Saúde e Bem-estar

Especial de domingo: hipertensão, doença silenciosa com rastreio é falho no Brasil

Da Redação*
Publicado em 15 de março de 2026 às 13:08

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Foto: Rafaela Araújo/Folhapress

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A história da cabeleireira Silvia Martins, de 48 anos, ilustra a importância do acompanhamento contínuo no Sistema Único de Saúde (SUS).

Diagnosticada com hipertensão aos 17 anos – quadro desencadeado por uma eclampsia na primeira gestação -, Silvia contou com o suporte da atenção primária por mais de duas décadas.

O diagnóstico de hipertensão refratária – quando a pressão não é controlada nem mesmo com múltiplos medicamentos -, ela toma 28 comprimidos por dia e ainda enfrenta dores, cansaço e crises frequentes.

Deixou de trabalhar por causa das limitações. “Se eu forço, começo a suar frio, fico pálida e sinto dor no peito.”

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A hipertensão é a doença crônica não transmissível mais prevalente no Brasil e o principal fator de risco para infarto e AVC (acidente vascular cerebral), segundo diretrizes nacionais e dados do Ministério da Saúde.

Especialistas ouvidos pela Folha de São Paulo/ParaibaOnline afirmam que os principais gargalos no enfrentamento da doença são as falhas no rastreamento e no diagnóstico precoce e a baixa adesão ao tratamento.

O Ministério da Saúde afirma que os atendimentos ambulatoriais relacionados à hipertensão no SUS quase triplicaram entre 2022 e 2025, passando de 916,7 mil para 2,6 milhões.

A pasta estima que cerca de 30% da população brasileira tenha a doença.

Quando não controlada, a hipertensão pode aumentar os riscos de infarto, insuficiência cardíaca, AVC e comprometimento dos rins, que, em casos graves, pode levar à necessidade de diálise.

Além disso, afeta os vasos sanguíneos, acelera a aterosclerose (acúmulo de gordura nas artérias) e eleva o risco de aneurismas.

O diretor da Unidade de Hipertensão Arterial do Incor do Hospital das Clínicas da FMUSP (Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), Luiz Bortolotto, estima que 90% dos pacientes não apresentam sintomas e podem conviver com a doença por anos sem diagnóstico ou acompanhamento médico.

Para o especialista, é fundamental que a pressão seja aferida de forma rotineira em qualquer consulta na atenção básica, independentemente da queixa do paciente.

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A SBC (Sociedade Brasileira de Cardiologia) faz a mesma recomendação ao ressaltar a necessidade de busca ativa de pacientes.

Para João Vicente da Silveira, cardiologista da Sociedade Brasileira de Hipertensão, como a maioria dos pacientes não apresenta sintomas, a doença é conhecida como “assassino silencioso“.

“O grande problema é que as pessoas não sentem nada. Não procuram o médico e não aferem a pressão. Ficam anos com a pressão elevada sem saber”, diz.

Para Bortolotto, outro problema para o controle da hipertensão na atenção básica é a chamada inércia terapêutica, quando a medicação disponível não é utilizada ou combinada da forma mais adequada pelos médicos.

A Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial de 2025, da SBC, aponta que cerca de 75% dos pacientes hipertensos no Brasil são tratados no SUS, que oferece as principais classes de anti-hipertensivos.

“Dá para tratar a grande maioria dos pacientes com o que há disponível na rede pública. Mas é preciso combinar corretamente”, diz Bortolotto.

De acordo com o especialista, a maior parte dos hipertensos pode ser acompanhada em uma UBS (Unidade Básica de Saúde), porta de entrada no SUS.

Ele estima que apenas de 10% a 15% necessitem de atendimento em serviços de maior complexidade.

Uma limitação importante citada pelos especialistas é que os programas de distribuição do Ministério da Saúde não dispõem de combinações em um único comprimido para tratar a hipertensão.

A necessidade de tomar vários medicamentos por dia atrapalha a adesão, levando parte dos pacientes a abandonar o tratamento ou a segui-lo de forma inadequada, aponta Silveira.

A diretriz brasileira aponta que cerca de 50% dos pacientes com doenças crônicas no país não tomam os medicamentos conforme o prescrito, o que contribui para aumento de hospitalizações e mortalidade.

*com informações de Laiz Menezes/folhapress

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