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Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
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Alguns autores recorrem à natureza para dela colher elementos capazes de traduzir verdades associadas ao comportamento humano. É o que se observa na fábula “O Jequitibá e a taboa”, atribuída a Monteiro Lobato e também presente em um dos livros da coleção didática “Brasil, minha pátria! ”, de autoria de Theobaldo Miranda Santos, publicado pela editora Agir, em 1964.
Na narrativa, assumindo características humanas, as duas plantas apresentam atitudes opostas. O jequitibá é arrogante, alto, rígido, vaidoso e confia na imponência de seu porte; a taboa, por sua vez, é simples, aparentemente frágil e flexível. Ambas as plantas vivem à margem de uma lagoa.
Um dia, durante uma grande tempestade, o imponente jequitibá tomba, deixando à mostra suas raízes, enquanto a taboa se curva, aguarda o fim da tempestade e se ergue novamente.
Li essa fábula quando tinha por volta de dez anos de idade e a lição ainda ecoa na minha mente, levando-me a associá-la diretamente ao ensinamento de Jesus Cristo, conforme os Evangelhos de Lucas (14:11) e Mateus (23:12): “aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado”, e à advertência do Livro Provérbios (16:18): “a soberba precede a ruína; e o orgulho, à queda”, indicando que a arrogância torna o indivíduo vulnerável.
Mas a taboa não pertence apenas ao universo da fábula como recurso didático portador de uma mensagem moral. Ela também habita o imaginário da cultura nordestina, a exemplo da misteriosa valsa “Amanhã eu vou”, composta por Baduíno e Luiz Gonzaga, gravada pelo “Rei do Baião”, em 28 de fevereiro de 1951, de cuja letra destaco os seguintes versos:
“…A carimbamba, ave da noite,
Cantava triste lá na taboa:
Amanhã eu vou, amanhã eu vou.”
Nessa valsa, há um cenário de encantamento, do qual fazem parte um lago mal-assombrado, a carimbamba (bacurau), a figura mítica do Caboclo d’Água, a taboa, e Rosabela, a linda donzela, que, atraída pelo canto da carimbamba, dirigiu-se à lagoa, onde laçada pela taboa, foi conduzida ao interior pelo Caboclo d’Água e nunca mais voltou.
Nesse contexto, o simbolismo se amplia. A taboa deixa de representar apenas uma metáfora da humildade para se tornar um elemento que se situa na fronteira entre terra e água, entre o real e o irreal, entre o visível e o invisível.
Se na fábula, a taboa se curva para resistir aos ventos da tempestade, na canção ela participa ativamente de um espaço de sedução e mistério, no qual se destacam crenças populares e figuras mitológicas.
Essa convergência entre fábula, citações evangélicas e cultura popular nordestina, convida-nos a reconhecer que nem sempre a inflexibilidade é a melhor resposta às adversidades e que a verdadeira sabedoria consiste em ter fé, paciência e saber resistir, inclusive às tentações simbolizadas pelo canto da carimbamba.
Assim, entre o jequitibá que cai e a taboa que resiste, delineia-se uma ética discreta, mas profunda: a da humildade como forma de permanência e, não raro, como porta de acesso ao que há de mais elevado e duradouro na experiência humana.
Leia a coluna anterior:
A presença das frutas na música popular brasileira e em repertórios internacionais
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