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Padre e psicólogo.
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Na 2ª Leitura (Rm 5, 6-11) Paulo escreve as comunidades de Roma para dizer-lhes que tanto os cristãos vindos do judaísmo como os cristãos vindos do paganismo receberam o mesmo chamado de Jesus e o evangelho que foi anunciado pelo apostolo é destinado a todos.
Paulo insiste que a salvação não vem de uma conquista pessoal, isto é, unicamente de nossos esforços, de pertencermos a “raça pura de Israel”, como acreditavam os de origem judaica que aprenderam isso dos fariseus que se dedicavam a um comportamento minucioso e obsessivo.
A salvação é um dom gratuito do amor de Deus para as pessoas e foi oferecida para todos na pessoa de Jesus Cristo. Todo ser humano foi sujeito ao pecado (pecado universal); mas, a bondade de Deus foi manifestada na vinda de Jesus que no seu sacrifício fomos justificados. A luta contra o pecado pede a todos nós que a gente faça uma adesão com fé ao projeto de amor de Deus.
Nesta carta, Paulo explica aos romanos a questão da justificação realizada em Jesus Cristo. No dom da gratuidade e sem nenhum merecimento próprio fomos salvos em Jesus Cristo. A passagem de Jesus por esse mundo foi para nos revelar o amor que Deus tem por cada um.
A salvação é anunciada no dom da gratuidade, pois Deus não exige “modinha religiosa” para nos conceder a Salvação. Aos romanos, Paulo diz que basta apenas aceitar o dom do amor salvífico de Deus.
Mas, Paulo tinha em seu horizonte uma comunidade onde muitos achavam que iam ser salvas pelos seus méritos, na observância da Lei de Moises. Os fariseus ensinaram a barganhar a salvação ao ponto que havia uma tentativa de colocar Deus numa situação onde ele não tivesse saída. Onde Deus não tivesse outra escolha de conceder a salvação porque “eles eram tão certinhos”, se julgavam “pessoas dedicadas” ao cumprimento das normas e que Deus não teria outra escolha a não ser ceder a eles.
O farisaísmo ficou marcado na história tanto pela hipocrisia, pelo exclusivismo, como pela presunção. O exclusivismo gera exclusão. Eles conseguiram espalhar dentro da sociedade a idéia de categorias diferentes de pessoas: puros e impuros, judeus e pagãos, etc. O rigorismo que fascinava a muitos (como ainda hoje) era admirado e louvado pelo rígido empenho de não deixarem passar uma virgulo. E os que não estavam dentro dessas bolhas e que não conseguiam pertencer à ideologia desses grupos eram frequentemente tratados como menores, pessoas não evoluídas espiritualmente, gentinha, etc.
Assim como a ideologia nefasta do fascismo, o farisaísmo é uma religião de esporte coletivo, tribal e primitivo de quem não avançou na civilização do amor. Falar de amor, de bem comum, de salvação para todos, de vida justa para todos parece ser uma compreensão inalcançada e intolerante para gente presunçosa, fechada e perversa.
Por outro lado, essa mentalidade gerou/gera na mente de algumas pessoas a idéia de que elas não são dignas do amor de Deus, pois não cumprem preceitos, não pagam dizimo, não usam roupas de corte fino e elegante com tons angelicais. E me permitam dizer que parece que estamos voltamos a esses fetiches. Chamo de fetiche porque a ideologia da sexualidade reprimida é sempre frequente nos ambientes religiosos (o retorno do recalque) como uma alternativa ideológica da imagem de gente pura, prudente, santa, diferente e separada (fariseu), mas que sempre esconde as injustiças (o quartinho da nossa bagunça eclesial).
São essas ideologias que dentro dos sistemas sociais (família, religião, politica, escola…) produzem exclusões. Já nas primeiras comunidades Paulo recordava que Jesus veio para acabar com isso. Mas, parece que ainda hoje dissimulamos cinicamente que não compreendemos dessa forma. É que, por causa do pecado, temos a horrível tendência de viver segregando e excluindo pessoas.
Jesus ensinou que a meritocracia não condiz com a teologia e a espiritualidade do Reino de Deus. A salvação começa com o desejo da amizade com Deus e o convite a viver no dom do amor.
