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Jornalista, professor universitário, escritor e membro da Academia de Letras de Campina Grande.
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Em 1965 um dos maiores nomes da música popular brasileira estava desanimado com a carreira. Durante vinte anos ele tinha tocado em todas as rádios do país, reinava de Norte a Sul, mas uma galera jovem, influenciada por uma banda de rock britânica, os The Beatles, com seus cabelos longos e suas letras românticas, estava tomando conta de todos os programas de rádio do país. Percebendo que não havia mais espaço para ele, esse senhor, de quase sessenta anos de idade, com chapéu de couro e gibão resolveu, então, pendurar as chuteiras. Mas o que ele nem imaginava era que um poeta popular do interior do Nordeste, do Sul do Ceará, iria compor uma letra que mudaria para sempre a história musical daquele velho sanfoneiro desiludido.
Conta a história que numa segunda feira, na cidade do Crato, esse poeta popular foi mostrar suas composições para o importante sanfoneiro. O velho tocador inicialmente não quis nem saber. Alegou que seu tempo havia passado, que não tinha mais público, que a situação estava difícil e que os tempos eram outros. O poeta, então, insistiu mostrando suas letras prontas, mas recebeu o seguinte desafio: quero que faça uma música de protesto. Escreva sobre esses jovens dos cabelos grandes que estão tomando conta do país. Os cabeludos era a garotada da Jovem Guarda, movimento musical liderada por Roberto e Erasmo Carlos. O velho sanfoneiro cansado e decidido e encerrar a carreira era Luiz Gonzaga, e o insistente poeta popular era Zé Clementino. Zé aceitou o desafio de escrever a música para Gonzaga, voltou para casa e sete dias depois a letra estava pronta. Um xote.
Cabra do cabelo grande
Cinturinha de pilão
Calça justa bem cintada
Costeleta bem fechada
Salto alto, fivelão…
Gonzaga recebeu a música e disse: essa é boa. Essa vai fazer sucesso. E de quebra ainda acrescentou um recado muito claro antes de começar a cantar os versos: Atenção, senhores cabeludos, Aqui vai o desabafo de um quadradão. Dois anos depois gravou e não deu outra: estourou em todas as emissoras de rádio do país. Começava ali uma parceria que se estendeu até 1989 quando Gonzaga faleceu. Ainda hoje discutem se teria sido essa música responsável por uma rixa entre o Rei do Baião e o rei Roberto Carlos.
Há quem diga que não tem nada a ver. A questão podia ser bem mais ampla como alega Paulo César, irmão e parceiro de Zé Clementino. “O sertão estava cheio de homens com os cabelos grandes. Era moda todo mundo deixar os cabelos crescer. Então, Zé aproveitou e escreveu a letra inspirado nisso”. O que também faz certo sentido. Vejamos:
No sertão de cabra macho
Que brigou com Lampião
Brigou com Antônio Silvino
Que enfrenta um batalhão
Amansa burro brabo
Pega cobra com a mão
Trabalha sol a sol
De noite vai pro sermão
Rezar pra Padre Ciço
Falar com Frei Damião
No sertão de gente assim
No sertão de gente assim
Cabeludo tem vez não…
No entanto, é muito provável que essa moda dos “sertanejos cabeludos”, tenha sido influenciada pela presença dos jovens artistas da época e do movimento iêiêiê amplamente divulgados pelas emissoras de rádio e televisão. Observem o que disse Zé Clementino, em agosto de 1995, quando os pesquisadores da obra do Rei do Baião, Rômulo Nóbrega e José Batista Alves passaram por Várzea Alegre e entrevistaram Zé sobre aquele primeiro encontro com Gonzaga e a música encomendada como protesto.
“… nessa oportunidade ele então falou da onda do iêiêiê, daqueles cabras cabeludos e tal… e me perguntou se eu teria condições então de fazer uma música de protesto sobre aquilo, uma série de coisas… que gostaria de encerrar a carreira dele, mas com uma música de protesto contra aquela coisa dos anos de sessenta. Aí eu me comprometi com ele. Disse que ia tentar fazer a música. Isso foi na segunda-feira lá no Crato. Daí, nós marcamos um novo encontro, no domingo, na casa de Padre Alcântara que era muito amigo dele lá em Quitaiús, município de Lavras da Mangabeira. Voltei pra Várzea Alegre, e de lá fui ao encontro levando essa música (que Gonzaga pediu). Peguei um Jipe, paguei vinte contos de réis e fui ao encontro dele. Cheguei ele estava lá na casa de Padre Alcântara. Aí quando eu voltei ele disse: essa é boa, essa, essa vai encaixar mesmo, essa… era… “Xote dos Cabeludos” não sei se vocês conhecem”.
Roberto Carlos, que poderia confirmar ou negar essa história, é um sujeito praticamente inacessível. Gonzaga e Zé faleceram. Resta apenas acreditar no que está dito por aí. Nas gravações, nas entrevistas, nos registros históricos.
Na próxima segunda-feira, dois de fevereiro, dia de Iemanjá e de Nossa Senhora das Candeias, completa 90 anos do nascimento de José Clementino do Nascimento Sobrinho – Zé Clementino. O poeta nos deixou em março de 2005, aos 69 anos, vítima de um infarto, mas seu legado continua vivo, inspirando e intrigando as novas gerações.
Jurani Clementino – Campina Grande – PB
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