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Jornalista, professor universitário, escritor e membro da Academia de Letras de Campina Grande.
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O poeta português Fernando Pessoa disse que “todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”. Porque o amor é assim, exagerado, ingênuo, transborda da gente sem que possamos compreendê-lo, domá-lo ou explicá-lo. Eu gosto das cartas, sejam elas de amor ou não. No fundo, eu acredito que quase todas as cartas são de amor. No entanto, também reconheço que as cartas dizem muito sobre um período histórico, um momento vivido, algo para além das nossas sensações e emoções. Procura-se alguém, em pleno século XXI, que tenha a coragem e a paciência de se corresponder por cartas, à moda antiga.
Não, eu não quero trocar e-mails, mandar mensagem nas redes sociais, áudio, vídeo…. nada disso. Quero enviar e receber cartas feitas à mão, depositadas num envelope de papel e postadas nas Agências dos Correios. Pode ser com aquele selo simples. Nada de carta registrada. Quero correr o risco de sentir a angústia de uma carta extraviada. Desejo imaginar o percurso que ela faz até chegar a mim. Pretendo experimentar novamente a aflição da espera, a ansiedade dos dias e semanas sem notícias e finamente ser recompensado com a chegada inesperada de um carteiro de boné azul na cabeça, camisa amarela e uma bolsa cheia de correspondências. O cachorro, grande amigo do homem e inimigo dos carteiros, é quem vai me notificar da chegada do entregador. Quero abrir o envelope, ler e reler o conteúdo da carta e saciar o meu desejo de reviver o passado.
Talvez proponha isso, porque quando eu era adolescente, também escrevi muitas cartas (de amor ou não) a pedido de moradores da comunidade do Queixada que precisavam se comunicar com os parentes que moravam em São Paulo, por exemplo. Muitas dessas pessoas não sabiam escrever, ou escreviam mal e tão pouco dominavam a leitura. Por isso, eu acabava lendo e escrevendo essas cartas que iam e voltavam entre os remetentes e os destinatários.
Depois de adulto passei a me interessar cada vez mais pelas histórias e memórias e surgiu em mim um desejo quase que natural de realizar um trabalho sobre essa cultura de se corresponder através das cartas escritas à mão com aquelas letras cuidadosamente desenhadas. Tenho curiosidade em saber um pouco como que eles (remetente e destinatário) entendiam aquele momento, sobre o que eles conversavam, quais eram os assuntos, os segredos, as confissões que eram discutidos ali nas linhas escritas sobre aquelas folhas brancas.
Porque hoje a gente tem um modo de comunicação muito imediato, muito instantâneo e as vezes com pouco significado. A gente apaga, esquece, deixa pra lá o que foi verbalizado há pouco. Essas facilidades que as tecnologias digitais trouxeram, da gente se comunicar muito pelos áudios e pouco pela escrita. Mas as cartas eram um tipo comunicação muito tradicional, simples, demorado… De Várzea Alegre a São Paulo, uma carta demorava entre quinze, vinte dias para chegar e pra voltar era o mesmo tempo. Ou seja, quando muito, só se correspondia, em média, uma vez por mês.
Então, diante dessa dificuldade em se ter informações, aquele documento manuscrito transformava-se numa relíquia. Era lido, relido, cheirado, decorado e quando todo mundo já sabia o que tinha escrito ali, a carta era finalmente e cuidadosamente guardada no fundo de uma mala. Por um motivo simples: não se sabia quando teriam notícias daquela pessoa novamente.
Essa semana eu fiquei bastante surpreso quando o meu primo Herik, que mora em São Paulo, mandou uma foto de uma velha carta já amarelada pelo tempo, que a mãe dele recebeu da minha avó, dona Nenê, e guardou como era costume antigamente. A carta em questão está datada do dia 6 de junho de 1992. Ou seja, o documento tem quase 35 anos. Naquela época, a mãe desse meu primo, a minha tia Leni, tinha acabado de sair do Ceará rumo a São Paulo com o esposo e o filho.
A minha vó começa a carta abençoando a filha. Deseja que a carta a encontre com saúde e felicidade; diz que só Deus sabe o tanto de saudade que ela tá sentindo, que às vezes ela sente que a filha tá chamando por eles; diz ainda que recebeu a carta que fora enviada, que ficou super feliz; que o filho dela que estava doente ficou bem de saúde; que meu avô está na mesma luta de sempre; disse que também seguia trabalhando e que estava cavando um cacimbão pra ver se a água ficava mais perto de casa. No final da carta minha avó manda um abraço de coração para a filha e para o esposo dela e um beijo para o filho dela, no caso o Herik que acabou me enviando o documento 34 anos depois. Detalhe, na época que essa carta foi escrita ele era uma criança de apenas um ano de idade.
Eu fiquei muito feliz em receber essa carta porque eu já tinha pedido a minha avó, anos antes de ela falecer, pra ver as cartas que ela tinha recebido das meninas que moravam em São Paulo, mas na época, minha avó me disse que as correspondências tinham sido jogadas fora. Que as cartas não estavam mais ali. Pra minha surpresa a minha tia, filha dela, tinha essa carta e, sabendo desse meu interesse, o filho dela me enviou uma foto desse documento. Herik ainda adiantou que havia mais outras duas ou três cartas lá e que depois disponibilizava para mim. Um detalhe, segundo ele, apenas essa carta estava com a letra da minha avó. As outras tinham sido escritas por mim. Sim, “eu também escrevi, no meu tempo, cartas de amor, como as outras…”
Ah, velho Pessoa! Como são maravilhosamente, ri-dí-cu-las, as cartas de amor.
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