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Jornalista, professor universitário, escritor e membro da Academia de Letras de Campina Grande.
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Alunos, professores e funcionários da Universidade Estadual da Paraíba – UEPB, viveram, na noite de ontem, uma situação de pânico, medo e terror depois que um homem invadiu o local e executou o funcionário de uma copiadora com vários disparos de arma de fogo. Após cometer o crime, o acusado ainda teria se dirigido até uma escola, onde a ex-companheira dele trabalhava, e que fica no mesmo bairro, chegando lá os seguranças impediram que ele entrasse no local. Há suspeita de que ele teria ido para assassiná-la. A vítima fatal recebeu seis disparos de pistola 380 nas regiões da cabeça e do peito. O colega dele que tentou defendê-lo, ficou ferido no peito e braço. Um aluno ficou ferido ao pular do primeiro andar. Muitos estudantes ficaram abalados e precisaram ser atendidos pelo SAMU. A polícia trabalha com a suspeita de crime passional. A vítima, de 40 anos, estava mantendo um relacionamento com a ex-companheira do acusado. A universidade suspendeu as atividades por uma semana. A reitoria lamentou o fato e considerou o que houve uma fatalidade. Fez questão de destacar ainda que não se tratava de um atentado provocado por algum aluno contra a instituição. A comunidade universitária da UEPB pede mais segurança para o local.
Bom, eu estava lá e vi quase tudo isso. E também estava na UEPB quando há seis anos houve um assalto à agência bancária que ficava no térreo da instituição e com o tiroteio os alunos entraram em pânico, assustados, com crises de ansiedade, desmaiando, saltando do prédio, temendo que fosse um desses ataques às instituições escolares que estavam acontecendo naquele período. Parecia uma repetição daquele evento ocorrido há meia dúzia de anos. Detalhe, nas últimas semanas, havia um temor na própria UEPB porque grupos neonazistas haviam colocado frases de cunho racista, homofóbica, xenofóbica nas paredes dos banheiros com dizeres tipo: “caiam fora negros sujos”. Então todo esse medo se explica, visto que a comunidade estava temendo que alguma coisa acontecesse. Inclusive hoje estava agendada uma manifestação contra esses atos no interior da universidade.
Daí, ontem à noite, por volta de 8:20h, estávamos em sala com os alunos, quando de repente ouvimos vários tiros vindos não sei de onde. E novamente o pânico se estabeleceu. Alunos deitados no chão, outros formando barricada na porta de acesso às salas, luzes apagadas… o medo tomou conta daquele espaço porque imaginava-se que algum ato terrorista, alguma ação nesse sentido, estaria acontecendo. Durante uns 10, 20 minutos, todos os alunos e professores ficaram presos em suas salas esperando que alguma notícia fosse dada a respeito do que de fato teria acontecido na instituição. Circulavam apenas, via WhatsApp, algumas informações desencontradas. Qualquer movimento pelos corredores aumentava o pânico de quem estava preso nas salas de aula dos três andares do prédio. Gente chorando, pessoas desesperadas e todos a espera de que algum guarda, algum segurança, algum policial… viesse até a sala pra contar o que tinha acontecido. Foi então que começou a se espalhar, nas redes sociais, notícia de que, de que havia ocorrido um crime na instituição. Mas a comunidade universitária só queria sair dali. As escadas e a rampa de acesso aos pavimentos superiores da instituição foram tomadas por alunos assustados, correndo, abraçados uns aos outros, chorando, amedrontados, tremendo… Enquanto isso, policiais do choque, polícia civil, bombeiros, ambulâncias, médicos do Samu chegavam ao local ainda sem entender muito bem o que estava ocorrendo ali. Todos espantados ao verem aquele clima de terror novamente tomar conta da instituição.
É muito triste que isso esteja acontecendo outra vez. Embora, graças a Deus, isso não tenha nenhuma ligação com um ato terrorista, mas mostra a questão da insegurança que existe naquele espaço onde todas as pessoas podem entrar e fazer o que bem entenderem. Todos saíram “em paz” da universidade, mas muito abalados psicologicamente. Eu sei que muitos não vão ter disposição pra retornar tão cedo ao campus I da UEPB, porque fica o trauma. Eu já vi (e vivi) isso antes. Depois daquele incidente de 2019, alguns alunos chegavam na escadaria de acesso e não conseguiam subir, choravam, tremiam, tinham sérias crises de ansiedade… Acho que a lição é de que a gente precisa de mais segurança, (não sei exatamente como), mas é necessário.
A UEPB é um espaço de construção de sonhos coletivos. Sonhos de pessoas das mais variadas cidades, estados e regiões desse país. A gente não pode transformar isso em pesadelo. Eu sei que com o desejo de matar que aquele rapaz estava, ele tirava a vida de seu alvo nem que fosse no altar de uma igreja, dentro de um culto religioso, seja onde fosse. Mas não podemos facilitar isso. Talvez se sua ex-companheira não estivesse em um lugar seguro (uma escola, pelo que me parece) ela teria sido morta também. Então, vamos zelar por esse patrimônio da Paraíba, esse bem tão importante para todos nós. A UEPB e todos nós não merecemos isso. Um abraço seguido de um pedido de desculpas para meus alunos. Mesmo já tendo passado por isso, eu não soube o que fazer, como agir, tive a sensação que abandonei vocês. Só queria abraçá-los com “as asas de todos os pássaros do mundo”. Perdoem-me.
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