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Foto: Ascom/STF
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O documentário “A Colisão dos Destinos“, que narra a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, enfrenta um início amargo nos cinemas.
Dirigida por Doriel Francisco, a obra chegou ao seu primeiro fim de semana em cartaz registrando salas vazias e problemas crônicos de distribuição.
Apesar de alcançar 17 estados, o longa ficou de fora do principal circuito comercial do país — o eixo Rio-São Paulo —, frustrando as expectativas de bilheteria após polêmicas sobre seu financiamento.
Profissionais do setor audiovisual afirmam que um filme com esse teor político, em ano eleitoral, afasta os programadores.
Do mesmo modo, dizem que a estratégia de lançamento do filme foi mal conduzida.
Tanto que, em geral, a comunidade cinéfila desconhecia sua produção até a estreia. Assim como “Dark Horse”, “A Colisão dos Destinos” integra uma rede que tem elo com verbas de deputados bolsonaristas.
Além de ser o diretor, Francisco é dono da produtora, a Dori Filmes, sediada em Brasília, e assina o roteiro com William Alves.
O argumento foi criado pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), que também ajudou a financiar a obra, em parceria com o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro.
A distribuição é feita de maneira independente, pela própria produtora.
A reportagem tentou contato com a Dori Filmes, mas não obteve resposta. “O pouco investimento que tem no filme é recurso próprio meu”, afirmou Francisco, em entrevista à Gazeta do Povo, em abril.
No site oficial, consta que “A Colisão dos Destinos” foi desenvolvido a fim de repassar a biografia do ex-presidente, sob a perspectiva íntima de amigos e familiares.
Segundo o texto do site, esse “filme de 70 minutos mergulha nas camadas mais profundas da vida privada de Bolsonaro, desafiando as narrativas convencionais e revelando ângulos inexplorados pela mídia tradicional.” O texto é seguido pelo trailer.
Dentre as cenas selecionadas, estão entrevistas dos filhos. Numa delas, a câmera dá um close no rosto do ex-vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (PL), que chora ao lembrar a figura paterna. “Me fazendo pagar mico aí, pô.”
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que cobrou dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, afirma, no documentário, que o pai é um escolhido de Deus.
Solange, a irmã, rememora o tempo que Bolsonaro saía para pescar e, com o dinheiro da venda, pagava uma tubaína para a família. O documentário estreou, em Brasília, na quinta-feira (14).
“Não é um filme político, é um filme cultural. É um filme que fala do Jair Messias Bolsonaro humano e não político”, conta Francisco, em um vídeo postado no Instagram.
Embora todas as regiões recebam o filme, a obra não está sendo exibida, até o momento, nos dois principais circuitos culturais do país: São Paulo e Rio de Janeiro.
Coordenador do curso de cinema da Faap e programador da distribuidora Gullane+, Humberto Neiva diz que a ausência indica alguns entraves para a circulação da obra.
“É um documentário sobre um político que traz milhões de polêmicas e alguns exibidores não querem se comprometer com questões políticas”, afirma Neiva, exibidor do Espaço Itaú de Cinema por 28 anos. O professor também vê erros da produção.
Conta que o mercado exibidor sequer tomou conhecimento da existência da obra. Em geral, as salas têm acesso às obras com antecedência e avaliam quais fazem parte do perfil do espaço.
Trata-se de um processo que envolve uma equipe de marketing e de assessoria de imprensa, tornando o filme em questão um assunto na comunidade cinéfila, diz.
“Esse documentário não foi lançado, ele foi arremessado em um ano eleitoral.” Proprietários de dois cinemas tradicionais da capital paulista dizem desconhecer a obra.
Da França, onde participa do Festival de Cannes, André Sturm, programador do Cine Belas Artes e ex-secretário municipal da Cultura, conta nunca ter ouvido falar de “A Colisão dos Destinos” e que ninguém o ofereceu ao Belas Artes. Afirma que teria restrições à escolha. “Se for um filme de divulgação, não [exibiria].”
Por intermédio de sua assessoria, Adhemar Oliveira, do Espaço Petrobras de Cinema, também diz não ter recebido contatos de distribuidora e conta que a obra não se encaixaria no perfil de sua sala.
Mesmo nos outros estados, o documentário passa ao largo de grandes redes, como Cinemark e Kinoplex, sendo veiculado por marcas menos famosas, quais sejam, Grupo Cine, Cine Plus, Cinemas Premier, entre outras.
Exibidor do Cine Glauber Rocha, em Salvador, Cláudio Marques afirma que toda produção passa pelo controle de qualidade das salas exibidoras. E que todo cinema deve conhecer o seu público.
“O dono da sala quer ver a sala cheia, não importa a questão ideológica. Se eles não passaram nesses lugares, é porque acham que as pessoas não querem ver”, diz. Acontece que as salas têm estado vazias.
Na noite desta sexta-feira, havia sessão em ao menos 8 das 17 cidades do interior de São Paulo em que o Grupo Cine, o maior exibidor, tem sala. Faltando uma hora para o início do filme, quatro cinemas estavam completamente vazios.
*com informações de Gustavo Zeitel e Ana Gabriela Oliveira Lima/folhapress
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