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Castelo de Bonecas: artesanato abre caminhos para recomeços

Da Redação com Ascom
Publicado em 13 de agosto de 2026 às 22:09

bonecas scaled

Foto: Ascom

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O fim da passarela rodeada por plantas e coberta pelo céu é o início para novas histórias de vida.

Entramos na oficina do Castelo de Bonecas, na Penitenciária Feminina Júlia Maranhão, em João Pessoa, na Paraíba, e a primeira visão faz a mente, em milésimos de segundos, percorrer o começo de tudo, o tempo de criança.

Não deu para falar sobre esse período com as 16 artesãs do projeto. Não foi possível saber se elas tiveram uma infância protegida.

Sol ilumina a mesa de trabalho e os sonhos das mulheres que atuam no projeto

Agora, as memórias daquele período fazem parte apenas do ofício, na confecção das bonecas de pano. As meninas cresceram e esperam pela oportunidade de recomeçar. Na oficina preenchida por tecidos coloridos, tintas, miçangas, e tantos outros artigos para a fabricação dos produtos, as máquinas de costura ficam em um espaço estratégico, pertinho das janelas, onde dá para ver e sentir o sol.

Na segunda reportagem da série ‘Castelo de Bonecas: o poder transformador de uma pena justa’, vamos conhecer a história de Lilian Alves Romão, de 20 anos, e as novidades da política de ressocialização da Justiça, que tem impulsionado recomeços para pessoas privadas de liberdade.

Leia também a primeira matéria da série: Castelo de Bonecas e o poder da transformação de uma pena justa

A esperança por trás de uma máquina de costura

Os raios do sol transpassam uma das janelas da oficina do Castelo de Bonecas e funcionam como olhos que permitem enxergar além do equipamento que sussurra. Num cantinho, por trás de uma máquina de costura, um rosto jovem aparece. É Lilian Alves Romão, de 20 anos, há um ano e cinco meses inserida no projeto.

Os cabelos cacheados e pintados em tons de vermelho são iluminados pela luz como a refletir a chegada de novas oportunidades. Ela não se intimida, vem em nossa direção com um sorriso verdadeiro, transmissor da esperança de uma nova vida.

Esse projeto não ajuda a gente só na ressocialização. Ele faz a gente querer ser outra pessoa, uma pessoa melhor. Nos ajuda com nossos familiares, na convivência. Traz outros pensamentos, outros pontos de vista que eu não tinha quando eu tinha a minha liberdade”, defende Lilian.

A diversidade encanta. São bonecas de todos os tipos e tamanhos. Feitas com tecidos os mais variados, enchimentos, rendas, linhas e outros aviamentos, elas se destacam pelos traços delicados, roupas coloridas e acabamento minucioso.

Além das tradicionais bonecas de pano, o ateliê cria personagens inspirados na cultura popular, na literatura infantil, em figuras conhecidas e em datas comemorativas, sempre com identidade própria.

Modelos de bonecos feitos, sob encomenda, pelas mulheres do projeto

Tudo cuidadosamente produzido por quem sequer imaginava ter talento para o artesanato. Lilian confessa que a oficina a fez se encontrar com uma vocação até então desconhecida.

Nunca imaginei que tinha esse talento, que um dia poderia aprender. Eu não tinha interesse. Agora tenho interesse cada vez mais em aprender, e evoluir como ser humano”, conta.

Evolução remete a Lei do Progresso. Uma lei natural e inevitável, a conduzir todos os seres e a humanidade ao aperfeiçoamento intelectual e moral.

É essa que agora dita as regras da vida de Lilian como ser social que é. A jovem trocou as lágrimas que inundavam os olhos nos primeiros dias chorosos na penitenciária, por uma visão de futuro impulsionada pelo talento investido para ser, em breve, multiplicado.

Quando transcender a privação da liberdade física, Lilian também quer mostrar ao mundo, através do próprio testemunho e de novas práticas, que o cárcere mais importante rompido na vida é o da alma.

Reinserção que transforma

Mudança de pensamento e no comportamento. A proposta de reintegração social é romper barreiras abstratas e fazer mulheres como Lilian serem enxergadas como as humanas que são. E esse é o trabalho e o anseio da juíza da Vara de Execuções Penais (VEP), Andrea Arcoverde.

Há 11 anos e 5 meses a magistrada atua na área e relata que, para a Justiça, a cena de uma mulher privada de liberdade confeccionando uma boneca que poderá alegrar uma criança, reafirma o compromisso com uma Execução Penal humanizada, transformadora e orientada à ressocialização.

