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Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
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Todas as formas de conversão energética, destinadas aos mais diferentes usos, impactam o meio ambiente. Portanto, quando analisada sob uma perspectiva sistêmica, a expressão “energia limpa”, apresentada como sinônimo de solução definitiva para a mitigação dos impactos ambientais, não passa de um equívoco simplista — quando não de um mito.
O “mito ambientalista da energia limpa” reside justamente na ideia de que determinadas fontes energéticas seriam totalmente isentas de impactos, quando, na prática, sabemos que isso não é verdade. Afinal, toda forma de conversão energética envolve custos ambientais ao longo de seu ciclo de vida: “do berço ao túmulo”.
Tomemos alguns exemplos: fontes frequentemente classificadas como limpas — como a solar fotovoltaica, a eólica e a hidrelétrica — apresentam vantagens relevantes em termos de redução de emissões de gases de efeito estufa durante a operação. No entanto, sua implantação exige a mineração de matérias-primas, o uso intensivo do território, a alteração de ecossistemas e a produção de resíduos.
No caso específico da fabricação dos painéis fotovoltaicos, são utilizadas matérias-primas extraídas da natureza e submetidas a processos industriais complexos, necessários para atingir os níveis de pureza e resistência às intempéries.
Ademais, ao fim da vida útil ou em decorrência da substituição por obsolescência tecnológica, esses equipamentos ainda apresentam desafios adicionais quanto ao descarte e à reciclagem adequados dos materiais: células fotovoltaicas, vidro especial, filme encapsulante de EVA, plástico branco, silicone e alumínio anodizado.
Além da necessidade de manutenção, o que muitos usuários desconhecem é que os painéis fotovoltaicos perdem eficiência com o tempo. Os principais indicadores incluem a degradação no primeiro ano, o coeficiente de temperatura e a retenção de energia a longo prazo.
Assim, os rótulos “energia limpa” ou “energia verde” tendem a simplificar uma equação que é, na verdade, multidimensional, por envolver componentes técnicos, econômicos, ambientais, sociais e geopolíticos.
Essa simplificação não ocorre por acaso. No plano microeconômico, empresas e investidores respondem a incentivos concretos — subsídios, financiamentos favorecidos e mercados de carbono — que tornam determinados empreendimentos particularmente atrativos.
Nesse ambiente, o discurso da sustentabilidade pode ser incorporado como estratégia de marketing e de valorização econômica, agregando competitividade e ampliando mercados. Assim, os citados mitos, para além dos aspectos técnicos, ambientais, sociais e geopolíticos, também representam um ativo simbólico relevante.
No plano macroeconômico, a questão energética insere-se em disputas mais amplas, envolvendo políticas industriais, segurança energética e reposicionamento geopolítico, nas quais diferentes países buscam liderar cadeias produtivas emergentes, controlar tecnologias estratégicas e reduzir dependências externas.
Nesse contexto, a promoção de determinadas fontes como “limpas” pode refletir, simultaneamente, preocupações ambientais legítimas e interesses econômicos estruturantes.
Isso não significa desqualificar os avanços tecnológicos nem negar a importância das energias renováveis na composição das matrizes energéticas. Significa, antes, reconhecer que a expressão “energia limpa” pode se converter um mito quando utilizada de forma acrítica, desvinculada dos interesses e das consequências que a sustentam.
Nesse contexto, o desafio contemporâneo consiste em equilibrar o uso de diferentes fontes energéticas, alinhar incentivos econômicos com objetivos ambientais e promover transparência nas decisões políticas.
Portanto, em vez de buscar um rótulo absoluto e independente da evolução tecnológica, a sustentabilidade energética deve ser entendida como um processo contínuo de avaliação, no qual impactos, custos e benefícios — inclusive os de natureza econômica — sejam explicitados com rigor técnico e fundamentados em bases científicas sólidas.
Para que isso ocorra, o papel do jornalismo científico, de professores e de pesquisadores é decisivo, pois, quando orientados pela ética e pelo compromisso com a verdade, esses profissionais podem contribuir para a redução de assimetrias de informação, explicitar interesses e fomentar uma consciência crítica na sociedade.
No fim das contas, não existem fontes de energia “limpas” ou “sujas” em termos absolutos. O que existem, de fato, são escolhas mais ou menos conscientes sobre o uso parcimonioso da energia e os impactos ambientais que estamos dispostos a assumir em nome do conforto que ela nos proporciona. O restante é apenas retórica — e, não raro, conveniência.
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