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Arcebispo Metropolitano da Paraíba.
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A Quaresma é um tempo especial de retorno ao Senhor. Mais do que um período marcado por práticas externas, trata-se de um itinerário interior, no qual o Espírito Santo nos move a revisitar nossos próprios “lugares” mais profundos e, à luz dos valores do Evangelho, tomar decisões corajosas de mudança e conversão.
Não se pode atravessar mais um tempo penitencial de forma distraída, como se Deus não oferecesse, aqui e agora, a sua graça transformadora.
Neste Segundo Domingo da Quaresma, a liturgia dá continuidade a esse caminho. Depois de nos apresentar, no domingo anterior, o Evangelho das tentações de Jesus no deserto, a Igreja nos convida agora a contemplar o acontecimento da Transfiguração do Senhor.
Esses dois episódios — tentação e transfiguração — antecipam o Mistério da Páscoa. Se no deserto contemplamos o combate espiritual, na montanha vislumbramos a luz da ressurreição. Juntos, apontam para o dinamismo pascal: a passagem da morte para a vida.
O Divino Mestre sobe à montanha para rezar, acompanhado por Pedro, Tiago e João. Também nós, no tempo quaresmal, somos convidados a essa subida.
Trata-se do necessário e amoroso dever de estar com o Senhor na montanha, por meio da oração e dos sacramentos. Na tradição bíblica, a montanha é sempre lugar de proximidade com Deus.
A experiência com o Altíssimo exige elevação: não podemos medir nossos dias apenas pela sucessão de tarefas e compromissos.
É justamente nesse horizonte que ressoa a provocação lembrada pelo Papa Leão XIV no início desta Quaresma: “Onde está o seu Deus?, perguntam os povos. Sim, caríssimos, a história pergunta-no-lo, mas, ainda antes, a nossa consciência: chamar a morte pelo nome, carregar os seus sinais, porém testemunhar a ressurreição.
Reconhecer os nossos pecados para nos convertermos é já um presságio e um testemunho da ressurreição: significa, efetivamente, não nos determos nas cinzas, mas levantarmo-nos e reconstruir.”
A pergunta atravessa os séculos e alcança também o nosso tempo. Onde está Deus diante das guerras, das injustiças e das dores que marcam a humanidade? A resposta cristã não é abstrata.
Ela nos conduz à montanha da Transfiguração — lugar de encontro, de luz e de escuta — mas também aponta para o caminho que desce em direção a Jerusalém. O Deus que se deixa contemplar na glória é o mesmo que aceitará morrer na cruz.
A montanha do encontro antecipa o Calvário. Ali aprendemos que a ressurreição passa pela cruz. Subir com Cristo neste tempo quaresmal significa fortalecer o coração na oração para não nos determos nas cinzas das quedas e fracassos.
Reconhecer os próprios pecados e decidir-se pela conversão já é participar do acontecimento pascal: é levantar-se e reconstruir.
Vale a pena perguntar: quanto tempo dedicamos à oração? Compensa o esforço de rezar com perseverança? A autêntica vida de oração grava no coração do pecador arrependido um caminho luminoso que conduz a Cristo. Quando o coração se aquieta diante de Deus, adquire um novo olhar sobre si mesmo e sobre a realidade. Quem reza passa a cultivar os mesmos sentimentos de Jesus e, pouco a pouco, muda de vida.
A oração não é fuga da realidade. Pelo contrário, é o lugar onde nos deixamos preencher pela vontade de Deus para, com Cristo, enfrentar as cruzes do caminho. O Evangelho nos recorda que o itinerário cristão passa, inevitavelmente, pelo escândalo da cruz.
Quem reza de verdade não foge dela; antes, encontra na oração a força para abraçá-la e transformar o sofrimento em caridade concreta.
O próprio Filho de Deus nos ensina que todo apostolado e todo compromisso social devem ser precedidos pela primazia da oração. Deus em primeiro lugar sempre. Sem essa raiz, a ação corre o risco de se tornar mero ativismo.
A oração cristã equilibra a solidão fecunda com Deus e o impulso missionário em direção aos irmãos. Oração e caridade não se opõem; ao contrário, exigem-se mutuamente.
A cruz de Cristo não é sinal de derrota, mas o trono paradoxal do amor que salva. O convite quaresmal é fixar o olhar naquele que se entrega até o fim e, a partir desse encontro, aprender uma nova maneira de viver.
Quem contempla o Crucificado com o coração orante descobre que o sofrimento não tem a última palavra e que toda entrega fecunda gera vida. Assim, fortalecidos pela oração, podemos descer da montanha não como espectadores da glória, mas como testemunhas da esperança, homens e mulheres capazes de levar ao mundo a certeza de que a morte foi vencida pelo amor.
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