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PF: emendas manipuladas pelo presidente do PL superam as de 512 dos 513 deputados

Da Redação*
Publicado em 12 de julho de 2026 às 14:30

valdemar costa neto

Foto: Beto Barata/PL/Divulgação

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O montante de emendas de comissão supostamente controlado pelo presidente do PL, Valdemar Costa Neto, atinge uma cifra extraordinária.

De acordo com investigações da Polícia Federal, o volume financeiro direcionado pelo dirigente partidário — que sequer exerce mandato eletivo — é maior do que o indicado individualmente por 99,8% de todos os deputados federais no mesmo período.

A Polícia Federal afirmou em relatório que Valdemar, que não tem mandato, indicou R$ 111,8 milhões em emendas de comissão em 2024.

Levantamento nas planilhas da Câmara dos Deputados revela que o montante só não é superior ao obtido pelo então presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL), que destinou R$ 255,3 milhões desse tipo de verba naquele ano.

O valor direcionado nessa modalidade é maior até do que o indicado pelo então líder do governo Lula, José Guimarães (PT-CE), que enviou R$ 91,6 milhões para aliados.

Também é superior ao direcionado pelo deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), que foi o segundo deputado federal que mais recebeu recursos das emendas de comissão em 2024, com R$ 102 milhões, após relatar a reforma tributária.

Além dessa modalidade, há também emendas individuais e de bancadas estaduais, que não foram incluídas pela reportagem nesta conta.

Ministro bloqueia R$ 119 milhões do presidente do PL por suspeitas em emendas

Em 2025, o valor que, segundo a PF, foi indicado por Valdemar caiu substancialmente -a investigação não explica os motivos. De acordo com o relatório policial, ele direcionou R$ 7,4 milhões nesse ano.

O ministro Flávio Dino, do STF (Supremo Tribunal Federal), autorizou a operação e determinou o bloqueio de R$ 119 milhões em bens de Valdemar, após a PF afirmar que as emendas “foram forjadamente encaminhadas e desviadas” para atender ao presidente do PL.

“Valdemar Costa Neto contava com autonomia para direcionar recursos de emendas (de comissão, proeminentemente) conforme sua cota pessoal e particular, atribuída a partir de sua condição de presidente da sigla”, diz o relatório da PF encaminhado a Dino.

O presidente do PL rebateu em nota assinada pelos advogados Marcelo Ávila de Bessa e Thiago Fleury. Disse que não cometeu ilegalidade, que Dino criminaliza a atividade político-partidária e que não há provas de desvios, fraudes ou apropriação indevida da execução da despesa pública.

“É natural e legítimo, no sistema democrático, que um presidente partidário dialogue com parlamentares, defenda prioridades programáticas, articule interesses nacionais e regionais e influencie politicamente sua bancada. Nada há de criminoso nisso”, diz a nota.

As verbas que a PF diz serem na verdade de Valdemar aparecem nos registros da Câmara como apadrinhadas pelos deputados Luiz Carlos Motta (PL-SP), capitão Alden (PL-BA) e pela liderança do PL.

Luiz Carlos Motta afirmou em nota que os recursos não são de emendas individuais suas, mas de comissão, e que passaram pelos trâmites adequados. Ele aparece como autor de dois recursos que seriam de Valdemar, segundo a PF, para cidades de São Paulo.

“Exerci a função de relator do Orçamento Geral da União, razão pela qual meu nome passou a constar nos registros administrativos relacionados à tramitação dessas indicações. Isso, porém, não significa que os recursos tenham sido escolhidos ou destinados por decisão individual minha”, disse.

Já Alden figura como autor de emenda para a saúde de Itaguaçu da Bahia (BA). Ele afirma que a indicação ocorreu de forma regular e não tem o presidente do PL como autor oculto, como acusa a PF. “Não houve qualquer contato comigo sobre esse assunto”, declarou.

Sem mandato

Dados das emendas de comissão indicam que o presidente do PL, apesar de liderar um partido de oposição, indicou mais recursos do que 512 dos 513 deputados, embora não tenha mandato desde que renunciou em 5 de dezembro de 2013 pela condenação no escândalo do mensalão.

Os valores consideram os recursos empenhados (quando o dinheiro é reservado para o pagamento) ou efetivamente pagos.

Dos R$ 111,8 milhões apontados pela PF em 2024, R$ 97,4 milhões foram repassados para prefeituras de São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro. O restante foi bloqueado por decisão de Dino, após a Câmara tentar uma manobra para não revelar os reais autores daquelas emendas.

Procurado nesta sexta por telefone e por meio de sua assessoria para comentar sobre o volume de verbas indicadas, Valdemar não respondeu até a publicação desta reportagem.

A Secom (Secretaria de Comunicação Social) e a SRI (Secretaria de Relações Institucionais) do governo Lula foram questionadas por email no fim da tarde de sexta, mas não se manifestaram.

Hugo Motta protesta contra ação da PF direcionada ao presidente do PL

A emenda de comissão substituiu a extinta emenda de relator ao Orçamento e também foi criticada pela falta de transparência e critérios técnicos para distribuição. O STF determinou em 2024 a divulgação dos padrinhos de cada verba, o que provocou uma crise com o Congresso e a adoção de novas regras.

A maior parte das emendas que, de acordo com a PF, seria do presidente do PL foi registrada como da “liderança do partido” na Câmara. A sigla de oposição teve R$ 276 milhões empenhados nessa modalidade em 2024. Com isso, não é possível saber o real autor da indicação.

Procedimento copiado

Outros partidos, como PP, União Brasil e PT, usaram desse mesmo artifício em 2024 para ocultar o autor das emendas de comissão. Como a Folha revelou em dezembro, a prática continua mesmo após as novas regras adotadas pelo Congresso depois da pressão do STF. No ano passado, mais de R$ 1 bilhão em verbas da Câmara tiveram como autores as “lideranças” de sete partidos.

Esse mecanismo esconde da sociedade, mas também do governo, quem é o real autor, o que garante ao presidente da Câmara maior controle sobre os deputados. Os recursos também foram negociados naquele ano pelo Palácio com o PL para a aprovação do Orçamento, que era de relatoria do partido.

*com informações de Raphael Di Cunto/folhapress

 

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