Fechar
O que você procura?
Blogs e Colunas
Jornalista, Pós-Graduada em Comunicação Educacional, Gerente de Negócios das marcas Natura e Avon.
Continua depois da publicidade
Existem histórias de amor que começam com um olhar arrebatador. Outras começam com um encontro cinematográfico. A nossa começou com uma frase pouco promissora:
— “Olha que homem lindo. Ele é filho do dono da Sertec, mas é muito chato.”
Eu trabalhava no Jornal da Paraíba e havia sido destacada para produzir o jornal interno da São Braz. Em uma tarde qualquer, enquanto conversava com minha amiga Jussara na recepção da indústria, ela baixou a voz e apontou discretamente para um homem alto, sério, de poucas palavras.
Olhei rapidamente.
Foi tão rápido que mal consegui formar uma opinião, mas opinei:
— “Não faz o meu tipo.”
Mal sabia eu que Deus, lá do alto, devia estar rindo.
Quase um mês depois, numa sexta-feira à noite, voltava de um encontro de estudos da pós-graduação. Eu e minhas amigas estávamos preparando um trabalho importante, e minha cabeça estava ocupada com livros, prazos e apresentações.
Meu irmão Beto estava no cinema assistindo ao último filme da noite no Cine Babilônia, e eu precisava esperar o horário de buscá-lo. Como não podia simplesmente estacionar meu surrado Fusca verde em qualquer lugar, parei no trailer de Jacó.
Sem fome, pedi um lanche apenas para justificar minha permanência. Foi quando um rapaz se aproximou e pediu para ser apresentado. Jacó, o dono do trailer fez as honras e desapareceu.
O rapaz ficou. E ficou. E continuou ficando.
Perguntou se eu iria para a boate da moda, a Maria Fumaça.
Olhei para mim mesma: jeans desbotado, camiseta branca, chinelo de dedo, cabelo preso num rabo de cavalo improvisado.
— Não tenho tempo para boates. Respondi.
Ele insistiu. Disse que me levaria em casa para trocar de roupa.
Eu já estava procurando uma rota de fuga quando começou uma garoa fina.
Então perguntei:
— Está chovendo. Onde está seu carro?
Sem responder, ele simplesmente passou pela frente e abriu a porta do meu Fusca e entrou. Invadiu o espaço inteiro. Eu me senti espremida dentro do meu próprio carro.
Foi então que ele perguntou:
— Você trabalha na São Braz?
Olhei para o banco de traz sem entender.
Ele sorriu.
— Eu vi você lá. Sou da Sertec. Sou Alvaro.
E a ficha caiu. Era o cara “chato”.
Enquanto isso, os amigos insistiam para que eles fossem embora para a boate. Ele dispensou todos. Preferiu ficar. Eu continuei recusando. Precisava buscar meu irmão. Tinha aula cedo no dia seguinte e não estava interessada.
Antes de ir embora, ele me entregou um cartão e pediu meu telefone, que informei tão baixo que até hoje suspeito que tenha sido um mecanismo inconsciente de defesa. Mas ele ouviu.
Felizmente para mim. Felizmente para nós.
Uma semana depois, o telefone tocou. Demorei alguns segundos para reconhecer a voz. A primeira frase foi memorável:
— Você não me ligou?
Era uma pergunta tão obviamente retórica que precisei segurar o riso.
Não liguei. Continuei sem ligar, ele continuou ligando.
Isso aconteceu em maio.
Eu permanecia fiel aos meus planos de pós-graduação, de ser independente, de morar sozinha, de não casar, de ser uma jornalista conhecida nacionalmente, de conhecer o mundo.
Ele permanecia fiel à sua persistência.
Três meses depois, em agosto, surgiu um novo convite.
— Vamos ao cinema? Está passando um filme extraordinário. Um épico. Está lotando as sessões.
Meu irmão caçula, Junior, havia chegado de Teixeira e estava louco para ir ao cinema. Pela primeira vez aceitei. Mas levei companhia.
Quando cheguei dirigindo meu Fusca verde, vi sua expressão de decepção ao perceber que eu estava acompanhada por um garoto de doze anos. Foi impossível disfarçar. Comprou mais um ingresso.
Entramos.
As únicas três cadeiras disponíveis ficavam na primeira fila. Sentamos. As luzes apagaram. O filme começou.
Poucos minutos depois apareceu um enorme salão cheio de pessoas seminuas, cenas extravagantes, excessos romanos e um cavalo particularmente entusiasmado.
