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Jornalista, Pós-Graduada em Comunicação Educacional, Gerente de Negócios das marcas Natura e Avon.
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Nesta última semana, a vida me colocou diante de uma de suas verdades mais desconcertantes: a brevidade da nossa passagem por este mundo.
Duas pessoas conhecidas, da minha faixa etária, encerraram suas jornadas na Terra. Ambas cheias de vida, queridas e portadoras daquela capacidade especial de deixar marcas por onde passam. Uma delas conheci ainda na infância, quando morávamos em Teixeira. A outra entrou na minha história durante a adolescência aqui em Campina Grande.
O tempo, esse habilidoso reorganizador de destinos, levou-nos por caminhos diferentes. Uma mudou de cidade; a outra permaneceu por aqui, mas seguiu seu próprio rumo. A vida tem dessas coisas: afasta os corpos, modifica os cenários, cria novas rotinas e, sem pedir licença, transforma a convivência em lembrança. Mas nem sempre o distanciamento diminui o afeto. Há carinhos que permanecem intactos, guardados em algum lugar da memória onde os anos não conseguem entrar.
Naquela semana, estive à tarde no velório de uma e, à noite, na missa de sétimo dia da outra. Duas despedidas em um único dia. Dois encontros com a ausência. E uma pergunta que, desde então, insiste em me acompanhar: será que a minha safra começou a se esvair?
Enquanto estava no velório, pensei nas inúmeras vezes em que aquela amiga estivera no lugar em que eu estava, oferecendo consolo, abraçando familiares e honrando a partida de outras pessoas. Quantas despedidas ela havia testemunhado sem imaginar que um dia, seria ela a ocupar o centro da saudade.
Quantas vezes nós também cumprimentamos alguém, trocamos palavras corriqueiras ou nos despedimos com um simples até logo, sem saber que aquele poderia ser o nosso último encontro?
A vida não costuma anunciar suas últimas cenas. Não há música de fundo, aviso prévio nem calendário na parede assinalando a data da despedida. Seguimos vivendo, e pode ser justamente essa ausência de anúncios que nos faça acreditar, equivocadamente, que ainda teremos tempo para tudo.
Vivemos como se tivéssemos assinado um contrato de duração indeterminada com a existência. Fazemos planos para daqui a cinco anos, adiamos conversas importantes, guardamos roupas para ocasiões especiais, economizamos abraços e deixamos o descanso para depois de resolver todas as pendências. Como se a vida fosse uma lista de tarefas que, uma vez concluída, nos concedesse finalmente o direito de ser felizes.
Fazemos construções e compramos bens, como se fossem nossos eternamente, mas um dia outras pessoas ocuparão os lugares e bens que chamamos de nossos, que também serão chamados deles, mas na verdade, não é de ninguém.
A vida não é uma sala de espera. E o amanhã, por mais provável que pareça, nunca foi uma promessa assinada.
Pode ser que uma das maiores dificuldades humanas seja compreender que a morte não é uma injustiça cometida exclusivamente contra os outros. Ela faz parte da condição de todos nós, sem distinção de idade, patrimônio, prestígio ou quantidade de compromissos na agenda. Diante dela, os títulos perdem a importância, as contas ficam para quem fica e os objetos retornam ao mundo das coisas. O que permanece, de verdade, é aquilo que fomos capazes de representar na vida de alguém.
Um dia, seremos também a fotografia sobre um móvel, o nome pronunciado com saudade, a história contada durante um almoço de família. Seremos a receita que alguém aprendeu conosco, uma expressão que nossos filhos repetirão sem perceber, uma gentileza que alguém jamais esqueceu, uma gargalhada que ainda ecoará na memória dos amigos.
Eis uma curiosidade da existência: chegamos ao mundo sem trazer coisa alguma e partiremos sem levar nossos pertences. Ainda assim, durante o intervalo entre a chegada e a partida, podemos construir uma riqueza que não cabe em cofres, não depende da cotação do mercado e não perde valor com o passar dos anos: a riqueza de ter feito diferença na vida de alguém.
Não escrevo estas linhas para entristecer ninguém. Seria um desperdício transformar a consciência da finitude em mais uma razão para sofrer. Penso justamente o contrário: reconhecer que a vida é breve deveria nos tornar mais leves, mais presentes e, quem sabe, até mais bem-humorados diante de certas urgências que fabricamos para nós mesmos.
Vale a pergunta para refletir e desacelerar: quantas das nossas preocupações sobreviverão à próxima década? Quantas discussões merecem o preço de uma noite mal dormida? Quantas vezes sacrificamos a paz tentando provar que temos razão, quando poderíamo simplesmente preservar o afeto? Há batalhas que vencemos e, ainda assim, saímos derrotados porque perdemos a ternura, a serenidade ou a companhia de quem amamos.
