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Arimatéa Souza

O preço da cegueira (quase) coletiva

Arimatéa Souza
Publicado em 24 de outubro de 2026 às 0:04

Década perdida

Chegamos ao crepúsculo de uma campanha eleitoral cuja síntese revela uma face que, ao mesmo tempo, nos entristece e nos envergonha.

De nada, absolutamente nada, serviu, enquanto aprendizado, quase uma década de insana disputa eleitoral fundada na negação, na desconstrução e até na demonização de quem pensa diferente politicamente.

Via equivocada

Repete-se, melancolicamente, o que se atestou em pleitos anteriores: famílias divididas, confraternizações suspensas, amizades abaladas, tudo por conta da opção que a maioria do país fez de converter uma disputa que deveria ser de ideias, de propostas e de rumos para uma Nação num embate de natureza comportamental, resvalando para o espaço inviolável das escolhas pessoais.

Histeria coletiva

Numa cegueira cívica, bafejada por uma retórica só conveniente a quem transita pelo poder, esquecemos de uma lição singela e elementar: são mínimos os pontos de interseção entre os interesses da elite política e/ou econômica e vastidão de brasileiros que batalham incansavelmente da aurora ao por do sol na qualidade de trabalhadores, profissionais liberais ou autônomos, ou microempreendedores.

Evidências

Com um pouquinho de racionalidade ou de reflexão, facilmente chegaríamos à constatação de que inexistem, entre nós, “mitos” ou “pais da pobreza”.

Gênese

A batalha travada entre o presidente Lula/PT e a família Bolsonaro tem no seu âmago um apego desmedido ao poder.

Ambos, deliberada e pensadamente, novamente escolheram o outro como o seu adversário preferencial nas eleições deste ano, pisando firme para um acirramento político que não ensejasse a possibilidade de qualquer outro postulante se habilitar com um mínimo de chances nessa contenda que consegue fazer com que os dois postulantes do turno suplementar também liderem, desde a pré-campanha, a rejeição do eleitorado, com índices acintosos.

Togas manchadas

Nessa marcha batida da insensatez à luz do sol, e como se ainda fosse pouco tanto desvario do “andar de cima”, eis que o Judiciário brasileiro, notadamente a maioria de seus tribunais superiores, e por diversos de seus integrantes, se permite solapar algo que deveria ser intrínseco e inamovível deste poder: a sua credibilidade, a sua condição de moderador diante de refregas institucionais.

Sem nenhuma vênia

As páginas que vários ministros do Supremo Tribunal Federal, do Tribunal Superior Eleitoral e do Superior Tribunal de Justiça estão escrevendo são de uma desfaçatez chocante, abominável, sob todos os ângulos, cuja reação automática e compulsória deveria ser o imediato afastamento e uma punição exemplar, demarcadora de um novo tempo entre os que são ungidos ao uso da toga de forma vitalícia.

“Régua”

O descaminho cívico é tamanho, que pesou acentuadamente (para milhares de eleitores) na escolha de um candidato ao Congresso Nacional este ano, no 1º turno, a sua postura quanto aos membros do STF e o processo de recrutamento de seus ministros.

Sem freio

No viés econômico, o descalabro eleitoral não foi menor, com o agravante de que esse ponto afeta diretamente o bolso e o bem-estar nas pessoas.

O presidente Lula, por falta de instrumentos legais coercitivos para um delicado momento, como é o eleitoral, embalou um “pacote de bondades” estimado em aproximadamente R$ 300 bilhões.

Fez pior

O seu opositor, que acenou para os agentes econômicos com um “tesouraço” da ordem de R$ 250 bilhões, no dia a dia da campanha verbalizou promessas que ultrapassam com folga as concessões “em cima da hora” de seu opositor.

Fantasiosas

Nos dois casos, o mesmo e deplorável diagnóstico: é orçamentariamente insustentável a maioria dessas promessas de fácil (e irresponsável) apelo popular, constituindo-se no que os economistas e cientistas políticos costumam chamar de “estelionato eleitoral”.

A fatura sempre chega

O certo, e infelizmente inevitável, é que 2027 será um ano penoso, no qual a frieza dos números e a finitude dos recursos públicos vão esbarrar na realidade, quer ganhe Lula ou Flávio Bolsonaro.

Economicamente é possível retardar sacrifícios, mas sempre é cobrado um custo adicional pela incúria dos que governam.

O fundo do poço

A simbologia desta campanha horrorosa, se é que é possível recolher a pior amostra num pantanal de achincalhes ao eleitor, foi o debate da Band.

O programa foi uma espécie de “estandarte” da maledicência de nossas elites políticas.

Foi um “tapa na cara” do cidadão comum prestes a vestir o figurino de eleitor.

Gesto de…

Se Lula e o PT, o PL e a família Bolsonaro, tivessem sincera consideração ao país e se preocupassem efetivamente com o bem estar de nosso povo; se imaginassem o que estamos legando às futuras gerações; se pensassem aos bebés que choram pela primeira vez nas maternidades Brasil afora, teriam convergido noutro tipo de iniciativa.

…Estadista

Ao invés de marcarem um desafio para a porta do TSE com a intenção da quebra mútua dos sigilos, no afã de mostrar quem mais aviltou a condição de agente político e transgrediu a tênue fronteira entre o que é público e o que é privado, teriam firmado um pacto de desistência mútua, forçando a convocação de novas eleições sem as suas participações.

Patinando na história

Uma única certeza nos envolve nessa véspera do segundo turno. É que como um perverso bumerangue, novamente não aprendemos a dura lição do cotidiano.

Parece que tão somente a fatalidade do tempo e as vicissitudes que só se acumulam nos levarão a mudar o curso da caminhada, levando-nos a sair dessa ridícula e irracional polarização, que nos separa enquanto patrícios e nos torna caricatos como cristãos.

 

Votar é semeadura; não deve ser a indulgência a um infrator de estimação…

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