Fechar
O que você procura?
Blogs e Colunas
Jornalista, Pós-Graduada em Comunicação Educacional, Gerente de Negócios das marcas Natura e Avon.
Continua depois da publicidade
Recebi a missão de escrever esta coluna a partir de uma única frase: “Moro com três cadeiras: a minha, a da saudade e a da visita.”
Confesso que a sentença pousou em mim como certas verdades impactantes que chegam sem pedir licença. A primeira palavra que emergiu à consciência foi solidão. Não aquela solidão barulhenta das despedidas dramáticas, mas a solidão sofisticada, discreta, quase elegante, que aprende a caminhar pela casa sem fazer ruído. A solidão que dobra roupas, prepara café para um só e conhece exatamente o ranger de cada porta.
Mas, olhando com mais atenção, percebi que três cadeiras contam muito mais sobre a condição humana do que aparentam. Toda casa habitada por uma única pessoa guarda, inevitavelmente, outras presenças…há sempre alguém morando dentro da memória.
Conheço pessoas que escolheram o isolamento como quem escolhe um refúgio sagrado. Viraram eremitas modernos dentro da própria casa, cansadas do excesso de ruído do mundo e das conversas vazias. Pessoas que trocaram agendas lotadas pelo silêncio da varanda, pela leitura lenta, pelo som do vento atravessando as árvores, pela contemplação do por do sol… Conheço quem decidiu viver na zona rural, criar galinhas, plantar o próprio alimento, respirar ar puro e reduzir a existência ao essencial.
Também sabemos da existência de pessoas que mesmo cercados por milhares de outras, vivem extrema solidão, até porque a solidão não se mede pela ausência de gente, mas pela ausência de conexão.
Muitas vezes, o isolamento nasce de uma perda devastadora. Há dores que arrancam pedaços inteiros da alma e obrigam o coração a se recolher para sobreviver. Nessas horas, o tempo se transforma em remédio lento e nem sempre cura. Às vezes apenas ensina a suportar e conviver.
E existem dores ainda mais perigosas: as silenciosas. São as dores das expectativa frustrada, a dor do amor que não floresceu, a tristeza velada, a angústia sem origem aparente que entra sem bater e, aos poucos, vai ocupando todos os cômodos internos. Algumas pessoas acabam se moldando à dor como um bolo que se adapta à forma, a agua que encontra seu contorno, e de tanto conviver com ela, deixam de combatê-la. Fazem dela mobília emocional.
Há também a solidão da longevidade. Quando os entes queridos partiram, as vozes da casa desapareceram e restou apenas você, guardião das fotografias desbotadas, dos aniversários esquecidos e das histórias que ninguém mais sabe contar. E existe a solidão provocada pelo desgaste do tempo: amizades que não resistem à distância, relações consumidas pela rotina, encontros adiados indefinidamente até virarem ausência definitiva. As pessoas não vão embora de uma vez. Primeiro diminuem as mensagens, depois as visitas, depois a intimidade… até restar apenas o eco.
Então, um dia, você percebe que mora com três cadeiras: A sua, a da saudade e a da visita.
A cadeira da saudade quase sempre está ocupada. Ela tem nome, cheiro, lembranças e músicas preferidas. Às vezes senta-se à mesa antes mesmo do café esfriar. Outras vezes dorme ao nosso lado sem pedir permissão.
Já a cadeira da visita vive vazia na maior parte do tempo. E talvez seja exatamente isso que mais doa: a espera. Porque uma casa pequena pode se tornar imensa quando alguém passa a viver aguardando passos no corredor, uma ligação inesperada ou o som da campainha.
Resta sua cadeira e nela existe o perigo gigantesco de se transformar em cárcere, já que a vida não pode ser apenas contemplada pela janela. É preciso abrir as cortinas, colocar música na casa, arrumar-se mesmo sem ocasião especial, criar novos vínculos, entrar em grupos. fazer cursos, renovar amizades, voltar a rir sem culpa e até sem motivos. Aprender algo novo quando a alma ameaçar envelhecer antes do corpo, renovar-se em si mesmo.
A saudade pode continuar tendo sua cadeira, as visitas também. Ambas fazem parte da existência humana. O que não se pode permitir é que a nossa própria cadeira se torne fixa diante da ausência, como se a vida tivesse terminado enquanto o coração ainda pulsa, porque há pessoas que morrem muitos anos antes do enterro e há outras que, mesmo feridas, continuam escolhendo viver.
Talvez a grande sabedoria esteja em compreender que a solidão ou até mesmo a solitude seja apenas abrigo, mas jamais prisão. O silêncio pode ser companhia, mas nunca sentença. E que envelhecer não deveria significar esperar a morte chegar sentado.
Por isso, levanta-te e anda. Vai para a vida.
Que o dia inevitável da partida, aquele que alcança todos nós sem exceção, encontre você não apenas respirando, mas verdadeiramente vivo, com a alma acesa, a casa aberta, e as cadeiras ocupadas não apenas pela saudade ou pela espera… mas pela alegria de ainda existir.
Leia a coluna anterior:
Hormese: o estresse que fortalece até o limite em que destrói
Atenção: Os artigos publicados no ParaibaOnline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo ao exercício da pluralidade de opiniões.
Continua depois da publicidade
© 2003 - 2026 - ParaibaOnline - Rainha Publicidade e Propaganda Ltda - Todos os direitos reservados.