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Edjamir Sousa Silva

Edjamir Sousa Silva

Padre e psicólogo.

Um novo espírito e um novo coração

Por Edjamir Sousa Silva
Publicado em 8 de março de 2026 às 16:00

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Que maravilha ouvirmos os textos propostos para este 3º Domingo da Quaresma. Apesar dos muitos “ruídos” que incomodam o silêncio quaresmal e faz doer o coração (as guerras, as injustiças, a violência crescente contra mulheres e crianças), Deus continua nos falando, pois quer saciar a sede de vida.

Talvez a nossa oração não modifique o mundo ao nosso redor, mas ajuda a discernir como vamos enfrentar a realidade (dentro e fora de nós). Mas, o que fazer com o “barulho do mundo” e o que fazer com aqueles “ruídos dentro de nós”? Vamos meditar a Palavra de Deus…

Na 1ª Leitura (Ex 17, 3-7) encontramos o povo de Deus, caminhando para a terra prometida. Era inicio da sua jornada e havia muita imaturidade. Há um frequentemente desejo de retornar à terra da escravidão.

As dificuldades do caminho desorganizaram o povo e incomodaram ao ponto de se revoltarem contra Deus e Moisés (v. 3).

Nesse contexto são citados dois povoados: Massa e Meriba. Massa representa provação e Meriba simboliza discórdia. Confusão e falta de fé estão em cena neste texto e representam a nossa jornada humana.

Massa e Meriba são experiências de perder a calma e a tentativa de buscar fora a solução do que precisamos (está dentro). Perdemos a calma com os outros a partir da bagunça que está dentro de nós.

Moisés e Deus são as figuras símbolos do que projetamos das nossas insatisfações. Pois, dentro de nós, há um deserto, lugar mais primitivo de nossos conflitos recalcados e angústias, que estão sempre procurando uma forma de se manifestar.

A murmuração é a resistência à mudança ao novo e pode se tornar um comportamento destrutivo. O povo viu ser libertado, mas ficou preso no saudosismo. Estando no caminho da liberdade, não conseguem avançar. Eles têm medo de serem livres.

O Senhor está ou não no meio de nós?” (17,7). O povo parece não mais perceber que Deus caminha com ele e a ingratidão gera muita murmuração, queixa e confusão. O povo começa a acusar Deus de ter enganado e arrastam também Moisés para dentro de críticas quase sem saída.

A comunidade caiu na descrença e, consequentemente, nos “ruídos” das queixas. E como Deus reage? Deus atua com muita paciência, respondendo com gestos concretos e os oferece a Àgua Viva.

Da “rocha ferida” ao um povo saciado. O apóstolo Paulo, séculos depois, irá sugerir que Cristo – o Filho de Deus que veio ao mundo ao encontro dos homens – para dar-lhe àgua viva. Jesus é a verdadeira rocha (ferida) que mata a sede de vida (cf. 1Cor 10, 4/ Jo 19, 31-37).

O Salmo 94(95) é um apelo para que se confie em Deus e não se feche o coração como o povo em Massa e Meriba.

Na 2ª leitura (Rm 5, 1-2.5-8) Paulo faz uma releitura significativa: a rocha é Cristo. Do Cristo morto e ressuscitado brota o Espírito como rio de água viva. “O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito que nos foi dado” (Rm 5, 5).

O trecho do Evangelho (Jo 4, 5-42) que fala da Samaritana e a fina psicologia de Jesus, no diálogo com esta mulher, é encantador. Não é só a Samaritana que está com sede, mas também o Filho de Deus, “cansado da caminhada e se senta no poço” (v. 6). Mais uma vez encontramos Jesus diante de suas necessidades.

Em torno de um poço, um diálogo. A psicanálise ensina que quando começamos a falar de nossos “ruídos”, quando os nomeamos, eles começam a se diluir aos poucos. É verdade que muitos de nós temos dificuldades de falar de nós mesmos e o medo de ser julgados. Há muita gente pronta para julgar e condenar. Como Jesus tratava isso?

No evangelho, a Samaritana falou de si e Jesus olhou para ela não com os olhos do mundo (acusativo). Jesus nunca olha para as pessoas com olhar de seus acusadores, mas com o olhar amoroso do Pai. Portanto, olhe para “seus ruídos” e para os “ruídos do mundo” como Jesus olhava.

