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Benedito Antonio Luciano

Benedito Antonio Luciano

Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

O surrealismo de Luis Buñuel

Por Benedito Antonio Luciano
Publicado em 17 de abril de 2024 às 10:13

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Se alguém que nunca leu a Bíblia iniciar a leitura pelo livro Apocalipse, é provável que a dificuldade de compreender os simbolismos presentes no texto o faça desistir de ler os demais. Do mesmo modo, se alguém buscar a introdução no universo cinematográfico pela via do surrealismo do Luis Buñuel, é provável que também desista de assistir outros filmes do citado cineasta.

Luis Buñuel Portolés nasceu em Calanda, na Espanha, em 22 de fevereiro 1900. Filho de família abastada, estudou com os Jesuítas antes de perder a fé ao se envolver com os prazeres terrenos, as leituras materialistas; e ao conhecer o dramaturgo Federico García Lorca e o pintor surrealista Salvador Dalí, com quem fez seus primeiros filmes:

Um cão andaluz (“Un chien andalou”, 1929) e A Idade do ouro (“L’âge d’or”, 1930).

Um cão andaluz é um curta-metragem seminal, pois marca o início do surrealismo no cinema, tendo ficado famoso pela cena chocante na qual um homem corta, com uma navalha, o olho de uma mulher. No filme de dezesseis minutos de duração, fazem parte do elenco Luis Buñuel, Pierre Batcheff e Simone Mareuil.

A idade do ouro é uma produção francesa, em preto & branco, com duração de uma hora. Nesse filme, Buñuel e Dalí criaram imagens surrealistas sobre um enredo no qual um homem e uma mulher apaixonados buscam consumar esse amor, porque são interrompidos a cada momento, seja pela família, seja pela sociedade e suas instituições.

No elenco, destaque para a presença do famoso artista plástico alemão Max Ernst.

Em dezembro de 1930, Buñuel aceitou uma proposta de trabalho do representante geral da Metro-Goldwyn Mayer (M.G.M) e embarcou para os Estados Unidos. No ano seguinte, demitiu-se da M.G.M e regressou para a Europa, lá permanecendo entre 1931 e 1936, onde realizou na Espanha o documentário, “Las Hurdes (Tierra sin pan)”, em 1933.

Com a deflagração da Guerra Civil Espanhola, em 1936, Buñuel retornou aos Estado Unidos, onde trabalhou em Hollywood como conselheiro/curador de história e, posteriormente, no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, entre 1941 e 1943.

Entre 1946 e 1965, do faroeste/musical Gran Casino (1947) ao curta-metragem Simon du désert (1965), Buñuel realizou vinte filmes no México, país que ele se naturalizou, em 1949. E entre esses filmes, um se destaca: O anjo exterminador (“El ángel exterminador”), lançado em 1962.

Em O anjo exterminador, um grupo de pessoas que uma noite, após uma representação teatral, vão cear na casa de uma delas, por uma razão inexplicável, não conseguem mais sair de lá. Essa impossibilidade de realizar um desejo simples é recorrente nos filmes de Buñuel, a exemplo do casal no filme A idade do ouro.

O anjo exterminador pode não ser o filme mais famoso de Buñuel. Porém, é um dos mais enigmáticos. Em diversos países, os espectadores lembram de Buñuel como diretor de outros filmes, como: A bela da tarde (“Belle de jour”, 1967); Via Láctea (“La voie Lactée”, 1969); O discreto charme da burguesia (“Le charme discret de la bourgeoisie”,1972); e O fantasma da liberdade (“Le fantôme de la liberté, 1974).

Segundo Buñuel, em seu livro semibiográfico Meu último Suspiro (“Mon dernier soupir”), lançado em 1982, algumas vezes ele lamentou ter filmado O anjo exterminador no México. Pois, imaginava-o mais em Paris ou em Londres, com atores europeus e um certo luxo nos figurinos e acessórios.

Dotado de personalidade complexa, embora Buñuel tenha se tornado anticlerical e ateu a partir da adolescência, o fato é que a influência da cultura espanhola e da formação católica em sua infância burguesa se fez presente na maioria das obras surrealistas do futuro cineasta, falecido em 29 de julho de 1983, na Cidade do México.

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