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Madalena Barros

Madalena Barros

Jornalista, Pós-Graduada em Comunicação Educacional, Gerente de Negócios das marcas Natura e Avon.

Egotismo: quando o eu ocupa espaço demais

Por Madalena Barros
Publicado em 28 de agosto de 2026 às 11:08

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Ouvi essa palavra e achei que a pessoa estava querendo dizer egoísmo e tinha errado. Fui buscar informações para ver se fazia sentido e fui surpreendida positivamente, por mais um aprendizado e resolvi trazer este tema, que embora seja conhecido, não tinha a nomeação da palavra, partindo do princípio que existem pessoas que entram em uma relação querendo compartilhar a vida e existem aquelas que, consciente ou inconscientemente, parecem precisar fazer com que tudo gire ao redor delas.

O egotismo não é simplesmente ter autoestima, personalidade forte ou gostar de reconhecimento. Uma pessoa pode se valorizar, saber o próprio potencial e ainda assim conseguir enxergar, ouvir e considerar o outro. O problema começa quando o “eu” se torna tão central que quase não sobra espaço para o “nós”.

A pessoa egotista costuma precisar sentir que tem razão, que é importante, que é admirada ou que ocupa uma posição de destaque. Muitas vezes, transforma conversas em monólogos, situações em disputas e diferenças de opinião em ameaças pessoais. Se alguém conta uma conquista, ela pode sentir necessidade de contar uma ainda maior. Se alguém sofre, pode rapidamente trazer o assunto para o próprio sofrimento e se recebe uma crítica, pode reagir como se tivesse sido atacada. E é justamente na maneira de reagir que alguns sinais ficam mais evidentes.

Uma pessoa egotista pode ter enorme dificuldade em admitir um erro. Pode justificar suas atitudes, transferir responsabilidades ou encontrar motivos para explicar por que, no fundo, estava certa. Quando é contrariada, pode ficar defensiva, irritada, fria ou até tentar diminuir quem a confrontou e esta, pode virar um alvo.

Também pode demonstrar dificuldade genuína em celebrar o sucesso dos outros. Não necessariamente porque deseja o mal, mas porque a conquista alheia pode despertar uma sensação de comparação, ameaça ou perda de protagonismo.

Outro sinal importante é a reciprocidade: Você percebe que está sempre ouvindo, compreendendo, cedendo e tentando manter a relação saudável, enquanto a outra pessoa espera ser compreendida sem necessariamente oferecer a mesma disposição. Você fala sobre algo que sente e, em vez de acolhimento, recebe uma explicação sobre por que você está errado. Você estabelece um limite e a pessoa interpreta o limite como rejeição, desrespeito ou ingratidão.

Com o tempo, algo curioso acontece: você começa a se sentir pequeno dentro da relação, começa a escolher palavras para não provocar uma reação, evita determinados assuntos, pensa duas vezes antes de discordar, pois sente que precisa justificar sentimentos perfeitamente razoáveis, e aos poucos, pode começar a questionar a própria percepção.

Opa! Aleta ligado! É aí que precisamos ter cuidado.

Nem toda pessoa egotista é necessariamente uma pessoa má. O egotismo pode esconder inseguranças profundas, necessidade excessiva de validação, medo de parecer fraco, dificuldade de lidar com frustração ou uma história de vida em que a pessoa aprendeu que precisava estar sempre acima, sempre certa ou sempre no controle e o contraponto é este: Por trás de um ego enorme, às vezes existe uma autoestima muito frágil. Mas compreender a origem de um comportamento não significa aceitar qualquer comportamento e essa talvez seja uma das coisas mais importantes para aprender ao conviver com alguém assim: empatia não exige ausência de limites.

Se você precisa se relacionar com uma pessoa egotista, não entre constantemente na disputa pelo poder. Evite transformar cada conversa em uma batalha para provar quem está certo, escolha o que realmente precisa ser discutido e mantenha sua comunicação clara, objetiva e firme. Em vez de tentar ferir o ego da pessoa, fale sobre comportamentos concretos e seus efeitos. Ao invés de dizer: “Você só pensa em você”, pode ser muito mais produtivo dizer: “Quando eu estou falando sobre algo importante para mim e você muda o assunto para você, eu sinto que não estou sendo ouvido.” Em vez de entrar em uma competição, estabeleça um limite, e ants de tentar convencer a pessoa de que ela é egotista, observe se ela consegue ouvir o que você está dizendo e modificar alguma coisa.

Existe uma diferença enorme entre alguém que tem comportamentos egotistas e alguém que não consegue reconhecer absolutamente nenhum problema em sua maneira de agir. A primeira pode aprender. A segunda talvez precise querer aprender.

E essa é a parte que muitas pessoas esquecem quando tentam ajudar alguém: ninguém muda porque foi amado o suficiente, explicado o suficiente ou perdoado infinitamente. Mudança verdadeira acontece quando a própria pessoa reconhece que existe algo em seu comportamento que precisa ser transformado. Então, sim, é possível ajudar.

Você pode conversar com respeito, mostrar como determinadas atitudes afetam as pessoas,  oferecer uma perspectiva diferente, incentivar autoconhecimento e, quando necessário, sugerir acompanhamento profissional.

Mas você não pode fazer o trabalho interno pela outra pessoa. Pode oferecer um espelho, mas infelizmente não pode obrigá-la a olhar.

Quem sabe,  a melhor maneira de se relacionar com alguém egotista seja justamente não alimentar aquilo que você deseja transformar. Por isso,  transforme a relação em uma disputa constante, não recompense manipulações com concessões intermináveis e não abandone seus próprios valores para manter a pessoa satisfeita e principalmente, não confunda paz com silêncio.

Relacionar-se bem não significa aceitar tudo. Significa conseguir dizer “eu entendo você” sem precisar dizer “eu concordo com tudo” e muito importante: significa conseguir amar alguém sem abandonar a si mesmo. Qualidades podem ser reconhecida sem precisar fechar os olhos para aquilo que machuca.

Existe uma pergunta poderosa para quem convive com alguém assim: “Depois de estar com essa pessoa, eu me sinto mais eu mesmo ou cada vez menos eu?”

Uma relação saudável não exige que uma pessoa desapareça para que a outra possa brilhar. O amadurecimento real acontece quando descobrimos que não precisamos ser o centro de tudo para ter valor e reconhecer o outro não diminui quem somos. Pedir desculpas não nos torna menores e admitir “eu estava errado” pode ser uma demonstração de força, afinal, ouvir não é perder espaço. Dividir o protagonismo da vida talvez seja uma das formas mais bonitas de amar.

Por fim, talvez o grande antídoto para o egotismo seja a capacidade de sair, por alguns instantes, do próprio centro e perguntar:  “E o outro? Como ele está? O que ele sente? O que ele precisa? O que minhas atitudes estão causando?”

Quando alguém consegue fazer essas perguntas com sinceridade, o ego deixa de ser um trono e começa, finalmente, a ser apenas uma parte da pessoa e não o dono de tudo.

Leia a coluna anterior:

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