Fechar
O que você procura?
Blogs e Colunas
Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
Continua depois da publicidade
Em 1993, foi lançado pela Editora Grafset, em João Pessoa (PB), o livro intitulado Cancioneiro da Paraíba, baseado em um trabalho de pesquisa realizado por alunos do Curso de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal da Paraíba, sob a orientação e coordenação da professora Idalette Fonseca dos Santos.
Organizado em blocos temáticos, no Cancioneiro da Paraíba são apresentados os seguintes subtítulos: Cantigas de ninar, Cantigas de brincar, Cantigas de folguedo, Parlendas, Cantigas religiosas, Orações e crenças, Aboios e toadas de vaquejadas, e Cantos políticos e de costumes.
No bloco “Cantigas de brincar”, o que me chamou a atenção foi a transcrição de três estrofes da canção intitulada “A mentira”, cantada por Gercina Azevedo Maia e gravada em Brejo do Cruz, em 8 de maio de 1984 por Aldina Maria de A. Freitas:
1. “Lá vem a pedra boiando
Em cima vem três navegadores
Um era cego que nada enxergava
Outro tinha braço mas o trem cortou
2. O cego que nada enxergava
Olhou pra água um tostão avistou
O que tinha braço mas o trem cortou
Botou-se n’água, o tostão apanhou
3. Cadê o peixe que peguei na pescaria
Botei no galinheiro ele se acostumou
A meia-noite ele cantava com as galinhas
Eu botei n’água, ele se afogou”
Nessa transcrição, observei diferenças significativas em relação à maneira como minha mãe cantava a mesma canção durante a minha infância:
“Lá vinha a pedra boiando sobre o rio
Em cima dessa pedra três navegador
Um era cego, nada enxergava,
Outro era sem braço, pois o trem cortou.
O mais sem-vergonha era o terceiro
Pois estava nuzinho como Deus criou
Mais adiante o cego num berreiro
Olhando para o fundo “Oi! Um tostão”, gritou
Então ouvindo aquilo o que não tinha braço
Meteu a mão no rio o níquel apanhou
E o tal que estava nu tendo o tostão tomado
Mais do que ligeirinho no bolso guardou
Oi! Um peixe que eu pesquei lá numa pescaria
Ai! Eu botei no galinheiro ele se acostumou
De tão habituado que milho comia
Ai! Até junto com o galo a quem não estranhou
E até pelo costume tinha liberdade
E muita vez na mão foi que se alimentou
Um dia que eu maldigo tive piedade
Oi! Por ter tirado o peixe donde se criou
Levei-o para a praia e fui botar no mar
Mas ele ao que parece disso não gostou
Porque estando esquecido de saber nadar
Oi! Coitadinho do peixe na água se afogou. ”
Conforme se pode perceber, o humor da letra está baseado no chamado “nonsense” ou no absurdo cômico, recurso bastante frequente em cantigas populares. A pedra que boia, o cego que vê o tostão dentro d’água, o homem sem braço que apanha a moeda e o peixe que se afoga constituem uma sucessão de impossibilidades deliberadas, construídas para provocar estranhamento e diversão.
Ao comparar essas duas versões com a letra da música “Anedotas” gravada em 1929 por Almirante, acompanhado do grupo vocal e instrumental Bando de Tangarás, percebe-se que aquela cantada por minha mãe era a que mais se aproximava da citada gravação. Originalmente, o Bando de Tangarás era composto por Almirante (pandeiro e voz), João de Barro (violão e voz), Henrique Brito (violão), Noel Rosa (violão) e Alvinho (violão e voz).
Observa-se que a versão registrada no Cancioneiro da Paraíba preserva apenas parte da narrativa presente em “Anedotas”, enquanto a que minha mãe cantava conserva episódios adicionais, aproximando-se mais da gravação realizada pelo Bando de Tangarás.
Nesse contexto, fico imaginando como “Anedotas” teria chegado à Paraíba, seja por meio do rádio, dos discos ou da tradição oral anterior à gravação. No que diz respeito à minha mãe, é possível que ela tenha conhecido essa canção quando morou em João Pessoa, antes de se casar com meu pai.
Informações detalhadas sobre o cantor, compositor e radialista Almirante e o Bando de Tangarás podem ser encontradas no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira e no livro A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras, vol. 1: 1901-1957, de autoria de Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, publicado pela Editora 34, em 1997.
Assim, mais do que uma simples recordação musical, “Anedotas” representa um elo entre a memória familiar e o patrimônio cultural popular brasileiro. Ao reencontrar diferentes versões de uma letra que ouvi tantas vezes na infância, pude perceber como as cantigas de brincar atravessam gerações, transformam-se ao longo do tempo e incorporam novas formas sem, contudo, perder sua essência lúdica.
Leia a coluna anterior:
Atenção: Os artigos publicados no ParaibaOnline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo ao exercício da pluralidade de opiniões.
Continua depois da publicidade
© 2003 - 2026 - ParaibaOnline - Rainha Publicidade e Propaganda Ltda - Todos os direitos reservados.