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Saúde e Bem-estar

Idosos: nova geração reinventa a velhice e faz da aposentadoria um recomeço

Da Redação*
Publicado em 14 de junho de 2026 às 20:00

Oswaldo Vecchione foto

Foto: Rafaela Araújo /Folhapress

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Conhecido por comandar uma das bandas mais emblemáticas e subversivas do rock paulistano, o lendário músico Oswaldo Vecchione, de 78 anos, sempre manteve no palco uma postura avessa aos padrões tradicionais.

No entanto, fora dos holofotes, ele guardava uma barreira pessoal discreta: levou exatamente seis décadas de carreira para tomar coragem e riscar a pele pela primeira vez.

O desenho escolhido não poderia deixar de ser uma homenagem à sua própria história de vida.

No braço direito, o roqueiro estampou o icônico baixo em formato de estrela, o fiel instrumento que se tornou sua marca registrada e o acompanha até hoje.

Não parou mais. Ele cortou as mangas de suas camisetas e passou a se apresentar com a banda de rock Made in Brazil vestindo regatas para exibir suas novas marcas na pele.

Hoje, o músico já acumula 17 tatuagens. “Elas me trouxeram uma liberdade nova.”

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A trajetória de Vecchione ilustra algo que os consultórios de geriatria têm registrado com frequência: uma geração de pessoas acima dos 60 anos que reorganizou prioridades e passou a tomar decisões que, em outras épocas, seriam consideradas fora do lugar.

Esse movimento ganhou nas redes sociais o nome de Nolt, acrônimo para new older living trend (nova tendência de viver a maturidade, em tradução livre).

Envelhecer não é um problema, até porque é inevitável. O que muda é como lidar com a passagem do tempo.

Foi o que aconteceu com Vecchione. “Senti algo que talvez eu mesmo reprimi por décadas: sempre achei tatuagem bonita, convivi com muitos músicos e fãs que as tinham, mas nunca tive a iniciativa de fazer uma. Agora não quero mais parar.”

O músico já homenageou na pele artistas que admira, como Chuck Berry, Elvis Presley e os Rolling Stones, além de nove estrelas para cada um de seus casamentos e outra do irmão e parceiro de banda Celso Vecchione, morto em 2023. “Meu corpo virou um livro com minha história.”

Para Polianna Souza, geriatra do Hospital Israelita Albert Einstein, porém, a sigla Nolt funciona mais como nome de mercado do que como inovação teórica.

“O termo, interpretado por alguns como uma espécie de negação do envelhecimento, é um novo rótulo para um fenômeno que já observamos há algum tempo: uma mudança profunda na forma como as pessoas estão envelhecendo e desejam envelhecer.”

Polianna explica que, embora tenha ganhado força nas redes sociais, como costuma acontecer com muitos movimentos contemporâneos, o Nolt descreve um comportamento real: pessoas mais velhas que desafiam o estereótipo clássico da velhice associada à passividade, fragilidade e adoecimento.

“São idosos que rejeitam a ideia de que envelhecer significa, necessariamente, desacelerar ou se retirar da vida.”

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Até se aposentar, há 20 anos, Amália Leandro Olegário, 80, havia priorizado cuidar dos oito filhos e tinha feito, até então, apenas uma viagem mais longa: de São Paulo a Natal, para visitar parentes.

Mas algo em sua rotina mudou após a aposentadoria, e ela começou a explorar destinos mais distantes.

Quando uma de suas filhas se mudou para a Itália, Amália começou a passar longas temporadas no exterior e aproveitou a oportunidade para percorrer a Europa.

Visitou as cidades italianas Florença e Verona, mas também conheceu a França e a Suíça.

Viúva desde os 51 anos, depois de 35 anos de casamento, ela não planejava reabrir a vida afetiva.

Mas em Verona, a aposentada participou da tradição na Casa di Giulietta e fez um pedido diante da estátua da personagem da tragédia “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare, cujo lar virou ponto de peregrinação para amantes e apaixonados.

Pouco tempo depois, ela conheceu o italiano Perini Ferruccio, 75, e eles estão juntos há 12 anos.

Mudou-se para os arredores de Verona, aprendeu italiano na prática e hoje resolve sozinha, no novo idioma, idas à farmácia, ao mercado e ao médico.

“Uma chavinha virou na minha cabeça e mudou totalmente minha vida. Comecei a viver uma nova vida, mas não esqueço do Brasil. Eu adoro o Brasil.”

Saúde

Na prática clínica, isso aparece em detalhes concretos. Pacientes chegam ao consultório com relógios inteligentes monitorando sono e frequência cardíaca, perguntam sobre arritmias detectadas por aplicativos e pedem validação médica para planos de treino retirados de vídeos.

Mulheres de 70 anos em programas de musculação deixaram de ser exceção.

“Hoje o idoso quer fazer parte da decisão do tratamento dele, quer saber o porquê que ele tá tomando aquele remédio, para que serve aquele exame”, afirma Alexandre Romanos, geriatra assistente da USP (Universidade de São Paulo).

Para ele, o engajamento aumenta a adesão a tratamentos e a mudanças de estilo de vida.

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Polianna recorda uma paciente que, após a viuvez, aprendeu a usar redes sociais e aplicativos de viagem para começar a viajar sozinha.

Em consulta, a paciente teria dito que não queria sobreviver, mas queria continuar vivendo.

Outro relato citado pela médica foi o de um homem de 78 anos que procurou atendimento não por doença, mas para revisar sono, alimentação, memória e composição corporal e estabelecer metas para a década seguinte.

A mudança tem efeitos que extrapolam a saúde individual. Romanos aponta impacto econômico: a população que preserva funcionalidade e independência continua a consumir, viajar e, em alguns casos, trabalhar por escolha.

Mas Romanos também adverte para riscos: a pressão estética por uma juventude eterna convive de modo contraditório com o movimento.

“A intenção não é que a gente fique jovem para sempre. A intenção é deixar de ver o envelhecimento como um problema ou defeito”, diz.

Idadismo

“O idadismo ainda é uma realidade muito forte, mas eu acho que a gente tá quebrando essas barreiras.”

Há limites. Polianna lembra que o desejo por autonomia e participação atravessa classes sociais, mas os recursos para realiza-lo não são distribuídos igualmente.

No setor privado, pacientes chegam buscando otimização da saúde; no público, muitos aparecem tardiamente, com doenças crônicas que poderiam ter sido prevenidas.

A geriatra defende a incorporação de triagens de funcionalidade à atenção básica como forma de democratizar o envelhecimento ativo.

Oswaldo Vecchione segue subindo ao palco. Continua tatuando. Para celebrar 60 anos de sua banda, pretende raspar a cabeça para fazer novas tatuagens, e quer fechar as costas com seus ídolos do rock e com o dragão de São Jorge, para eternizar seu amor pelo Corinthians e pelo rock and roll.

*com informações de Tatiana Cavalcanti/folhapress

 

 

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