Não coloquemos barreiras para a salvação de ninguém e nem muito menos pelo crescimento justo, equitativo e digno das pessoas. A proposta do Reino de Deus é que de todos tenham vida e vida em abundancia, mas para que isso acontece precisamos abrir mão das nossas mesquinhas ideologias politicas e religiosas.
No Evangelho (Mt 9, 36-10,8) Jesus enxerga as multidões que vivem como ovelhas sem pastor. Há mais mercenários do que pastor. Nos capítulos 7-9, escutamos a exortação de “não julgar” (v.v. 1-5), não profanar as coisas santas (v.6), a oração (v.v. 7-11), a regra de ouro da reciprocidade (v.12), as duas portas (v.v. 13-14), os falsos profetas (v. v. 15-20) e os verdadeiros discípulos (v.v. 21-27), o espanto do povo com os novos ensinamentos de Jesus (v.v. 28-29), as dez curas (cap. 8-9). Depois de tudo isso, Jesus contempla as situações e as causas dos sofrimentos do povo e o olha para este povo com “misericórdia” (9, 36b).
Jesus sabe que tem muito trabalho a ser feito, que a messe é grande e que está faltando gente (v. 37). Tem muita gente falando em Deus, indo ao templo rezar, mas não tem quem cuide do povo.
É dentro deste contexto que vai acontecendo o verdadeiro chamado e a vocação dos discípulos de Jesus: no meio do povo e para o cuidado do povo. Jesus chama os discípulos para expulsarem os espíritos impuros (que traz tanta injustiça) e cuidar dos doentes. É para isso que Jesus nos quer. E o povo que tem os mesmos ideais de Jesus é que deve ser chamado de igreja.
Todo aquele que produz a morte e a dor não pode ser chamado de pastor e de igreja. Quem está apenas preocupado no seu poder, privilégio, e seus problemas pessoais e não se importa com o bem das ovelhas estes não são pastores e nem merecem o nome de cristãos ou de igreja.
Todos nós temos a característica de “sucessores” de Jesus, pois estamos a serviço do Reino anunciado por Ele. Jesus nos chamou e nos enviou para ir, em primeiro lugar, as ovelhas massacradas de todos os tempos lugares: os imigrantes, as crianças sem lar e sem um mundo futuro de paz, desemprego, os que são vitimas das guerras (por causa dos espíritos impuros dos promotores das guerras).
“O Reino de Deus chegou” onde há pessoas cuidando umas das outras. Estes receberam o poder de expulsar demônios e conseguem até trazer à vida aqueles que estavam nas trevas e na morte. Tem gente servindo a Jesus onde a vida está ameaçada ou destruída pelos interesses de falsos pastores (lideres).
Nestes dias festivos vimos um cantor famoso, num festival de música, alertando as pessoas a terem consciência de escolherem lideranças politicas que, segundo ele, “não sejam corruptas”. Não demorou muito para que os reporteres fizessem um recorte jornalístico dele (o cantor) ao lado de políticos que tem tomado decisões contra o bem do povo e dos trabalhadores para beneficiar apenas a classe rica. Isso é consciência politica, religiosa e social?
São estes mesmos que reclamam das ajudas dadas aos de baixa ou nenhuma renda, mas vivem de benefícios milionários que deveriam beneficias o povo. Isso não é consciência evangélica e politica, isso se chama promoção oportunista das velhas estruturas e ideologias de poder apresentadas a “pão e circo”, como se fossem a verdade que vai melhorar a vida.
Jesus continua a nos ensinar para que veio à este mundo. E continua a nos ensinar de que lado da história deve atuar seus seguidores. A primeira pastoral ensinada por Jesus não é o culto, nem devocionísmos egoístas, mas a proximidade com os sofredores. E o contrário disso é caraterizado como inversão de valores evangélicos.
Em Atos 20,28 Paulo disse aos presbíteros de Éfeso: “Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho”. Cuidar de si e das pessoas é a primeira demanda evangélica. Cuidar dos que sofrem não deve ser um apêndice da ação missionária, mas a grande atuação e a realização da Igreja. Quem se sente chamado para servir a Deus não fique apenas encantado com o ouro reluzente dos objetos sagrados, o comodismo das orações na madrugada, ofuscados pela fumaça do incenso, mas com a beleza da luta pela dignidade da vida humana.
Boa semana!
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