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Madalena Barros

Madalena Barros

Jornalista, Pós-Graduada em Comunicação Educacional, Gerente de Negócios das marcas Natura e Avon.

Entre Sacis, assombrações e mentiras inventadas

Por Madalena Barros
Publicado em 2 de outubro de 2026 às 9:13

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Houve um tempo em que a infância não tinha telas. Tinha imaginação. E, pelo jeito, adultos com um estoque inesgotável de histórias capazes de nos fazer dormir com um olho aberto.

Não precisávamos de internet para sentir medo. Bastava alguém mais velho assumir aquele tom solene de quem estava prestes a revelar um segredo de Estado:

– Não saia de casa depois que escurecer, porque o Saci está solto.

Pronto! A criança já começava a olhar para a janela, imaginando o Saci de gorro vermelho, pulando por aí em sua perna só, provavelmente com muito mais disposição para fazer travessuras do que nós tínhamos para dormir.

Se o vento mexesse a cortina, era o Saci, se um galho batesse no telhado, era o Saci, se alguma coisa caísse na cozinha, era o Saci. E dependendo do tamanho do barulho, era melhor nem conferir, afinal, prudência também fazia parte da sobrevivência.

O folclore brasileiro nos criou assim: entre lendas, assombrações, bichos misteriosos e adultos extremamente criativos.

Tinha o Saci, com sua perna só e seu inseparável gorro vermelho, tinha o Curupira, com os pés virados para trás, provavelmente o primeiro brasileiro a desenvolver um método sofisticado para confundir quem ousasse seguir suas pegadas, tinha a Mula sem Cabeça, que surgia sabe-se lá de onde, relinchando e soltando fogo pelo pescoço, façanha que ninguem conseguia explicar.

Tinha a Caipora, o Boitatá e tantos outros personagens que, se resolvessem fazer uma reunião, dariam tranquilamente uma festa junina ou um carnaval inteiro de criaturas assustadoras.

Mas nada, absolutamente nada, superava o véio do saco e o papa-figo. Ah, o papa-figo… o véio do saco! Esses não eram folclore. Era terrorismo psicológico infantil.

Se a criança não obedecesse, não comesse tudo, não dormisse cedo, não fizesse o dever de casa, não voltasse para casa na hora combinada ou resolvesse fazer alguma arte, lá vinha o aviso:

– O véio do saco vai te pegar!

E a gente acreditava. Acreditava com uma fé que hoje talvez nem tenhamos para algumas coisas realmente importantes.

O homem tinha um saco imaginário, uma logística impecável e uma capacidade extraordinária de estar sempre por perto. Nunca vimos o sujeito, nunca encontramos o saco, nunca apareceu uma fotografia, uma testemunha ou sequer uma pegada. Mas bastava alguém mencionar o nome dele para a gente virar imediatamente a criança mais obediente da redondeza. O medo fazia milagres.

Já o papa-figo era outra categoria.

Era aquele homem sorrateiro que aparecia em um carro preto, pegava as crianças e as levava para sua casa sombria, retirava o fígado delas e fazia sabão com o resto. E não era simplesmente porque era mau, não. Havia toda uma justificativa médica no meio daquela maluquice: ele fazia isso para evitar que suas próprias orelhas crescessem até ficarem parecidas com as de um elefante.

Veja bem: a medicina infantil daquele tempo era realmente muito criativa.

E havia outras histórias igualmente extraordinárias. Uma delas, confesso, me arrepiava particularmente.

Diziam que mulher que estivesse amamentando não podia dormir com a blusa muito folgada ou com os seios expostos porque existia uma cobra preta que entrava durante a noite para mamar.  Sim, uma cobra. Preta. E, aparentemente, com preferência gastronômica bastante específica.

A criança ouvia aquilo e pensava: “Meu Deus, e se ela acordar? E como a cobra consegue com aqueles dentes finos?”

Hoje, pensando bem, é possível imaginar que essa história tenha sido criada para ensinar algum cuidado às mulheres que amamentavam. Mas, para nós, aquilo era praticamente um documentário de terror.

E assim o folclore ia cumprindo seu papel.

