Saúde e Bem-estar

´Onda nutricional´: especialistas se unem para combater essa prática

Da Redação*
Publicado em 17 de janeiro de 2026 às 13:34

pão de forma

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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“Carne de frango e milho verde propiciam o quê? Depressão”. “O dia em que você deixar de comer pão, estará em outro patamar intelectual”. “Água com gás aumenta a pressão”.

As três afirmações, falsas, foram ditas por “especialistas” em vídeos curtos no Instagram e no TikTok. Vestidos com jalecos, em cortes em que supostamente aparecem em podcasts ou palestras, pessoas dão dicas alimentares alegando amparo científico, mas sem detalhar a origem de suas fontes -ou sua própria qualificação para isso.

É o que nas redes sociais está sendo chamado de “terrorismo nutricional”: mentiras criadas acerca de alimentos para causar pânico em quem assiste. Os exemplos não faltam. O leite, por exemplo, é citado como causador de transtornos psicológicos e vilão do inchaço -ainda que estudos mostrem a importância dos lácteos no cardápio.

Falsas ou descontextualizadas, essas informações geralmente almejam algo, como vender um curso ou produto. Ao mesmo tempo, enquanto o solo das mentiras nutricionais se expandia, surgiram nutricionistas com título, registro profissional e conceitos para combatê-las.

Profissionais começaram a reagir a esses vídeos e desmentir-los, um movimento que também se tornou viral. Um dos principais nomes é Isabella Lacerda. Com 1,5 milhão de seguidores no Instagram, começou tirando dúvidas pela caixinha de perguntas dos stories. Depois, alavancou com vídeos sobre suplementos, déficit calórico e canetas emagrecedoras, por exemplo -sempre em tom carismático.

Já Monique Fonseca adota tom mais sarcástico em seus vídeos. Imita influenciadores pop, debocha de mentiras concretas e sugere que seus seguidores bloqueiem quem reproduz mitos sobre alimentação. Tudo, ela diz, em nome de salvaguardar a profissão.

“A gente chegou a um ponto em que, para qualquer profissional de saúde, o combate à desinformação é urgente. As mentiras sobre tratamentos comprovadamente eficientes colocam em risco a saúde das pessoas e até a profissão do nutricionista”, afirma, em entrevista à reportagem.

Formada em nutrição e atuando no Rio de Janeiro, Monique produz vídeos que atingem milhões de pessoas no Instagram, muito além de seus 163 mil seguidores. As produções abordam temas como álcool, inflamação, refrigerante zero e óleos vegetais.

Monique cita, como exemplo, o “desafio do glúten”, em que pessoas são convidadas a evitar a substância por longos períodos para resultados mágicos. “É uma lógica em que você perde tempo, perde saúde mental e piora sua relação com a comida em troca de resultados possíveis com alimentação correta e regrada”, explica. O glúten é um problema na alimentação para os celíacos, mas não para todos.

A nutricionista e outros pares defendem que os radicalismos sejam excluídos da discussão sobre comida. Ela quer, por exemplo, que uma pessoa coma, sim, um bolo preparado pela avó, ou um prato típico durante uma viagem.

Para isso, “basta que o restante da alimentação seja equilibrada”, diz.

“A gente pensa na comida como um instrumento de performance, mas a maioria das pessoas não tem a necessidade de comer como um atleta. Comida também é afeto, é contexto social”, diz.

Thales Faccin é outro nome desse movimento. Ele recorre ao didatismo para desmentir dicas de nutrição questionáveis, explicando por que os conceitos estão errados, sempre com amparo de estudos científicos.

Em um vídeo em que fala sobre o café ao acordar, uma seguidora comenta. “Entrei na sua turma só por esse vídeo e agora vou gastar uma noite assistindo os outros”.

“Essa onda [de nutricionistas influenciadores] é uma consequência direta da forma como a nutrição se desenvolveu cientificamente, levando à interpretação de que não necessita de estudos”, ele diz.

Formado em nutrição com especialização em bioquímica, Thales avalia que as redes sociais favorecem conteúdos apelativos -algo também experimentado na política, economia e até mesmo em outros campos da saúde.

“Elas [as redes] remuneram conteúdo simplista, mesmo errado, e nós, que fazemos conteúdo mais ‘burocrático’, temos engajamento bem menor”, diz.

“Tradicionalmente, a saúde pública lidou com grandes problemas como álcool, tabagismo, doenças crônicas. Hoje, tem de lidar com a desinformação, porque há uma alteração da percepção de risco que leva a decisões equivocadas da população”, complementa Thales.

Um exemplo do que ele diz é o movimento antivacina. Há, ainda, correntes que defendem que o protetor solar causa câncer, o extremo oposto do consenso científico.

Monique segue Thales, que segue Isabella Lacerda, que segue Lucas, que segue Rodrigo Goes. É comum que um comente nas publicações do outro, parabenizando ou destacando novos tópicos. Dessa forma, se fortalecem como profissionais que querem defender a profissão para a qual se habilitaram.

*LUIS EDUARDO DE SOUSA/folhapress

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