Ele veio morar entre nós” (Jo 1, 14). É fantástico ouvir que o Filho de Deus sentiu as mesmas coisas que sentimos. Ele experimenta a condição humana para dar-lhe o significado pleno que o pecado havia ofuscado.

Ele experimenta que, no caminho da vida, toda pessoa prova a sua realidade “faltante” e de “desejo”. E sabe que o ser humano é desafiado a aprender como lidar com isso e que, em meio ao medo de caminhar sozinho (medo do abandono), se pergunta: Deus está conosco? Até os santos dialogaram com Deus tentando entender o processo (cf. Lc 1, 34. Mt 1, 19-23. Mt 26.).

A Samaritana, diferente do povo da primeira leitura, se abre ao diálogo. Naquele poço, ela é acolhida com um amor que não lhe condena, mas foi convidada a tomar uma água que produz vida dentro de sí.

O texto diz que era “meio-dia” (Jo 4, 6) É o horário de um clima intenso, mas também do ponto alto do dia (da vida). Este foi o horário que “Jesus estava suspenso na cruz e as trevas dominaram o mundo até às 3h da tarde”. Esta é a hora do amor. É nessa hora que ambos têm sede (Jesus e Samaritana). Ele tem sede das bem aventuranças (cf. Mt 5, 6). Ela tem sede da Àgua Viva (do amor de Deus).

O “cântaro” é o símbolo de certa defesa (já é tradição buscar àgua nesse poço). Ela está apegada ao seu cântaro. Depois do diálogo com Jesus, ela deixa o cântaro. Ela abandona os antigos mecanismos de defesa para assumir uma nova posição na vida.

Os cinco maridos e já o sexto aponta para um padrão de repetição (compulsão e repetição). Ela está tentando preencher um vazio em pessoas que não lhe saciam. O objeto de desejo dela é sempre fugaz e todos eles deixam marcas de abuso.

Há uma estrutura de rejeição (Judeus e samaritanos), mas também uma necessidade de repetir…repetir…repetir padrões, tentando encontrar-se nestes outros. Ela está se marginalizando e terceirizando sua existência em pessoas que não lhe faz “pessoa”.

Diante disso, Jesus, o Amor, não julga, mas lhe abre o caminho da verdade e da vida. Ele atua como um espelho que a faz pensar nos amores que ela tanto buscou. Ela a fez entender a si mesma (cf. Jo 4, 29).

A Samaritana está, em pleno apogeu de sua vida, mas isolada nos amores que não lhe saciam. Jesus a faz deixar o cântaro e ir para cidade (uma nova interação social).

Ela sai de um lugar existencial de julgamentos (mulher de má reputação) para “aquela que testemunhou”. É uma nova identidade, refeita no amor. É ali que ela acolhe a àgua viva e a grande luz.

Nossa vida é marcada por desejos que se entrelaçam com a construção de nossa identidade: o que sou e o que quero? Como diz Jacques Lacan o “objeto do desejo” não satisfaz mais impulsiona a repetição.

E a repetição é o retorno ao redor desse vazio. Jesus dialoga como uma analista que faz perceber e confrontar essa repetição e frustação. E a faz liberta-se com um novo proposito.

O deserto ou o poço se tornam lugares de transformação. É lugar de transição “da escravidão” para “a libertação”. E essa travessia exige um pouco de angústia. Ali, descobrimos os recursos internos que estão muitas vezes enrijecidos (pedra). É ali que descobrimos que isso é uma travessia.

O Egito, Massa e Meriba (lugares de escravidão e confusão) simbolizam a ausência de referência segura. São lugares de falsa sensação de segurança (lugar de risco/ angustia/pulsão de morte) que se instalam dentro de nós como mecanismos de defesa.

É fundamental quebrar a rocha para satisfazer as necessidades. Simbolicamente, Cristo é a rocha ferida que sacia a sede. Com Ele aprendemos que qualquer causa da nossa existência só faz sentido quando a vida se torna um dom para os outros (doação) e nunca alienada no outro.

Feliz dia Internacional da Mulher! Menos violência e mais respeito! Boa semana para todos!

 

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