Lembro perfeitamente da sensação. Respirei fundo. Virei lentamente o pescoço em sua direção. Se olhares matassem, ele não teria sobrevivido àquela sessão.
Segurei a mão do meu irmão e tentei sair imediatamente.
Mas Junior resistia.
— O filme está ótimo! Por que a gente vai embora? Esse filme é muito bom. Pera ai…Vamos ficar….
As risadas ecoavam na sala escura. Consegui finalmente arrastá-lo para fora.
Ao sair, olhei para o cartaz. O tal “épico” chamava-se CALÍGULA.
Foi nesse dia que ele descobriu onde eu morava. E aquele endereço passou a fazer parte do seu roteiro diário.
Minha irmã se encantou com ele. Alto, bonito, educado, gentil.
As crianças adoravam explorar seu carro, cheio de acessórios modernos que eram novidade na época.
Uma das pequenas – Andreza com menos de 1 ano – chegou a fazer xixi em sua calça. Nem isso o desanimou.
Ele continuou voltando, todos os dias. Até que deixou de ser visita.
Virou presença.
E presença, quando é constante, acaba encontrando espaço no coração.
Algum tempo depois, saímos com sua irmã e o namorado dela, para um barzinho perto da Catedral e naquela noite aconteceu algo diferente. Percebi que queria saber como seria tocar seus lábios. Era um pensamento que me acompanhava havia algum tempo.
Mas eu tinha medo. Medo de ser apenas mais uma diversão, já que meu mantra era “Não sou parque de diversões.”
E na despedida, tomei coragem e rocei de leve o canto da boca na dele e gostei.
Dias depois, mais segura dos meus sentimentos e dos dele, finalmente disse o esperado sim, e a reação foi imediata, fui literalmente rodada no ar, senti o chão desaparecer sob meus pés. E talvez tenha desaparecido mesmo. Três meses depois, recebi uma aliança de compromisso, logo veio o pedido de casamento.
Ele queria casar quando completássemos um ano de namoro. Eu argumentava que dois anos seria mais prudente, eu tinha planos, projetos e ainda, uma saudável desconfiança.
Mas o amor tem seus próprios calendários.
E, no dia 21 de setembro de 1996, nos casamos na Igreja do Carmo, em uma cerimônia simples, mais muito linda, cercados de familiares e amigos.
Desde então, construímos uma vida.
Vieram nossos maiores presentes: Álvaro Neto e Arthur, dois homens na expressão da palavra, que levam em si o melhor de nós dois.
Vieram viagens, desafios, conquistas, perdas, recomeços, aventuras e sonhos compartilhados.
Vieram os dias fáceis e os dias difíceis. E nós nos apoiando e crescendo juntos.
Porque amor de verdade não é feito apenas de fotografias bonitas. É feito principalmente da decisão diária de permanecer.
Este ano completamos quarenta e dois anos desde aquele primeiro encontro improvável e 40 anos de matrimônio.
Quarenta e dois anos desde que eu disse:
— Não faz o meu tipo.
A vida adora ironias.
Às vezes, o amor não chega vestido dos nossos sonhos.
Chega vestido de insistência e sou imensamente grata pela sua resiliência e espera.
Chega em um Fusca apertado, que eu nem sabia, mas abrigava amor.
Chega por meio de telefonemas inconvenientes, que depois são desejados.
Chega acompanhado de um filme desastroso, para começar uma história de vida.
Chega devagar e mansinho, para fazer morada.
Chega com decisão de assumir compromisso definitivo na companhia do amor.
E a gente vai aprendendo que relacionamento é sobre isso: sobre torcida pelo sucesso do outro, sobre cuidar, sobre renovação diária.
E, quando percebemos, ela torna-se a pessoa com quem queremos viver todas as cenas seguintes.
Inclusive as dos próximos capítulos, porque netos ainda não chegaram.
Mas a história continua e, graças a Deus, continua sendo escrita a quatro mãos.
Neste Dia dos Namorados, desejo que você, querido leitor, não procure apenas alguém para amar. Desejo que encontre alguém com quem valha a pena construir uma história. Alguém que você sinta prazer de conversa e compartilhar risadas. Porque flores murcham, presentes envelhecem, fotografias amarelam. Mas uma vida compartilhada com amor, cumplicidade e propósito se transforma na mais preciosa das heranças.
Veja a coluna anterior:
Atenção: Os artigos publicados no ParaibaOnline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo ao exercício da pluralidade de opiniões.
Continua depois da publicidade
© 2003 - 2026 - ParaibaOnline - Rainha Publicidade e Propaganda Ltda - Todos os direitos reservados.