Muitas dessas histórias não nasceram apenas para assustar. Por trás delas havia costumes, ensinamentos, advertências, valores e até estratégias de sobrevivência. Era o jeito antigo de educar.

Não existia Google para explicar os perigos, existia a avó. E a avó não precisava de fontes, referências bibliográficas, estudos científicos ou especialistas. Ela simplesmente dizia:  Porque sim. E acabava a discussão.

Algumas proibições alimentares também vinham acompanhadas de suas próprias histórias. Quem nunca ouviu: “Não pode comer manga com leite!” Durante muito tempo, essa combinação foi tratada quase como tabu e sentença de morte.

Há uma explicação histórica bastante conhecida para a origem dessa crença: durante o período escravagista, essa ideia teria sido usada para impedir que pessoas escravizadas consumissem manga e o  leite direto da teta das vagas do pasto, numa época em que a fruta era abundante nas propriedades e o leite precisava ser destinado à venda, à produção de queijo, manteiga, nata, coalhada e ao consumo da casa-grande.

Assim, uma necessidade econômica podia transformar-se em proibição sobrenatural e a mentira, de tanto ser contada, virava verdade.  Nossos antepassados, sem Google, sem nutricionista e sem checagem de fatos, simplesmente acreditavam e passavam adiante.

Resultado? Até hoje tem gente que come manga olhando para o copo de leite como quem observa um inimigo potencialmente letal.

Hoje sabemos que manga com leite não é uma combinação venenosa para pessoas saudáveis. Mas a história ficou.

Assim como ficaram o lobisomem, a loira do banheiro, a mulher de branco, o homem que aparecia de repente na estrada, o assobio misterioso, o barulho no quintal, a pedra que rolava no telhado a noite, o passaro de canto rasgante na madrugada, o galo que cantava de dia, a porta que rangia sozinha…

E havia uma regra universal da infância: depois de ouvir uma história assustadora, atravessávamos uma sala comprida correndo, com o coração quase saindo pela boca, não porque tivéssemos certeza de que havia alguma criatura atrás de nós, mas porque, se houvesse, ela não poderia nos alcançar, já que monstro nenhum pegava criança que corria muito.  Pelo menos era nisso que acreditávamos e são esses mesmos  medos que divertiam e tiravam o sono, que se tornaram lembranças tão deliciosas. Enquanto escrevo, revivo e me pego sorrindo aqui sozinha na madrugada.

Hoje temos inteligência artificial, satélites, câmeras de segurança, celulares que sabem onde estamos e relógios que monitoram até o nosso sono. Naquela época, bastava uma história contada à luz de uma fogueira, de uma lamparina, na calçada ou na varanda para transformar o mundo inteiro em um lugar encantado e ligeiramente perigoso.

Tínhamos medo do Saci, do Curupira, da Mula sem Cabeça, da cobra preta e principalmente, do papa-figo e do véio do saco. Só não tínhamos medo de uma coisa: de acreditar. Acreditávamos em tudo.

E esse pode ser um dos maiores encantos da infância: ainda não sabíamos separar completamente a realidade da imaginação e o mundo parecia muito maior, mais misterioso e, certamente, muito mais divertido.

Descobrimos que o Saci não estava escondido atrás da porta, que o redemoinho não era provocado por ele, que o Curupira não estava nos seguindo, que a Mula sem Cabeça não apareceria na esquina e que o véio do saco provavelmente nunca passou nem perto da nossa casa.

Mas existe uma ironia maravilhosa nisso tudo:

passamos a infância morrendo de medo de criaturas que não existiam e chegamos à vida adulta descobrindo que o verdadeiro terror é abrir a fatura do cartão.

Por isso, depois de tanta assombração na infância, descobrimos finalmente quem é o verdadeiro personagem do nosso folclore moderno: o dia do vencimento da fatura do cartão de crédito.

Esse, meus amigos, não precisa de gorro vermelho, saco nas costas, carro preto, pé virado para trás nem mula sem cabeça, basta um código de barras.

E ainda há quem diga que folclore é coisa de criança!

Leia a coluna anterior:

Setembro Amarelo: que o nosso olhar seja amoroso💛

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