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Seleção pode escalar trio de clube brasileiro pela primeira vez após 40 anos

Da Redação*
Publicado em 23 de junho de 2026 às 17:41

danilo e paqueta

Foto: Ascom/Fifa

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O Brasil pode fazer na Copa do Mundo da FIFA 2026™ algo que não acontece há 40 anos: entrar em campo com três jogadores de um mesmo clube brasileiro. A possibilidade é um ponto fora da curva, porque vai contra a tendência das últimas décadas, em que as listas de convocados tinham cada vez mais nomes que atuavam no futebol europeu e até asiático.

As chances existem porque Carlo Ancelotti convocou quatro jogadores do Flamengo: os defensores Danilo, Alex Sandro, Léo Pereira, e o meio-campista Lucas Paquetá.

No empate por 1 a 1 contra Marrocos, na primeira rodada do Grupo C, apenas Lucas Paquetá foi titular. Diante do Haiti, Danilo entrou no time — a possibilidade segue aberta para as próximas partidas.

Contra a Escócia, com Douglas Santos pendurado com um cartão amarelo, Alex Sandro aparece como possibilidade na lateral-esquerda. Um levantamento da FIFA mostra que a última vez que um trio de um clube brasileiro esteve em campo pela Seleção foi na Copa do Mundo da FIFA México 1986.

Nos dois primeiros jogos da fase de grupos, contra Espanha e Argélia, três atletas do Corinthians estavam foram titulares: o goleiro Carlos, o lateral-direito Edson Boaro e o atacante Casagrande.

A partir da terceira rodada, contra a Irlanda do Norte, o trio se desfez: Edson Boaro, machucado, abriu caminho para Josimar, do Botafogo, entrar no time e se transformar em uma das grandes revelações daquela Copa, com golaços diante dos norte-irlandeses e da Polônia, nas oitavas de final.

“O relacionamento e a intimidade de quem atua junto no mesmo clube ajuda mais fora de campo, no dia a dia da seleção, do que dentro. Durante o jogo, isso acaba sendo irrelevante, porque você joga com os melhores”, disse Edson à FIFA.

Aos 66 anos, Edson segue trabalhando com futebol em Campinas. O ex-lateral entende que a presença de jogadores do mesmo time não necessariamente seria um diferencial para a Seleção. “Não vejo isso como necessário e nem acho que teríamos um grande ganho em entrosamento”, avalia.

Inversão na tendência

Se não ajuda os atletas em campo, /três jogadores de um clube brasileiro juntos em um duelo de Copa do Mundo pareceria uma fotografia de outra época do futebol. Até 1978, todos os jogadores convocados pelo Brasil para o torneio atuavam em times do país.

Os pioneiros foram Paulo Roberto Falcão, da Roma, e Dirceu Lopes, do Atlético de Madrid, em 1982. Oito anos depois, em 1990, o técnico Sebastião Lazaroni convocou 12 jogadores que atuavam no exterior em sua lista de 22 nomes para a Copa do Mundo da Itália. Foi a primeira vez que os “estrangeiros” foram maioria, com direito a cinco jogadores do Vasco, campeão brasileiro de 1989.

Só que nenhum integrante do quinteto vascaíno — Bebeto, Mazinho, Acácio, Bismarck e Tita — atuou como titular naquele Mundial.

Os dois últimos títulos brasileiros, em 1994 e 2002, tiveram em comum o fato de as convocações terem pelo menos metade dos atletas atuando no mercado interno. Na campanha do tetra, a lista tinha 11 “estrangeiros” e 11 representantes de clubes nacionais — incluindo Ronaldo e Leonardo, que foram convocados por Cruzeiro e São Paulo, mas já estavam vendidos para PSV Eindhoven e Kashima Anthlers.

Naquela Copa, o São Paulo tinha como representantes, além do lateral-esquerdo Leonardo, o lateral-direito Cafu, o goleiro Zetti e o atacante Muller. Só que os três últimos não atuaram como titulares.

No caminho para o penta, em 2022, Luiz Felipe Scolari chamou 12 jogadores de clubes brasileiros, contra 11 que atuavam no exterior. São Paulo e Corinthians tinham três convocados cada, mas nenhum deles conseguiu formar um trio em campo.

No Mundial em que todos os jogadores de linha foram usados em algum momento, os dois gigantes paulistas tinham os goleiros Dida e Rogério Ceni, únicos a terminar o torneio sem um único minuto, na reserva do palmeirense Marcos.

Desde a histórica conquista do pentacampeonato, a seleção brasileira nunca mais teve uma maioria de convocados defendendo clubes do país. Em 2006, foram apenas dois; em 2010, três; jogando em casa, em 2014, com Luiz Felipe Scolari de novo no comando, eram quatro jogadores do Brasileirão.

A primeira Copa sob o comando de Tite, em 2018, teve quatro atletas atuando no Brasil. Em 2022, foram três.

Ancelotti e o Brasileirão

A chegada de Carlo Ancelotti voltou a colocar jogadores que atuam no país em posição de protagonismo. O primeiro técnico europeu a comandar a seleção brasileira em uma Copa do Mundo, chamou sete jogadores que atuam no país.

Além do quarteto do Flamengo, o treinador convocou Neymar, do Santos, o volante Danilo, do Botafogo, e o goleiro Weverton, do Grêmio.

Ao longo de pouco mais de um ano de trabalho, Ancelotti notabilizou-se por se interessar pelo Campeonato Brasileiro. O italiano mudou-se para o Rio de Janeiro e colocou as idas a estádios em sua rotina.

As observações levaram o treinador a convocar, desde sua primeira lista, 19 jogadores que atuam no Brasil — os sete que estão na Copa e mais 12, que tiveram chances, mas não passaram pelo crivo final. Quando perguntado sobre como vê o nível do futebol brasileiro atual, Ancelotti evitou comparações com ligas europeias e citou particularidades do país.

“O futebol brasileiro tem que considerar algumas coisas para compará-lo com outras ligas. O clima, as viagens… é diferente. Preparar um jogo e viajar no Brasil é diferente de preparar um jogo e viajar na Inglaterra. Isso afeta a intensidade do jogo. O gramado, o clima, muita chuva, muita umidade, tudo isso afeta a intensidade do jogo. Posso dizer que a intensidade do jogo é um pouco mais baixa aqui, mas  posso dizer que a organização defensiva e ofensiva é muito boa”, disse, em entrevista ao Prime Video.

A união de jogadores de clubes brasileiros em Copas do Mundo era comum nas primeiras grandes campanhas da seleção. O time que entrou em campo contra a Suécia, na final de 1958, tinha três jogadores do Vasco Bellini, Orlando e Vavá — e três do Botafogo — Nilton Santos, Didi e Garrincha.

Em 1962, a equipe que venceu a Tchecoslováquia na decisão tinha um trio do Santos — Gylmar, Mauro e Zito — e um quinteto do Botafogo: Nilton Santos, Didi, Zagallo, Garrincha e Amarildo.

Na campanha do tricampeonato mundial, o Santos teve novamente três jogadores no time titular: Carlos Alberto Torres, Clodoaldo e Pelé.

* Ascom/Fifa

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