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Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
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Depois de certa idade, percebi que meus colegas e familiares — uns mais, outros menos — começaram a contar histórias de forma repetida. Não apenas eles: eu também. O curioso é que, a cada repetição, a história surge de maneira ligeiramente diferente, com acréscimos ou supressões de detalhes. É a luta da memória contra o esquecimento.
Em 1970, o cantor e compositor Taiguara lançou um disco que inclui a canção, “O velho e o novo”, na qual se destacam os versos:
“Deixa o velho em paz
Com as suas histórias de um tempo bom
Quanto bem lhe faz
Murmurar memórias num mesmo tom”.
Revolver memórias e compartilhá-las com colegas e familiares talvez seja uma forma inconsciente de lutar contra o esquecimento, pois os lapsos de memória decorrentes do avançar da idade são corriqueiros.
Uns percebem essas mudanças, outros não. Ainda assim, tais lapsos ocorrem com frequência no ambiente familiar e no convívio social. Por exemplo, é comum um pai ou uma mãe confundir os nomes dos filhos quando reconta casos ocorridos com eles há décadas ou até mesmo há pouco tempo.
Entre os casais idosos, existe um pacto que não precisa verbalização: fazer de conta que se está ouvindo a história repetida como se fosse a primeira vez. Os filhos, por sua parte, também precisam ter paciência e partilhar desse pacto, por amor e respeito.
Fora do ambiente familiar, entre colegas e amigos, para não haja indelicadeza, a cumplicidade também se estabelece, mesmo porque as falhas são mútuas, e ninguém está imune a elas. É o que tenho observado durante as conversas entre colegas das caminhadas matinais e da confraria cultural de que faço parte.
Nessas ocasiões, ao recontar um episódio, o idoso não apenas revive o fato, mas reafirma a própria trajetória, como quem revisita marcos que sustentam sua identidade, ao afirmar, parafraseando Pablo Neruda:
“ — Confesso que vivi”.
Talvez por isso a repetição de fatos pretéritos não deva ser vista apenas como sinal de senilidade, mas como um exercício de permanência, algo como um grito interior que parece repetir: “— Eu estou aqui!”.
Essa repetição, mesmo quando a memória falha nos detalhes, carrega uma profunda dimensão afetiva, pois preserva o essencial: a emoção e a lembrança de um tempo que, sendo passado, ainda se faz presente.
Nesse contexto, ao “murmurar memórias num mesmo tom”, o velho se coloca diante do jovem como se fosse um espelho a lhe lembrar: “— Hoje sou eu; amanhã será você”.
Portanto, cabe aos mais jovens compreender essa realidade e exercitar o ato de ouvir, com paciência e atenção, uma história já conhecida, reconhecendo o valor de quem a conta. Essa é a sabedoria de admitir que o tempo, embora transforme o corpo e enfraqueça a memória recente, é também responsável pela formação do acervo das experiências acumuladas.
Assim, entre quem fala e quem ouve histórias repetidas, preserva-se a cumplicidade e o afeto, algo que, em verdade, é mais importante do que o relato exato dos acontecimentos em todos os seus pormenores.
Atenção: Os artigos publicados no ParaibaOnline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo ao exercício da pluralidade de opiniões.
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