Um distante olhar sobre o Planalto
Conjunção perniciosa
Quando a sensação de soberba se alia à teimosia e ao mau assessoramento, o resultado é nefasto – e, por vezes, histórico.
É o que se sucedeu na última semana, quando o presidente Lula viu quantificado no painel do Senado o resultado devastador da reprovação à indicação que havia feito para a vaga que segue aberta no ´plenário do Supremo Tribunal Federal.
De bom tamanho
Registre-se que na gestão atual do petista – o chamado ´Lula 3´ – o presidente já emplacou no Supremo dois integrantes de sua inequívoca proximidade: o seu ex-advogado, Cristiano Zanin, e o ex-ministro da Justiça, Flávio Dino.
Evidências
Desde que ensaiou (antes mesmo de formalizar a indicação) propor o nome do titular da Advocacia Geral da União, Jorge Messias, que Lula sentiu a resistência no Senado à cogitação, por razões múltiplas, mas incontestavelmente expressiva em termos de votos antecipadamente declarados. De forma contrária.
´Um de nós´
Em primeiro plano, floresceu no Senado, por estímulo de seu atual presidente, Davi Alcolumbre (União/Amapá), o sentimento de vestir com uma toga um de seus integrantes – o ex-presidente do Senado, o mineiro Rodrigo Pacheco.
Basta
Noutra perspectiva, bolsonaristas e ´centristas´ entoaram o discurso de que era preciso dar um basta na ´bancada lulista´ na principal Corte do país.
´Banho-maria´
Diante desse ambiente retoricamente adverso, Lula retardou por muitos meses a consumação do processo de indicação, o que já foi um indicativo da resistência parlamentar ao nome de sua preferência.
Miopia
No momento que o presidente e seu entorno, afinal, decidiram colocar o nome de Jorge Messias ao crivo do plenário do Senado, outras variáveis se movimentaram desfavoravelmente às pretensões de Lula, sem que ele tenha intuído essas agravantes e/ou tenha sido equivocadamente informado sobre os ´humores´ senatoriais.
´Tudo junto e misturado´
O fato é que se somaram à ´fadiga´ de candidatos próximos a Lula e ao desapontamento com a preterição de um ´colega senador´ fatos supervenientes, a exemplo do rastro de revelações inerentes ao escândalo bilionário do liquidado Banco Master, um cipoal de falcatruas que – ao que se informa – está ainda na fase inicial de conhecimento por parte da opinião pública.
Agregados
No ´conglomerado´ de interesses pouco republicanos e de apropriações milionárias em troca de concessões escusas, foram incorporados mais senadores ao grupo inicial deles que fazia restrições conceituais à indicação de Jorge Messias.
´Ilhado´
O caso de Davi Alcolumbre é exemplar: além da insatisfação por não ter conseguido emplacar no Supremo seu aliado Rodrigo Pacheco, as revelações do ´caso Master´ já orbitam negativamente a sua biografia e o seu futuro político.
Fissuras caseiras
Acontece que dentro da própria base governista há pontos convergentes com Alcolumbre – o agora considerado algoz de Lula.
É o caso do senador Jaques Wagner, o petista baiano que lidera a bancada governista, mas que figura nas ´engrenagens´ iniciais do banqueiro Daniel Vorcaro.
Salseiro
O ´caldeirão´ no qual foi jogada para ferver (e fenecer) a indicação de Messias também continha – além do indomável desejo de estancar o caso Master – o interesse direto dos bolsonaristas: a derrubada dos vetos de Lula ao projeto que flexibiliza as penas dos protagonistas dos atos golpistas de janeiro de 2023.
´Perda total´
Foi outra derrota amargada por Lula na mesma semana.
Por sinal, uma semana que para ele deve ser esquecida, mas só depois de refletidos e assimilados os erros em série que foram cometidos.
Desproporção
Cabe aqui abrir dois parênteses no tocante a esse projeto de redução das penas.
De um lado, salta à vista que as penas aplicadas pelo Supremo Tribunal Federal aos populares que tomaram parte no ´8 de janeiro´ (a grande maioria muito mais por estímulo externo do que por ação pensada e deliberada) foram exageradas.
´Remendo feito à mão´
De outra parte, a supressão de trechos dos vetos derrubados, conectados com a chamada ´Lei Antifacção´ (Lei 14.836/2024), foi uma ´invenção jurídica´ da presidência do Senado passível de contestação judicial.
´Turbinada´
Mas volto ao tema central. Lula deveria ter aferido de forma mais precisa a pulsação do plenário do Senado e evitado que um revés, ao pé da letra sem muita repercussão popular, fosse convertido – competentemente pela oposição, diga-se de passagem – numa imensa derrota política em cenário já eleitoral.
´Surfou na onda´
Não sem razão, pragmaticamente, o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) detectou essa desordem entre o presidente, aliados e o plenário do Senado e atuou ostensiva e abertamente para impor a Lula a rejeição ao seu indicado, sendo efusivamente festejado ao cabo da proclamação do resultado adverso para o petista.
Empilhando
Enfim, a derrota sofrida por Lula no Senado na última semana foi mais uma movimentação equivocada, adicionada a tantas outras, notadamente na área da macrogestão, especialmente algumas recaídas no populismo econômico.
Ousar é preciso
Em sentido estrito, o que poderia Lula fazer no tocante à vaga que segue aberta no Supremo?
Tentar fazer do limão, uma limonada.
Setores importantes e com vozes que se propagam pelo país defendem uma mulher no STF.
Restaria ao presidente escolher uma jurista ilibada, apartidária e enviar o seu nome ao Senado, pagando pra ver se Alcolumbre, centristas e bolsonaristas arriscariam impor uma nova derrota ao presidente, em colisão com a opinião pública.
Cúpula nacional do Republicanos está cobrando reciprocidade ao PL…