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Professor Titular aposentado do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
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Em 1975, ano do lançamento do disco Minas, gravado por Milton Nascimento, eu era estudante do curso de graduação em Engenharia Elétrica no Campus II da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), atual Universidade Federal de Campina Grande (UFCG).
Antes disso, eu já acompanhava a obra desse talentoso artista da música popular brasileira desde a sua participação no II Festival Internacional da Canção, em 1967, quando obteve o segundo lugar ao interpretar “Travessia”, composta por Milton Nascimento em parceria com Fernando Brant.
O disco Minas é reconhecido como uma das obras-primas de Milton Nascimento, tanto pela densidade artística quanto pela coerência estética com a qual articula sons, palavras e imagens. Trata-se de um álbum que marca a maturidade criativa de Milton, alicerçada na obra seminal do Clube da Esquina.
O título Minas possui um significado engenhoso. Além da evidente referência simbólica e afetiva ao estado de Minas Gerais — espaço formador da sensibilidade, da memória e da cultura de Milton — o nome do álbum resulta também da junção das sílabas iniciais de “Mi-lton” e “Nas-cimento”. Essa dupla leitura confere ao título uma dimensão ao mesmo tempo geográfica e autobiográfica, fazendo de Minas uma espécie de autorretrato musical do artista.
Na capa do álbum, é apresentado o rosto de Milton Nascimento em “close-up”. A imagem fotográfica traz olhar e na fisionomia do artista, uma forte carga expressiva no, sugerindo introspecção, densidade emocional e silêncio. O enquadramento fechado elimina distrações e conduz o observador a uma relação direta com o intérprete, reforçando a ideia de que o álbum é profundamente pessoal.
O repertório de Minas é marcado por grande unidade estética e riqueza poética. Nele, destacam-se canções como “Minas”, “Fé cega, faca amolada”, “Beijo partido”, “Saudade dos aviões da Panair (Conversando no bar)”, “Ponta de Areia” e “Trastevere”, compostas por Milton Nascimento em parceria com Fernando Brant, Toninho Horta, Ronaldo Bastos e Márcio Borges.
Os arranjos de Wagner Tiso são sofisticados e profundamente integrados às canções. Neles, podem ser identificados elementos do jazz, da música erudita, do rock e da canção popular brasileira, criando texturas sonoras complexas e expressivas. O uso criterioso de cordas, metais, coro infantil e variações rítmicas amplia o sentido das letras e potencializa a carga dramática das interpretações.
Além de Wagner Tiso, o álbum Minas conta com a participação de músicos que fizeram parte do histórico Clube da Esquina, como Beto Guedes, Lô Borges, Nelson Ângelo, Robertinho Silva e Toninho Horta, entre outros instrumentistas de alto nível.
A interpretação de Milton Nascimento em Minas é um dos pontos culminantes de sua carreira. Sua voz, de timbre singular e grande extensão vocal, transita entre a suavidade contida e a intensidade dramática, sempre com elevado domínio técnico e controle expressivo dos falsetes.
Assim, revisitando Minas, cinquenta anos depois, percebo que se trata de um álbum atemporal, uma obra orgânica, coesa e sistêmica. Nele, título, capa, repertório, arranjos e as interpretações de Milton e dos convidados articulam-se de forma coerente, configurando-se como um marco sonoro no universo da música popular brasileira.
Atenção: Os artigos publicados no ParaibaOnline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo ao exercício da pluralidade de opiniões.
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