Eleições na Paraíba com um “sobrevivente”
Jogo jogado
Nos meios políticos paraibanos – e para uma expressiva parte da opinião pública – a eleição para governador do Estado já estava (para usar uma linguagem econômica) precificada.
Ou seja, há algumas semanas a reeleição do governador Lucas Ribeiro (PP) no primeiro turno era algo tido como quase inevitável, restando a dúvida quanto ao percentual de votos a ser obtido – superior a 64% dos votos apurados.
Convergências
A vitória de Lucas é resultado de sua superação, da boa imagem inoculada na gestão no seu antecessor João Azevedo (PSB), mas também pelo fato de o atual governador ter sido subestimado por seus adversários desde que foi sacramentada a renúncia de João para concorrer ao Senado.
Erro de cálculo
O definhamento da campanha de Cícero Lucena, por outro lado, decorreu do fato de ele ter subestimado o diferencial que é o poderio de uma candidatura situacionista, notadamente num estado vergado pela dependência exacerbada do poder público.
Desmantelo
Para completar – e complicar ainda mais -, a estratégia da campanha de Cícero avolumou um amontoado de equívocos, incompatíveis para quem já governou a capital da Paraíba por quatro vezes, foi governador e senador.
Derivação
Em poucos momentos da campanha recém finda, Cícero vestiu na plenitude a figura de uma candidatura oposicionista, tornando assim o embate político uma confrontação pessoal (e na fase final da disputa) de natureza familiar.
Pela metade
Na prática, como foi dito neste espaço há vários dias, Cícero encarnou uma espécie de “sublegenda” do bloco governista, ao evitar qualquer crítica à administração com mais de sete anos de duração de João Azevedo.
Duplo efeito
Ao poupar João de ataques, obliquamente Lucena fortalecia a candidatura de Lucas e tornava cumulativamente João o principal avalista de seu sucessor na disputa da reeleição, assim como era pavimentada a campanha do próprio João ao Senado, que ficou imune às críticas, com a exceção do seu antecessor, Ricardo Coutinho (PT).
Ajuste de rota
Diante dessa “nau” sem rumo que foi a campanha de Cícero, o senador Efraim Filho (PL), que entrou nessa disputa com a intenção inicial de massificar ainda mais o seu nome pelo Estado, já divisando as eleições de 2030, como também assegurar a eleição do seu irmão George Morais (PL) para deputado federal, começou a “tomar gosto” pela disputa, também porque o cenário nacional não se mostrava tão adverso para o presidenciável peelista Flávio Bolsonaro (PL), como se desenhou logo após a escolha do nome do senador carioca.
“Derreteu” em demasia
Efraim avançou tanto sobre o vácuo da campanha de Cícero que a desidratação do ex-prefeito pessoense chegou ao ponto de tornar inviável o segundo turno, diante do agigantamento da campanha de Lucas em face da mediocridade da (presumível) principal candidatura oposicionista.
Subiu degraus
Independentemente da retumbante vitória de Lucas Ribeiro (percentualmente falando), Efraim Filho sai dessa disputa em um novo patamar como liderança estadual.
Deprimente
A campanha para o Senado na Paraíba, na parte que vai além do favoritismo consolidado de João Azevedo, como mencionado anteriormente, comporta uma das páginas mais vexatórias da política paraibana nos últimos tempos – e olha que nossa política paroquial sempre esteve muito longe de qualquer postura angelical nas últimas décadas.
Sem limites
A estrutura colocada em prática pelo presidente da Câmara Federal, Hugo Motta (Republicanos), para tentar viabilizar a eleição do seu pai, Nabor Wanderley (REP), nem de longe tem precedentes em terras tabajarinas.
Comporta plenamente o bordão já conhecido (literalmente) do rolo compressor, que extrapolou da esfera política e orçamentária para se debruçar sobre o ambiente institucional e midiático.
Sintomático
Não por acaso, este colunista registrou renovadamente a anomalia que foi a formação das chamadas “Bancadas de Patos” nas Câmaras Municipais de Campina Grande e João Pessoa.
Convenhamos que não é (e não foi normal) um ex-prefeito de Patos contar o apoio majoritário dos componentes dessas duas casas legislativas que, por sinal, devem explicações para esse (lá vai o eufemismo) fenômeno geográfico.
“Ilhado”
Num cenário no qual as lideranças bolsonaristas buscaram demarcar terreno na disputa para o Senado com a nacionalização dos posicionamentos e das opções presidenciais, e em outra perspectiva, o grupo governista estadual optou (corretamente, de forma pragmática) por fazer uma campanha coletiva (Lucas/João e Nabor), o senador Veneziano (MDB) foi em busca da reeleição praticamente numa campanha solo.
Sinuosidade
De um lado, a campanha de Cícero adotando como regra a “blindagem” de João Azevedo e uma postura dúbia com relação ao segundo voto para o Senado, ao ponto de o próprio Cícero anunciar o apoio ao outro candidato emedebista, André Gadelha, mas concordando com que o seu sucessor, Leo Bezerra, adotasse na Capital a campanha de Nabor.
Para não neutralizar
Noutra frente, a batalha quase diária para que o decisivo apoio do presidente Lula não se tornasse inócuo, caso ele manifestasse o apoio a três postulantes ao Senado na Paraíba.
Feito histórico
A vitória apertada de Veneziano sobre Nabor – cerca de 80 mil votos – foi gigantesca diante do que ele enfrentou ao longo da campanha, sentindo na pele o peso descomunal da “caneta” da presidência da Câmara Federal, usada desmedidamente pelo seu titular, Hugo Motta.
Muito ainda há o que se revelar e se refletir acerca das eleições deste ano na Paraíba. Mas, por esta edição, cabe atestar que politicamente restou um sobrevivente da potente (e muitas vezes fatal) artilharia da estrutura governista na Paraíba: senador Veneziano Vital do Rêgo.
Dúvida que remanesce desta eleição: se Cícero não podia (ou não queria) fazer oposição a João Azevedo, para que inventou de ir para a oposição?…