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Foto: Ascom/Vaticano
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O legado de João Paulo 2º, cuja morte completa 20 anos nesta quarta-feira (2), pode ser observado hoje nos campos da geopolítica, da espiritualidade e do modo pastoral com que exerceu seu pontificado.
Nestas semanas em que Francisco se recupera de uma pneumonia, também a maneira com que o atual papa lida com a doença tem influência direta da experiência do pontífice polonês.
Chefe da Igreja Católica por 26 anos, o primeiro não italiano depois de 455 anos, Karol Wojtyla morreu em 2 de abril de 2005, aos 84 anos. Nove anos depois, foi declarado santo. Em sua homenagem, nesta quarta, o secretário de Estado da Santa Sé, cardeal Pietro Parolin, celebra uma missa na Basílica São Pedro.
“Mesmo depois de 20 anos, João Paulo 2º continua um gigante na história da Igreja”, diz Mimmo Muolo, vaticanista desde 1991 do jornal italiano Avvenire, de inspiração católica.
Na geopolítica, Wojtyla atuou para eliminar a contraposição entre os blocos ocidental e oriental, então definidos de acordo com os sistemas econômicos, capitalismo e comunismo. Por meio de viagens, de falas e de diálogo com líderes, o polonês foi considerado um ator importante na queda do Muro de Berlim e no colapso da União Soviética.
Na espiritualidade, sua frase “Abram, escancarem as portas a Cristo”, pronunciada aos fiéis logo no início do seu pontificado, em 1978, foi um lema que ajudou a estancar o declínio do cristianismo. “Ele teve a coragem de recolocar Cristo no centro das atenções e de dizer que só nele havia salvação”, afirma Muolo.
Nos últimos anos de seu papado, porém, escândalos de abusos cometidos por integrantes do clero abalaram a Igreja e sua reputação, uma vez que críticos o consideraram omisso em relação a alguns casos.
Na opinião de Muolo, um ponto de contato fundamental entre João Paulo 2º e Francisco é o esforço para humanizar a figura do papa. “João Paulo 2º agia para mostrar que era um homem, não um semideus acima dos demais. Nesse ponto ele e Francisco se parecem muito.”
O modo de enfrentar problemas de saúde também é um tema que os conecta. Depois do atentado a tiros que sofreu na praça São Pedro em 1981, Wojtyla foi internado mais nove vezes no hospital Agostino Gemelli, em Roma. Ele foi o primeiro papa a se tratar fora do Vaticano.
“Antes era impensável ter um papa no hospital, foi uma mudança de paradigma. Havia um véu protetor absoluto sobre a saúde dos pontífices, a ponto de existir uma piada entre os vaticanistas de que ‘o papa está bem até morrer’. Nada era comunicado até o momento em que eles morriam”, diz Muolo.
Depois de uma lenta deterioração, causada principalmente por complicações do mal de Parkinson, a última internação de João Paulo 2º foi entre o fim de fevereiro e o início de março de 2005, quando precisou de uma traqueostomia para facilitar a respiração. De volta ao Vaticano, morreu quase três semanas depois, por choque séptico e colapso cardiovascular.
Depois de quase 40 dias internado no mesmo hospital Gemelli, para tratar uma pneumonia bilateral, Francisco, 88, teve alta no dia 23 de março e voltou ao Vaticano. Seus médicos recomendaram uma convalescença de dois meses.
Nesta terça-feira (1º), a Santa Sé afirmou que o quadro continua estável, com melhora na respiração, na mobilidade e na infecção pulmonar. O papa passa os dias entre repouso, orações e trabalho, inclusive sentado à mesa. Ainda é incerta sua participação em eventos da Páscoa.
O Vaticano chegou a anunciar que ele ao menos faria a tradicional bênção Urbi et Orbi (“à cidade [de Roma] e ao mundo”, em latim) na praça São Pedro, mas a equipe médica declarou que ainda é prematuro definir que atividades o pontífice poderá realizar.
Embora tenham lidado abertamente com assuntos de saúde, há diferenças de estilo. O polonês fazia uso de imagens, aparecendo em público visivelmente debilitado ou permitindo que fossem divulgadas fotos, inclusive na cama do hospital. Já Francisco, durante sua internação mais longa em 12 anos de papado, optou por boletins médicos detalhados e mais resguardo em relação à sua aparência. Sua única foto foi quase de costas, sentado enquanto rezava.
Outro ponto em comum pode ser a questão da renúncia. Apesar de especulações e da fragilidade crescente, João Paulo 2º não se demitiu do cargo, como faria anos depois seu sucessor, Bento 16.
Segundo o vaticanista Muolo, tal como o polonês, Francisco tampouco leva essa hipótese em consideração. “Quem o conhece bem considera impossível que ele renuncie.”
*MICHELE OLIVEIRA/folhapress
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