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Benedito Antonio Luciano

Benedito Antonio Luciano

Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).

Cárcere que aprisiona e cordas que libertam

Por Benedito Antonio Luciano
Publicado em 29 de abril de 2026 às 9:40

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Meu primeiro contato com a poesia de João da Cruz e Sousa se deu em 1971, por intermédio do saudoso professor de português João Batista dos Santos, quando eu cursava o segundo ano científico no Colégio Estadual da Prata, em Campina Grande (PB).

Considerado um dos maiores nomes do Simbolismo no Brasil, Cruz e Sousa nasceu em Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, em 24 de novembro de 1861.

Filho de Guilherme da Cruz e Carolina Eva da Conceição, ambos negros e escravos alforriados, o menino João recebeu a tutela do Marechal Guilherme Xavier de Sousa, antigo senhor de seus pais, de quem recebeu o sobrenome. Criado em sua casa como filho adotivo, teve acesso a uma educação refinada, nela incluídos os estudos de francês, latim e grego, além de matemática e ciências naturais.

Entre os poemas de Cruz e Sousa apresentados pelo professor João Batista em sala de aula, preservei dois deles, registrados em um caderno: “Cárcere das almas” e “Violões que choram”.

“Cárcere das almas” é um poema na forma tradicional de soneto, composto por 14 versos, divididos em quatro partes: dois quartetos (estrofes de 4 versos) e dois tercetos (estrofes de três versos):

“Ah! Toda a alma num cárcere anda presa
Soluçando nas trevas, entre as grades
Do calabouço olhando imensidades,
Mares, estrelas, tardes, natureza.

Tudo se veste de uma igual grandeza
Quando a alma entre grilhões as liberdades
Sonha e sonhando, as imortalidades
Rasga no etéreo Espaço da Pureza.

Ó almas presas, mudas e fechadas
Nas prisões colossais e abandonadas
Da dor do calabouço, atroz, funéreo!

Nesses silêncios solitários, graves
Que chaveiro do Céu possui as chaves
Para abrir-vos as portas do Mistério? ”.

Ao ler as estrofes de “Cárcere das almas”, percebe-se que há uma correlação entre o mundo material e o mundo espiritual, em consonância com a teoria das correspondências, associada ao poeta francês Charles Baudelaire.

Nesse sentido, as emoções ali expressas não se apresentam de forma superficial; ao contrário, revelam um mergulho introspectivo do poeta em busca de respostas para as suas angústias, o que pode ser relacionado, inclusive, à sua origem social.

No plano semântico, os vocábulos empregados no soneto adquirem uma dimensão mais ampla, mais abstrata, como, por exemplo, nas palavras: cárcere, tardes e natureza, reforçadas por metáforas como “alma presa entre grades”, “almas presas, mudas e fechadas” e “chaveiro do Céu”.

Observa-se, ainda, o uso expressivo de antíteses: “Alma presa” (limitação), versus “Imensidades” (liberdade infinita); “os grilhões” (prisão) versus “as liberdades”. Tais contrastes não apenas estruturam o poema no plano formal, mas também ampliam a tensão entre finitude e transcendência, eixo central da poética simbolista.

Assim, mais do que descrever um estado de sofrimento, “Cárcere das almas” encena a busca incessante por uma realidade superior, na qual a alma possa, finalmente, libertar-se, na eternidade, das limitações impostas pela finitude do mundo terreno.

O poema “Cárcere das almas” faz parte do livro Últimos Sonetos, escrito por Cruz e Sousa por volta de 1897, quando já se encontrava muito doente.

No tocante a “Violões que choram”, por ser um poema longo (144 versos, dispostos em 36 estrofes de quatro versos decassílabos), transcreverei apenas duas estrofes, para que o leitor perceba a maestria com que Cruz e Sousa fazia uso da palavra para compor os versos:

“Ah! Plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento…
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento…

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias de violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas. ”.

“Violões que choram” é um dos mais famosos poemas de Cruz e Sousa e um dos mais representativos do simbolismo brasileiro. Sendo a musicalidade uma das maiores características do simbolismo, o autor lançou mão de alguns recursos bastante eficazes para isso.

Na primeira estrofe, a recorrência de sons nasais ajuda a transmitir a ideia da emissão de notas graves nas cordas do violão, enquanto a abundância do fonema “s” intensifica a musicalidade e cria uma atmosfera sibilante e envolvente. Além disso, termos como “perfis” e “vagos contornos” reforçam a ideia de indefinição, uma das características marcantes do simbolismo.

Na estrofe seguinte, a combinação dos fonemas consonantais “v” e “s” torna ainda mais rica a musicalidade, criando um efeito sonoro que aproxima linguagem e música, sugerindo o som do violão e aproximando o auditivo do tátil e do visual, o que sugere uma forma de sinestesia, figura-chave do espírito simbolista.

Desse modo, mais do que descrever uma cena ou evocar um sentimento específico, “Violões que choram” constrói um espaço poético em que a emoção se manifesta como vibração, ressonância e ritmo, fazendo da linguagem um instrumento capaz de tocar aquilo que escapa às palavras.

Datado de janeiro de 1897, “Violões que choram” foi publicado no livro Faróis, lançado em 1900, depois da morte de Cruz e Sousa, ocorrida em 19 de março de 1898, em Curral Novo, atual Antônio Carlos, em Minas Gerais.

Em síntese, “Cárcere das almas” e “Violões que choram”, embora distintos em forma e construção, convergem, ao expressarem, com notável densidade estética, a dor humana e o anseio de transcendência, elementos que configuram o núcleo mais profundo da arte e da alma poética de Cruz e Sousa.

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