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Arcebispo Metropolitano da Paraíba.
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No domingo passado, celebramos a Festa de Pentecostes, encerrando o Tempo Pascal. Contudo, a liturgia da Igreja continua a nos conduzir pelos grandes mistérios da fé. Agora, somos convidados a contemplar o Domingo da Santíssima Trindade.
Mas o que a Igreja deseja nos dizer ao propor esta solenidade justamente na retomada do Tempo Comum? Logo no início de seu pontificado, o Papa Leão XIV nos ofereceu uma chave preciosa para compreender este mistério: “Deus não é estático, nem está fechado em si mesmo. É comunhão, relação viva entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo, que se abre à humanidade e ao mundo.”
A teologia denomina essa realidade de pericorese, isto é, uma dança eterna de amor recíproco, na qual as Pessoas divinas vivem uma perfeita comunhão. Celebrar a Trindade é, portanto, contemplar um Deus que existe em relação e que nos chama a aprender, na caridade, um novo modo de viver.
O nosso saudoso Papa Francisco costumava traduzir os mistérios eternos numa linguagem simples e profundamente humana, ajudando-nos a compreender que Deus não se revela pelo isolamento, mas pela relação.
Ao comentar a Festa da Trindade, recordava que celebramos “um único Deus”, mas que este Deus é Pai, Filho e Espírito Santo: Pessoas reais, distintas, e inseparáveis, unidas no amor. Como sintetiza São João: “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Assim, a Santíssima Trindade não é uma ideia abstrata, mas o mistério de um Deus que existe eternamente como comunhão.
Muitas vezes dizemos que explicar a Trindade é tarefa difícil. E de fato é, sobretudo quando tentamos compreendê-la apenas pela lógica dos números. Se reduzirmos a Trindade a um cálculo — um Deus e três Pessoas —, seu mistério pode parecer frio e distante. Contudo, a teologia da Igreja nos mostra algo muito mais belo: o número três, no coração de Deus, é linguagem de relação.
O Pai, o Filho e o Espírito Santo vivem uma entrega eterna e recíproca. Deus é comunhão perfeita, onde não existe espaço para egoísmo, fechamento ou solidão.
Por isso, o centro da Trindade é a caridade. O amor, em sua forma mais plena, é sempre relação, saída de si, dom oferecido. A caridade não é apenas uma virtude moral entre tantas outras; ela é o próprio modo de existir de Deus.
O Pai ama o Filho, o Filho se entrega ao Pai, e o Espírito Santo é o vínculo vivo deste amor infinito. Na Trindade, amar não é um gesto ocasional, mas uma realidade permanente. Deus só sabe amar, porque Deus só sabe relacionar-Se.
Mas quando esta relação divina toca concretamente a nossa vida? A Trindade começa a fazer morada em nós a partir do Batismo. “Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, proclama a Igreja. Isto significa que fomos mergulhados numa existência relacional. Fomos criados e chamados para amar à maneira de Deus. Celebrar a Santíssima Trindade, portanto, não é apenas contemplar um mistério distante do céu, mas reconhecer um horizonte concreto para o nosso modo de viver no mundo.
As relações entre as Pessoas divinas tornam-se referência para nossas relações humanas. Em tempos marcados pela polarização, pela indiferença e pela incapacidade de escuta, somos chamados a reaprender a linguagem da caridade: o respeito, a acolhida, a compaixão, a capacidade de carregar o sofrimento do outro.
Não podemos nos acomodar diante de uma sociedade ferida pela superficialidade das relações. Como filhos de Deus, somos chamados a testemunhar outra lógica: a lógica do encontro. Afinal, como nos recordava o Papa Francisco, a família divina não permanece fechada em si mesma, mas se abre à criação e à história, convidando toda a humanidade a participar desta comunhão. Onde há amor verdadeiro, Deus está presente.
A medida da Trindade é sempre o transbordamento da caridade. Deus ama sem medida, sem cálculo, sem reservas. E este amor é profundamente educativo: ensina-nos a sair de nós mesmos e a transformar o mundo.
“A Trindade é Amor a serviço do mundo, que quer salvar e recriar”, recordava Papa Francisco. Não podemos acolher um amor tão imenso e mantê-lo aprisionado em nossos próprios interesses.
A caridade trinitária se torna concreta quando restaura famílias feridas, quando estende a mão aos pobres, quando resgata jovens marcados pelas drogas e violência, realidade tão dolorosa em nossas comunidades. Trata-se de um amor que não se basta, mas que se derrama; um amor que devolve dignidade, reconstrói histórias e reacende no coração humano o sentido de pertença e fraternidade.
O Papa Leão XIV, no início de seu pontificado, recordava que a Igreja é chamada a ser cidade colocada sobre o monte e farol que ilumina as noites do mundo. Contudo, essa luz só será verdadeira se brotar da caridade. A Igreja convence não pela força dos discursos, mas pela transparência do amor vivido.
Que a Santíssima Trindade, mistério eterno de amor e comunhão, nos ensine a viver a caridade como relação. E que, contemplando o Pai, o Filho e o Espírito Santo, aprendamos a construir relações mais humanas, reconciliadas e semelhantes ao coração de Deus.
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