Não precisamos esperar por um diagnóstico, uma despedida ou uma fotografia antiga para perceber que o essencial sempre esteve ao alcance das mãos, como a delicia e a simplicidade de um café compartilhado sem pressa, na conversa que se estende além do previsto, na visita que fazemos sem precisar de uma justificativa, na ligação para quem anda sumido, estar na mesa onde a família se reúne, mesmo com opiniões divergentes e histórias repetidas; nos amigos que conhecem nossas versões menos brilhantes e permanecem por perto; na capacidade de pedir perdão, recomeçar e oferecer a alguém a oportunidade de ser melhor do que foi ontem.
Cultivar esses afetos também é produzir uma boa safra.
E não falo de uma vida perfeita, dessas que parecem existir apenas nas fotografias cuidadosamente selecionadas. Falo de uma vida real, com suas perdas, contradições, tropeços e recomeços. Uma vida em que a felicidade não dependa de todos os problemas resolvidos, mas da capacidade de reconhecer o que floresce mesmo quando algumas coisas não vão bem. florescer não é viver sem tempestades. É aprender a não entregar a elas o comando de todas as estações.
Que saibamos florescer na família, sem exigir que todos sejam iguais a nós; nas amizades, oferecendo presença em vez de apenas boas intenções; no trabalho, deixando contribuições que sobrevivam à nossa ausência; e na comunidade, praticando o bem sem precisar de plateia. Que nossas palavras construam pontes, nossas atitudes inspirem confiança e nossa passagem por este mundo não seja medida apenas pelo que conquistamos, mas também pelo que ajudamos os outros a conquistar.
Depois dessas duas despedidas, minha vontade não é falar sobre a morte, mas reafirmar meu compromisso com a vida.
Quero viver mais atenta, agradecer mais, julgar menos e amar melhor, cuidar das pessoas que amo sem esquecer de cuidar de mim, continuar fazendo planos, mas sem transformar o futuro em um credor que cobra o presente como pagamento. Quero sonhar com as próximas estações sem deixar de apreciar o sol que ilumina esta.
Não sei quanto ainda me resta. O saldo desta conta não esta disponível e nenhum de nós sabe. Mas sei que posso escolher o que plantar em cada uma delas, como por exemplo: posso semear gentileza, cultivar alegria, adubar relações com paciência e retirar, sempre que necessário, as ervas daninhas do ressentimento, da vaidade e das mágoas que insistimos em regar.
Consciência de nossas vulnerabilidades e finitude talvés seja isso: perceber que o tempo não precisa ser nosso inimigo, desde que deixemos de tratá-lo como um recurso inesgotável. Não controlamos a duração da jornada, mas temos alguma responsabilidade sobre a maneira como caminhamos. Não escolhemos todas as circunstâncias, mas podemos decidir, tantas vezes quantas forem necessárias, o que faremos com aquilo que a vida nos oferece.
Por isso, meus amigos, que não esperemos pela despedida para valorizar a presença, nem pela ausência para reconhecer o amor. Não deixemos para o acaso ou para a aposentadoria, a alegria das férias, o descanso, a festa de aniversário, o abraço… e para um dia indefinido a coragem de realizar o que faz sentido que aumenta o nosso percentual de felicidade.
Que sejamos felizes não apenas quando alcançarmos nossos objetivos, mas também durante o percurso. Porque a vida não se resume ao lugar aonde chegamos, mas às pessoas que levamos conosco, aos encontros que nos transformam e ao bem que espalhamos pelo caminho. A vida é breve demais para ser adiada e preciosa demais para ser vivida pela metade.
Que saibamos aproveitá-la com gratidão no coração, leveza na alma e esperança renovada a cada amanhecer. Que tenhamos coragem para amar, disposição para recomeçar, sabedoria para escolher nossas batalhas e generosidade para deixar o mundo um pouco melhor do que o encontramos.
Sabe por que? Porque quando chegar a nossa vez de partir, pouco importará quantas estações atravessamos ou quantos frutos acumulamos para nós mesmos. Importará saber se contribuimos para deixar a vida de alguém mais leve, se fomos abrigo em algum dia difícil, se ajudamos alguém a evoluir e se deixamos amor suficiente para continuar germinando depois da nossa partida. Isso é legado.
Não sabemos quando terminará a nossa safra. Mas podemos decidir, desde hoje, que sementes deixaremos na terra. E que, quando já não estivermos aqui, ainda haja flores nascendo pelas sementes que aqui deixamos.
Leia a coluna anterior:
A crise do meio-dia: quando se pede sobremesa antes do almoço
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