Educação e Ciência

Pagar caro não adiantou: rede pública vence particulares no Enamed

Da Redação*
Publicado em 20 de fevereiro de 2026 às 11:42

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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Mesmo com um perfil socioeconômico considerado superior, os estudantes concluintes de Medicina em instituições privadas apresentaram um desempenho inferior aos alunos da rede pública no Enamed (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes de Medicina).

A análise dos dados do Ministério da Educação (MEC) mostra que a vantagem do ensino público se repetiu em praticamente todas as questões da avaliação, acendendo um debate sobre a qualidade da formação médica no país.

Isso ocorreu em 85 das 90 questões válidas, o que corresponde a 94% da prova, segundo análise do jornal Folha de São Paulo com base nos microdados do exame.

Não houve diferença estatisticamente relevante nas outras perguntas.

Os resultados do Exame Nacional das Escolas Médicas foram divulgados em janeiro.

Dos 107 cursos com notas 1 e 2, consideradas insuficientes, 87 são de instituições privadas com ou sem fins lucrativos, com mensalidades que chegam a R$ 17 mil.
Houve divulgação para 350 cursos.

Pesquisas mostram que variáveis socioeconômicas estão associadas ao desempenho acadêmico de estudantes: quanto maior a renda e escolaridade dos pais, melhor o desempenho.

Análises com o Enade (avaliação federal com concluintes de cursos de graduação) já identificaram relação significativa entre desempenho e os fatores socioeconômicos.

Isso é, inclusive, frequentemente relatado pelo setor privado para justificar resultados desfavoráveis a seus cursos nas divulgações do Enade.

Mas o comportamento em medicina, a partir do Enamed, segue outra tendência.

Mais de 35% dos alunos dos cursos privados têm renda familiar superior a seis salários mínimos mensais.

Nas públicas, essa é uma realidade de 19%.

Com relação à escolaridade, 36% dos estudantes de medicina privada têm mães com ensino superior. Esse percentual cai para 31% na rede pública.

Os dados sobre perfil socioeconômico levam em conta o questionário de todos os aptos para a prova, e não só aqueles que tiveram desempenho considerado para o cálculo das notas.

Os dados mostram diferença também racial. Estudantes autodeclarados pretos e pardos são 27% nos cursos privados e 37% nas instituições públicas, que contam com cotas para ingresso.

O desempenho desfavorável dos alunos de medicina de cursos particulares, apesar de melhor nível socioeconômico, reforça o cenário de problemas de qualidade da oferta dessas graduações.

“A variável da escola parece ser mais determinante e afasta um pouco a discussão de que as escolas privadas seriam vítimas de um perfil de estudantes que trazem dificuldades para o ensino”, diz o professor da USP Mario Scheffer, coordenador do estudo Demografia Médica no Brasil.

Scheffer pondera que a ausência de informações individualizadas nos microdados dificulta análises mais aprofundadas, seja nas particulares ou nas públicas.

Ele ressalta, no entanto, que os cursos com pior avaliação têm também indicadores inferiores relacionados ao percentual de docentes com doutorado e número médio de alunos por professores, além de serem instituições mais novas e com menor concorrência para ingresso.

CFM cogita barrar candidatos com baixos resultados no Enamed

A ´Folha´ mostrou que faculdades de medicina privadas criadas na última década, após a Lei do Mais Médicos (de 2013), e localizadas em cidades do interior, com menos de 300 mil habitantes, concentram os piores resultados no exame.

O economista Rodrigo Capelato, do Semesp (que representa mantenedoras do ensino superior privado), afirma que o número maior de estudantes nessas instituições impacta os resultados.

“Quando se olha o universo de alunos do Enamed, a maioria está nas privadas. E, como há grande competição de ingresso nas públicas, maior tradição, gratuidade, elas ficam com os melhores alunos.”

Dos 39 mil alunos que fizeram o Enamed, 24,5 mil são de cursos privados e 9.800, de públicos.

Desses, 61% dos alunos das particulares tiveram desempenho adequado, percentual que foi de 81% na rede pública.

“Sem dúvida existem problemas de qualidade no sistema, porque cresceu rapidamente, que precisam ser olhados com cuidado, passar por supervisão, sanção. Mas é preciso cuidado nas comparações mais gerais”, completa Capelato, ressaltando que a prova mede só uma dimensão da qualidade.

O Enamed teve 100 questões, mas sete foram anuladas e três desconsideradas pelo modelo matemático adotado na elaboração e correção.

Para a análise das questões, a reportagem considerou como categoria privada instituições com fins lucrativos e também sem fins lucrativos.

O maior abismo entre alunos de cursos privados e públicos foi visto em uma questão sobre insensibilidade androgênica, termo médico sobre condição genética em que a pessoa tem genes e hormônios masculinos, mas o corpo não reage a esses hormônios.

Nesse item, 50,4% dos participantes de instituições públicas obtiveram acertos em suas respostas.

Nas privadas, o percentual de respostas corretas foi de 24,4%.

Questionada, a Anup (Associação Nacional das Universidades Particulares) disse por nota que considera “prematuro fazer inferências sobre diferenças socioeconômicas entre estudantes de instituições públicas e particulares”.

Para a entidade, essa não é uma metodologia implementada no Enamed e não há informações para mensurar o ponto de partida de ingresso dos estudantes.

O MEC dividiu os cursos do Enamed em cinco níveis.

Os que ficaram nas faixas 1 e 2 não conseguiram que 60% dos seus estudantes alcançassem a proficiência mínima na prova e foram consideradas de desempenho insuficiente.

As instituições reguladas pela pasta, que são 99, podem sofrer sanções.

Entidades que representam instituições privadas tentaram barrar na Justiça a divulgação dos resultados e questionaram, sobretudo, cálculos sobre a nota de corte, embora a análise das questões mostre um quadro genérico de diferenças de desempenho.

*Com informações Paulo Saldaña, Natália Santos e Vitor Antonio/Folhapress

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