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Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
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Por ser um país tropical, o Brasil é dotado de uma grande variedade de frutas, das mais diferentes cores, sabores e texturas, o que as torna uma importante fonte de inspiração para os compositores, tal como apresentado no texto “Frutos e árvores frutíferas na MPB”, publicado na minha coluna no ParaibaOnline, em 10 de janeiro de 2024.
No texto citado, essa variedade é evidenciada em algumas composições, tais como: “ABC das frutas”, de Moraes Moreira; “Refazenda”, gravada por Gilberto Gil; em músicas gravadas por Luiz Gonzaga e por Jackson do Pandeiro; além de outras gravadas por Alceu Valença, Jorge Ben e Wilson Simonal.
Ampliando o enfoque, quando se observa o repertório internacional, sobretudo o de língua inglesa, percebe-se que a variedade de nomes de frutas nos títulos e nas letras das músicas é relativamente inferior àquela observada na MPB. Como exemplo, seguem alguns títulos de músicas, acompanhados dos nomes de seus intérpretes e dos anos de lançamento de cada gravação:
Apple of My Eye – Badfinger (1970);
Apple Jam – George Harrison (1970);
Apple Pie – Lizzy McAlpine (2020);
Banana Boat Song – Harry Belafonte (1956);
Blueberry Hill – Fats Domino (1966);
Cherry, Cherry – Neil Diamond (1966);
Cherry Red – Bee Gees (1967);
Coconut – Harry Nilsson (1971);
Grapes – James Marriott (2022);
Little Green Apples – O. C. Smith (1968);
Orange Crush – R. E. M. (1988);
Strawberry Fields Forever – The Beatles (1967);
Strawberry Swing – Coldplay (2008);
Tangerine – Led Zeppelin (1970); e
The Lemon Song – Led Zeppelin (1969).
Embora a amostra seja limitada, verifica-se nela uma tendência à recorrência de determinadas frutas: Apple (maçã), quatro vezes; Cherry (cereja), duas vezes; Strawberry (morango), duas vezes; e as demais, uma vez cada: Banana (banana), Blueberry (mirtilo); Coconut (coco); Grapes (uvas); Tangerine (tangerina); Orange (laranja) e Lemon (limão).
Uma curiosidade é que a foto da maçã verde brilhante que aparece nos selos da maioria dos discos dos Beatles é o logotipo da Apple Records, gravadora criada pela própria banda em 1968. No lado A, a maçã aparece inteira. No lado B, ela aparece cortada ao meio, um detalhe gráfico que reforça o valor simbólico dessa fruta.
No cancioneiro francês, embora o tema não seja tão recorrente quanto em outras tradições, também se encontram exemplos de músicas cujos títulos fazem referência significativa a frutas, tais como:
Framboises (Framboesas) – Boby Lapointe (1969);
Juanita Banana (Juanita Banana) – Henri Salvador (1966);
L’Amour est Cerise (O Amor é como a Cereja) – Jean Ferrat (1980);
Les Temps des Cerises (O Tempo das Cerejas) – Yves Montand (1955);
Les Pommes de Lune (As Maçãs da Lua) – Juliette Gréco (1966);
Les Raisins Dorés (As Uvas Douradas) – Gilbert Laffaille (2023);
L’Orange (A Laranja) – Marie Laforêt (1966);
Mandarines (Tangerinas) – Lyne Clevers (1936);
Orange Amère (Laranja Amarga) – Françoise Hardy (1986);
Salade de Fruits (Salada de Frutas) – Bourvil (1959).
Em termos comparativos com o Brasil, observa-se que nas canções francesas há menos variedade de nomes de frutas (framboesa, banana, cereja, maçã, uva, laranja e tangerina). No entanto, nota-se nelas uma forte carga simbólica, frequentemente associada à sensualidade, ao lirismo e a outras metáforas.
Já nas canções de origem hispânica, sobretudo no Caribe, observa-se um uso mais direto e, muitas vezes, marcado pelo duplo sentido. Nesse contexto, a linguagem tende a ser mais explícita, aproximando-se da oralidade e da cultura popular. Seguem alguns exemplos:
Arbolito de Durazno (Pequeno Pessegueiro) – Los Kjarkas (2003);
Aroma de Mandarinas (Aroma de Tangerinas) – Horacio Guarany (2007);
Banana (Banana) – Garibaldi (1992);
El Aguacate (O Abacate) – Carlos Campos (1969);
La Cumbia del Limón (A Cumbia do Limão) – Luis Andrade (2023);
La Guayaba (A Goiaba) – Hipólito Arrieta (2015);
Las Uvas (As Uvas) – Chalino Sánchez (2016);
Las Manzanas (As Maçãs) – Rubén Rada (1969);
Naranjo en Flor (Laranjeira em Flor) – Virgílio Espósito (1996);
Naranjitay (Laranjinha querida) – Jaime Torres (1964);
Pera Madura (Pera Madura) – Sergio Inostroza (1963).
Dessa forma, ao evidenciar a presença de frutas em títulos de músicas, este breve levantamento ultrapassa o caráter meramente enumerativo e se configura como um recurso que reflete traços culturais específicos de cada tradição. Por exemplo, em “Naranjitay”, um carnavalito andino, a palavra laranja foi empregada de forma figurada, afetiva e coloquial para designar a uma jovem, tratando-a por laranjinha.
Na música popular brasileira, sobressaem a diversidade e a naturalidade com que as frutas são incorporadas, ao passo que, nos repertórios internacionais analisados, observam-se tanto a recorrência de certos símbolos quanto diferentes formas de elaboração — do lirismo metafórico francês à expressividade direta de matriz hispânica.
Assim, mais do que um inventário temático, a principal contribuição deste texto é suscitar investigações mais aprofundadas sobre os significados culturais e estéticos das frutas na música popular brasileira e em repertórios internacionais.
Leia a coluna anterior:
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