O projeto incentiva uma verdadeira mudança de vida, de comportamento e de oportunidade real de inserção na comunidade de uma forma muito mais digna e humanizada. A remição de pena é acompanhada pela geração de renda e pelo aprendizado, atuando como um instrumento efetivo de dignidade e reintegração social” – juíza Andrea Arcoverde.

Mudança aguardada também no comportamento de cada pessoa que encontrar uma das artesãs do Castelo de Bonecas voltando a viver em liberdade, já que a cada três dias trabalhados elas conseguem um dia a menos na pena.

A esperança da juíza Andrea Arcoverde reflete no pensamento de Lilian Alves. Mais do que aprender, ela descobriu que a educação pode abrir caminhos, transformar sonhos em possibilidades e devolver à família o orgulho de vê-la seguindo em frente. Com os olhos no futuro, ela sabe onde quer chegar e quer que a sociedade perceba isso.

Aqui eu estou dando orgulho, porque estou evoluindo, e quero continuar, não só aqui, mas lá fora, quero dar orgulho à minha família. Terminar meus estudos, trabalhar e ser realmente uma pessoa que conviva bem na humanidade, seja realmente uma cidadã de bem”, promete a artesã.

Caminhos para uma pena justa

E se as mulheres do Castelo de Bonecas anseiam por um reencontro social, a Justiça abre caminhos para a concretização do alcance dessa meta. Missão para o plano Pena Justa, que propõe um sistema prisional que contribua para a segurança de todas e todos, baseado em responsabilizações justas e eficazes.

A essência do Plano Pena Justa é construir soluções sustentáveis, ampliar oportunidades e transformar o trabalho em um instrumento efetivo de cidadania e inclusão social”, detalha a juíza Andrea Arcoverde.

A magistrada completa: “Aprender um ofício viabiliza a reinclusão e oferece a independência financeira para que elas gerem renda para o sustento de suas famílias e reconstruam seus projetos de vida. O projeto garante que a pena vá além da punição, promovendo autonomia e trabalho digno”.

Emprega Lab e os pilares da capacitação na ressocialização

Trabalho digno exige capacitação. E capacitar alguém para uma profissão vai além se ensinar uma técnica.

Representa evolução comportamental de um indivíduo. Em se tratando de ressocialização, é uma construção a ser sustentada em alicerce formado por um tripé composto por conhecimento, habilidade e atitude.

Trio ancorado na história do projeto Castelo de Bonecas que agora se funde com o Emprega Lab, uma iniciativa nacional ligada ao Plano Pena Justa, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Projeto Castelo de Bonecas foi inserido no Emprega lab do CNJ

O Emprega Lab foi lançado em outubro de 2025 no Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB), em João Pessoa, como o primeiro laboratório do gênero no país. A proposta funciona como um laboratório de inovação e governança para ampliar a qualificação profissional, o trabalho remunerado e a inclusão produtiva de pessoas privadas de liberdade e egressas do sistema prisional, preparando-as para o mercado e tudo o que ele exige de qualquer empreendedor, como detalha a coordenadora do Grupo de Monitoramento e Fiscalização dos Sistemas Carcerário e Socioeducativo do TJPB (GMF-PB), juíza Aparecida Gadelha.

“Elas têm uma profissão, são artesãs, aprenderam muitíssimo bem, são exímias produtoras de bonecas e outros itens de tecido. Mas quando saírem daqui, precisam saber o que é que o mercado está pedindo, porque empreender é isso. Elas precisam gerenciar recursos, saber onde podem buscar financiamento, saber o time de mudar o produto. É sobre gerir e empreender. E o Emprega Lab veio fazer justamente isso”, acrescenta a magistrada.

Capacitação, trabalho, oportunidade. Três ações imprescindíveis para recomeços estimulados por raios solares transformados em portais para fazer as artesãs que passam pelo Castelo de Bonecas cumprirem uma pena justa.

O reconhecimento já veio. Elas confeccionaram os novos mascotes oficiais do Sistema Único de Saúde (SUS), batizados de ‘SUSi’ e ‘PegaSUS’.

Lilian Alves também pensa assim. A artesã compreende cada dever a ser entregue para o meio onde vive e torce por encontrar a chance de ter direitos garantidos quando retornar ao berço familiar. “A minha pena é justa porque me fez aceitar que aqui [no Júlia Maranhão], por mais que eu esteja presa, longe da minha liberdade, pelo menos estou tendo consciência que cometi erros, mas que com esses erros eu posso aprender a me tornar uma pessoa melhor”, reconhece.

No próximo capítulo da série ‘Castelo de Bonecas: o poder transformador de uma Pena Justa’, vamos conhecer a história de Vânia Maria da Silva e a expectativa de quem acompanha o dia a dia das mulheres na Penitenciária Júlia Maranhão.

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