobe a montanha e a graça desce ao encontro dos homens

Por Madalena Barros
Publicado em 17 de julho de 2026 às 9:39

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Antes de mergulhar no relato pessoal, vale conhecer um pouco da história que transformou Cimbres, distrito de Pesqueira/PE em um dos maiores lugares de peregrinação Mariana do Nordeste, já que há lugares que se visitam por curiosidade, outros, por beleza. Mas existem aqueles para os quais não somos nós que decidimos ir: somos chamados. Cimbres é um desses lugares.

Encravado na Serra do Ororubá, no município de Pesqueira, em Pernambuco, aquele pequeno pedaço de chão guarda uma das histórias mais extraordinárias da fé nordestina. Foi ali que, no dia 6 de agosto de 1936, em um cenário de medo, simplicidade e esperança, o Céu escolheu duas meninas humildes para entregar uma mensagem de amor ao mundo.

O Nordeste vivia dias de apreensão. Lampião e seu bando ainda percorriam a região, e as famílias escondiam seus filhos, protegiam suas casas e viviam sob o temor constante de novos ataques.

Naquela manhã, Maria da Luz, de apenas 13 anos, e Maria da Conceição, de 15, que visitava a amiga, caminhavam cerca de trezentos metros da casa onde se dirigiram ao comando da mãe de Maria da Luz, para quebrar mamona, próximo à serra. Quando la estavam, Maria da Conceição perguntou:

“E se os cangaceiros voltassem para a serra, o que farias tu?”

Sem hesitar, Maria da Luz respondeu:

“Nossa Senhora haveria de nos proteger.”

Ao levantar os olhos para o alto do rochedo, as duas contemplaram uma mulher de beleza indescritível. Quando perguntaram quem ela era, ouviram uma resposta simples, eterna e profundamente bíblica:

“Eu sou a Graça.”

A partir daquele instante, aquela presença passou a ser conhecida como Nossa Senhora das Graças.

Outras aparições aconteceriam nos dias seguintes.

O silêncio das meninas, preservado durante muito tempo, não foi fruto do medo, mas do peso da missão que lhes havia sido confiada. Muitos anos se passaram até que a história pudesse ser contada em sua plenitude. Desde então, milhares de peregrinos começaram a subir aquela serra movidos por algo que não se explica apenas pela razão: a fé.

Milagres foram testemunhados, graças alcançadas passaram a ser narradas e Cimbres tornou-se um dos mais importantes centros de peregrinação mariana.

Mas nenhuma pesquisa, nenhum livro e nenhuma fotografia conseguem traduzir aquilo que os olhos e o coração experimentam quando se pisa naquele solo. As pedras de Cimbres guardam um dos segredos mais profundos da fé nordestina. Agora eu sei.

Subir aquele monte não é apenas um deslocamento no espaço. É uma peregrinação para dentro de nós mesmos. Cada passo parece retirar um pouco do peso da alma e abrir espaço para aquilo que tantas vezes deixamos sufocado pela correria da vida: a presença de Deus.

Ali compreendi que quem chega a Cimbres dificilmente foi apenas por vontade própria: há um chamado sutil que conduz cada peregrino até aquele encontro. É como se o olhar de Nossa Senhora atraísse delicadamente aqueles que precisam reencontrar a esperança, se preparar para noticias duras e se fortalecer para enfrentar qualquer situação ou desafio para dizer: você não esta sozinha.

Como disse, a história daquele lugar desafia nossa lógica e nossa necessidade de explicações, porque duas meninas simples, praticamente sem instrução, tornaram-se mensageiras do sagrado.

Quando estudiosos tentaram medir aquela experiência pelos critérios da inteligência humana, o Céu respondeu na linguagem da simplicidade, lembrando que Deus nunca escolheu os mais importantes aos olhos do mundo. Escolheu sempre os de coração manso e humilde.

A fé verdadeira, porém, nunca caminha sem provações e a ansiedade humana quis antecipar sinais. Houve quem desejasse transformar o mistério em espetáculo e quando aquilo que esperavam não aconteceu no tempo imaginado pelos homens, vieram as críticas, as acusações e a desconfiança sobre as meninas.

Mas Deus nunca se submete ao relógio da humanidade que pedia “um sinal para crer”, e no tempo certo, responde.

No local da aparição onde havia apenas pedra seca, rocha sólida e solo castigado pelo sol, brotou água. Uma fonte  na pedra. Água que continua jorrando até hoje.

Uma nascente que se tornou símbolo da graça divina, lembrando que, mesmo quando tudo parece árido em nossa existência, Deus continua fazendo brotar vida onde ninguém mais acredita ser possível.

Fomos na pousada de Ana Ligia Lira, que escreveu o livro “O Diário do Silêncio”, fruto de conversas com Irmã Adelia, nome dado a Maria da Luz depois que entrou no convento.

Depois de sua morte, entre os pouco  e simples objetos de Irmã Adelia, repousava uma antiga imagem de Nossa das Graças, que hoje exala um delicado perfume de rosas. Sou testemunha.  Um aroma suave, constante e inexplicável, percebido por tantos peregrinos ao longo dos anos e que parece tornar-se ainda mais intenso quando acolhido pelas mãos de um sacerdote, que no nosso caso, Padre Jorge da Paroquia Santissima Trindade, que nos acompanhou na peregrinação maravilhosa organizada por Romero.

E não é apenas um perfume. É como se a delicadeza do Céu encontrasse uma forma linda e sutil de tocar os nossos sentidos.

Mas foi no alto do Monte da Graça que meu coração compreendeu aquilo que palavras dificilmente conseguem descrever. Depois de vencer a subida, o cansaço desaparece como quem deixa um velho fardo pelo caminho.

Às dezoito horas daquela sexta-feira 10 de julho, quando o sol já repousava atrás das montanhas e o céu se vestia dos últimos tons rubros do entardecer, cerca de cento e cinquenta peregrinos permaneciam reunidos, rezando, louvando, a alma sendo nutrida pelo mais puro nectar divino. Pequenas luzes iluminavam discretamente aquele cenário de pedras e silêncio. E cantamos a Ave-Maria nordestina. Foi arrepiante!

As vozes ecoaram pela serra e não  havia pressa, não havia distrações: havia apenas pessoas rezando.

Naquele instante, o vento parecia rezar conosco. As pedras pareciam guardar cada nota daquele canto. E o silêncio de Deus deixava de ser ausência para tornar-se presença suave, confortadora e certa.

Foi impossível não se emocionar; foi impossível não sentir, foi impossível voltar igual.

Saí de Cimbres convencida de que a maior aparição talvez não tenha acontecido apenas em 1936. Ela continua acontecendo todos os dias no coração de quem sobe aquela montanha disposto a enxergar mais com a alma do que com os olhos.

Por isso, faço uma recomendação sincera: visite Cimbres enquanto o lugar ainda preserva sua essência quase intocada. É inevitável que, com o crescente número de peregrinos, intervenções sejam necessárias para acolher melhor os visitantes.

Há uma beleza rara em encontrar aquele santuário ainda tão próximo da simplicidade com que Nossa Senhora escolheu manifestar-se, porque Deus nunca precisou dos grandes templos para revelar sua glória: Ele continua preferindo as montanhas  quietas, as pedras esquecidas, as fontes escondidas e os corações humildes.

Pode ser que seja exatamente por isso que, ao descer de Cimbres, percebemos que não fomos nós que escolhemos encontramos Nossa Senhora.

Foi Ela quem nos encontrou primeiro.

Leia a coluna anterior:

As três cadeiras da solidão

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